O primeiro sinal público de desagrado interno no PSD foi verbalizado por Manuel António Correia, adversário de Miguel Albuquerque e que não foi eleito líder do PSD nas eleições de março por 392 votos, ao quarto dia do incêndio, a 17 de agosto..A polémica era simples de perceber. Um incêndio, na fase inicial, a ser combatido por seis bombeiros [eram 16 no segundo dia] que alastrava a quatro concelhos; a recusa de Albuquerque em receber ajuda do Governo da República porque não recebia “lições”; e, claro, as férias e as fotos de do líder do Governo no descanso de uma espreguiçadeira. Não estava sozinho. Também o responsável político da proteção Civil, Pedro Ramos, desfrutava de férias em Porto Santo..“O que temos visto é repentismo, desorganização e falta de sentido de Estado. Ao descontrolo do fogo, acrescenta-se o descontrolo do Governo Regional, o qual, ao contrário do que era seu dever, está a contribuir para aumentar o sentimento de insegurança das populações”, criticou Manuel António Correia que exigiu que “quem tem responsabilidades políticas que esteja à altura das mesmas, para defesa das populações que juraram defender”..E a este desafio juntava-se uma denúncia. A delegação da Madeira do Sindicato dos Jornalistas tornou públicas “pressões e restrições” vindas do Governo regional..O que disse Albuquerque? “O Governo trabalha em termos profissionais e não anda aqui a brincar”..Outra denúncia: jornalistas no terreno relatavam que as pessoas tinham medo de falar, de falar dos incêndios, por temerem “represálias”. E muitas vezes a explicação era linear: são “funcionários públicos”..Este acumular criou “desagrado” nos sectores do PSD próximos de Manuel António Correia, mas também no dos “apoiantes” de Albuquerque. No entanto, contactados pelo DN, recusam falar. “Não é o momento”, dizem alguns. Outros preferem o silêncio..“O que está em questão não é o incêndio, o que está em questão é a ambição de certas criaturas pelo poder”, conclui Albuquerque que recusa mudanças do executivo. .Os alvos e as críticas Os nomes da “desorganização e falta de sentido de Estado” estão identificados: Miguel Albuquerque, presidente do Governo Regional; Pedro Ramos, secretário regional da Saúde e Proteção civil; Rafaela Fernandes, secretária Regional da Agricultura, Pescas e Ambiente; Manuel Filipe, presidente do Instituto de Florestas e Conservação da Natureza; e António Nunes, presidente do Serviço Regional de Proteção Civil..São estes os cinco rostos a quem os partidos da oposição, até mesmo PAN e Chega que suportam parlamentarmente o executivo - tal como o CDS, apontam responsabilidades..Miguel Silva Gouveia, vereador do PS na câmara do Funchal, considera que o presidente do Instituto de Florestas e Conservação da Natureza e o presidente do Serviço Regional de Proteção Civil “não têm condições para continuar nos cargos. São demasiadas trapalhadas com visibilidade nacional para se fingir que tudo funcionou”..Mas não apenas. Este socialista, que não pertence à linha política de Paulo Cafôfo, também defende que o “secretário da Proteção Civil deve ser demitido” por Albuquerque. “Caso contrário”, diz “todo o executivo perde as condições políticas para se manter em funções”..“A credibilidade deste Governo, que já andava pelas ruas da amargura, bateu no fundo. Já ninguém leva a sério Miguel Albuquerque e sente-se na rua um descontentamento consensual para com ele. Nem o processo judicial motivou tanta opinião negativa. Albuquerque, do alto desta soberba e arrogância, só se manterá no poder se o receio do PS, JPP e Chega em perder deputados numas novas eleições falar mais alto. No PSD Madeira muitos contam com esse receio potenciado pelos resultados das europeias para domesticar a oposição”, conclui..Carlos Pereira, antigo líder do PS Madeira, que entende úteis “todas as iniciativas políticas de avaliação de responsabilidade nos parlamentos da Madeira e da República”, constata que “nos últimos 12 anos a Madeira teve cinco grandes incêndios graves”, o que “não é normal e quer dizer que a prevenção falhou e tem falhado”. E neste caso “se não houve responsabilidades efectivas houve muita incompetência política e demasiada soberba, o que é inaceitável”..E deixa um aviso:”Não basta as expressões mais ou menos levianas do Presidente do Governo e do seu Secretário [o da Proteção Civil ]para dar por concluído este processo político”..José Manuel Rodrigues, líder do CDS Madeira, que contrariando Albuquerque quer a criação de uma comissão independente porque “há investigações a fazer, esclarecimentos a prestar e factos que devem ser apurados”, diz que “as responsabilidades políticas que eventualmente existam, serão apuradas no Parlamento” até porque, explica, o “PS apresentou uma Comissão de Inquérito de constituição obrigatória”..É também neste palco, o do Parlamento Regional, que o PCP entende que deve ser feito o apuramento de todas as responsabilidades políticas em relação à catástrofe provocada pelos incêndios”. Será, diz Edgar Silva, “nesse exercício de apuramento das responsabilidades políticas que os cidadãos terão oportunidade de verificar quem defende o interesse público e quem apenas serve, a todo o custo, o regime implantado na Madeira”..Miguel Castro, líder do Chega regional, por seu lado, considera que as responsabilidades devem ser assumidas “especialmente pelos responsáveis máximos da Proteção Civil Regional e pelo presidente da gestão do ordenamento florestal e da conservação da natureza”..E se a ameaça de moção de censura do Chega se concretizar? “Lá estarei para a votar favoravelmente”, garante Nuno Morna da IL. “Quem de direito que apresente uma moção de censura porque eu como deputado único não posso”..O próprio Miguel Albuquerque admite este cenário como provável. Basta que CDS e PAN ou Chega, por exemplo, recuem no atual apoio parlamentar e o Governo cairá..“Era expectável”, por isso, considera, Roberto Almada do BE, “que a oposição representada no Parlamento madeirense avançasse imediatamente com uma moção de censura ao atual governo”..“Era”, sublinha, porque “estranhamente, ou talvez não, o PS e o JPP estão mais entretidos em avançarem com comissões de inquérito, cujo efeito é zero, e de onde jamais sairá qualquer condenação política a este governo, apoiado pelo Chega, PAN e CDS”..Mónica Freitas, do PAN, que garantiu juntamente com o CDS um novo governo PSD que não conseguiu maioria nas últimas eleições regionais, atira responsabilidades para uma sucessão de escolhas políticas a começar pelo próprio presidente do Governo Regional que é quem “escolhe os seus secretários/as e que por sua vez tutela as respetivas áreas”..Tradução? “Os mesmos devem fazer uma avaliação da sua forma de atuação” porque “o que falhou e falha é o trabalho de prevenção. É preciso que quem está à frente desta área tenha consciência ambiental, conhecimento técnico e assuma as suas responsabilidades face à perda de floresta a que assistimos”..“Podem averiguar o que quiserem”, responde Albuquerque que reitera que todas as decisões tomadas pelo Governo foram “corretas”..Élvio Sousa do JPP (Juntos pelo Povo) e Paulo Cafôfo do PS Madeira optaram por não responder às questões do DN.