Luís Neves foi diretor nacional da Polícia Judiciária entre 2018 e 2026.
Luís Neves foi diretor nacional da Polícia Judiciária entre 2018 e 2026.Reinaldo Rodrigues

Luís Neves desagradado com comunicado da PJ. Ministro vai alegar que entrega do atrelado está documentada

Ministro da Administração Interna não reage publicamente, mas DN sabe que tem como ponto assente que entrega de atrelado apreendido a João Santos Carvalho foi documentada e não lesou o Estado.
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O ministro da Administração Interna, Luís Neves, não vai reagir publicamente ao comunicado da Polícia Judiciária, motivado pela notícia do Nascer do Sol sobre um atrelado apreendido numa operação de combate ao tráfico de droga que estava na posse do empreiteiro João Santos Carvalho, que fez obras numa casa que Neves possui no concelho de Odemira, mas o DN sabe que o seu conteúdo desagradou ao governante, até ao início do ano diretor nacional dessa polícia de investigação.

Apesar de o comunicado divulgado nesta sexta-feira pela direção nacional da Polícia Judiciária dar conta de que as circunstâncias que rodearam a deslocação da galera - nome técnico dado a este tipo de atrelado para transporte de mercadorias - para Barcelos, nas instalações da empresa unipessoal de João Carvalho, estão a ser investigadas num inquérito interno, o que foi comunicado ao Ministério Público, é ponto assente para o ministro que a entidade que dirigiu entre 2018 e 2026 soube sempre onde se encontrava o atrelado, e em que circunstâncias foi parar à Construbarcelos, num processo devidamente documentado e em que em nenhum momento prejudicou os interesses da Polícia Judiciária e do Estado.

Apreendido no final de 2024, numa operação de combate ao tráfico de drogas, o atrelado carregava material químico para a transformação de estupefacientes. Nessa altura, devido ao risco que tais produtos representam, e à escassez de espaço disponível nas instalações onde a Polícia Judiciária deposita bens apreendidos, foi decidido solicitar espaço à Marinha, que permitiu a sua colocação no Seixal.

No verão seguinte, depois de terem sido requeridos orçamentos para a destruição dos químicos, tendo os valores apresentados sido considerados acima da capacidade financeira da Polícia Judiciária, a Marinha terá informado que não poderia manter a galera nas instalações da Autoridade Marítima e requerido a sua retirada com carácter de urgência. Terá sido então que, numa consulta a prestadores de serviços da entidade então liderada por Luís Neves, o empreiteiro João Santos Carvalho, que se apresenta como amigo do atual ministro e teve adjudicadas 17 empreitadas quando este dirigia a Polícia Judiciária, ter-se-á oferecido para retirar o atrelado.

Ao que o DN apurou, o transporte para um terreno no distrito de Braga, detido pelo empreiteiro, terá sido acompanhado por uma viatura do núcleo de apreendidos da Polícia Judiciária, tendo todo o conteúdo do atrelado sido inventariado e registado. Algo que fez com que Luís Neves tenha ficado particularmente desagradado ao saber que a direção nacional da entidade que liderou até ao início do ano, assumindo a pasta da Administração Interna que fora deixada vaga pela demissão de Maria Lúcia Amaral, determinou a instauração de um inquérito para apurar as circunstâncias da movimentação do atrelado, que estava atracada a um camião da empresa Construbarcelos, admitindo-se que "poderia confirmar a prática de ilícitos criminosos".

Também a Procuradoria Geral da República (PGR) confirmou hoje, em resposta a questões colocadas pelo DN, que foi aberto um inquérito a "bens apreendidos" no âmbito da Operação Pacoba. Esta foi uma megaoperação da PJ que desmantelou uma unidade industrial de cocaína na região Oeste. O atrelado em causa é um dos bens apreendidos.

Segundo o comunicado, divulgado nesta sexta-feira, após a notícia do Nascer do Sol, foi na terça-feira passada, 14 de julho, que a direção nacional da Polícia Judiciária "teve conhecimento de que uma galera apreendida, no âmbito de um inquérito relacionado com o tráfico de estupefacientes, havia sido movimentada e parqueada em Barcelos".

O atrelado foi removido do local, estando novamente à guarda da Polícia Judiciária, tal como os produtos que estavam no seu interior. E que, segundo o comunicado, "não têm natureza estupefaciente".

A permanência de Luís Neves no Governo está a ser posta em causa pela oposição, na sequência de uma investigação jornalística do Nascer do Sol às suas ligações ao empreiteiro João Santos Carvalho, que fez obras numa casa detida pelo antigo diretor nacional da Polícia Judiciária no concelho de Odemira. Nesta quinta-feira, no debate sobre o Estado da Nação, Luís Montenegro respondeu a André Ventura, líder do Chega, que mantém "plenamente" confiança no seu ministro da Administração Interna.

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