Na véspera de Portugal ver aprovado por Bruxelas um plano recorde de 5,8 mil milhões para aplicar na Defesa, o DN comparou posições recentes dos candidatos presidenciais para perspetivar como se poderá comportar o próximo chefe de Estado na política externa, especificamente no relacionamento com os EUA e Donald Trump e quanto à continuidade da própria NATO. Em traços gerais, António José Seguro, Gouveia e Melo, Marques Mendes e André Ventura não precisam totalmente a sua ação, o que, face às ameaças de Trump quanto à Gronelândia, pode significar a agressão a uma região autónoma de um aliado, a Dinamarca. Os candidatos de esquerda e Cotrim de Figueiredo elaboram, mais detalhadamente, os raciocínios.Após a ação militar na Venezuela, António José Seguro disse que “não houve nenhuma intervenção com o objetivo de repor a democracia”, instando o Governo a “proteger os cidadãos portugueses”. Apesar disso, não prosseguiu a crítica aos EUA. No debate com Catarina Martins, tinha sido mais taxativo quanto à sua visão para a política externa. “A Europa deve aumentar a sua autonomia estratégica na Defesa e Segurança, mas não deve nunca sair da NATO”, vincou, criticando o investimento de 5% do PIB.Marques Mendes, a 3 de dezembro, dizia no debate com Seguro que “via pontos positivos no investimento para a Defesa”, entendendo que assim “não se via a discussão do fim da NATO”. Disse temer que a invasão à Venezuela pudesse “legitimar outras situações” e concordou que esta foi feita “à margem do direito internacional”, revelando-se “mais pessimista” do que o Governo Português quanto às intenções de Trump, mas sem detalhar o plano em relação aos Estados Unidos. No final do ano de 2025, vincou a necessidade de “autonomia estratégica na economia”, de modo a evitar que a União Europeia seja “uma colónia” dos EUA ou da China, tabelando o discurso com Seguro.Em julho, por sua vez, Gouveia e Melo declarava que “Portugal seria prejudicado se a Aliança perdesse o pendor atlântico e se tornasse numa NATO europeia e continental”. A 20 de novembro, em debate com Cotrim de Figueiredo, vincou que “no dia em que os americanos saírem da Europa, haverá um problema de segurança dentro do próprio continente”. Desde aí asseverou que via uma “deriva perigosa”, até reconhecendo a mudança internacional. Pediu há dois dias “uma ação de repúdio”, mas considerou que os “EUA estão limitados no seu poder” e que, sem os Aliados , “cometerão um erro muito grande”. Para o almirante há, portanto, a convicção de que a invasão à Gronelândia não se confirmará, não detalhando, como chefe de Estado, grandes mudanças no cenário internacional. Enquanto alinha com a esquerda na condenação do valor de 5% do PIB para investimento, aceitaria que tropas portuguesas fossem mobilizadas para cumprir os protocolas do pacto militar. .Gouveia e Melo só vê NATO com EUA a defender a Europa. Jorge Pinto e Cotrim de Figueiredo pedem um braço continental forte. Ventura é quem menos ataca Trump. Seguro e Marques Mendes querem reforço de verbas, mas não se alongam em críticas.Posições dos candidatos em relação aos EUA.Só candidatos do centrão evitam ataque acérrimo a Marcelo Rebelo de Sousa.Bruxelas aprova quarta-feira o plano português para empréstimos de 5,8 mil milhões de euros na Defesa."No dia em que os americanos saírem da Europa haverá um problema de segurança no próprio continente.”Henrique Gouveia e Melo."A Europa deve aumentar a sua autonomia estratégica na Defesa e Segurança, mas não deve nunca sair da NATO.”António José Seguro."É preciso autonomia estratégica na economia de Defesa para que a Europa não seja uma colónia de China ou EUA.”Luís Marques Mendes.André Ventura foi o único candidato a saudar a intervenção de Trump na Venezuela, mas disse esta segunda-feira que não tem “candidatos de preferência” e que já criticou “várias vezes Trump” e que o fará em caso de ataque a um país aliado. Tem avisado que “foi um erro o desinvestimento da Europa em Defesa”, valorizou, acima de tudo, “a importância de ajudar a Ucrânia a derrotar a Rússia”, nunca respondendo aos desafios dos concorrentes diretos, que lhe queriam ver uma palavra de crítica aos Estados Unidos da América em caso de uma invasão dos Açores. Mesmo enquanto chefe de Estado, Ventura disse querer confrontar Lula da Silva, João Lourenço e líderes europeus, mas nunca colocou em causa a aliança com os Estados Unidos.João Cotrim de Figueiredo reuniu com o embaixador da Dinamarca em Portugal, Lars Steen Nielsen, no domingo e, por isso mesmo desafiou outros candidatos a pronunciarem-se sobre Defesa. O repto, diga-se, não foi seguido, sendo claro que há um controlo concreto do que é dito em relação à posição internacional, nomeadamente na relação com os Estados Unidos da América. “As ameaças sobre a Gronelândia são um enorme desafio à coesão da NATO e podem, inclusivamente, ser a sua sentença de morte”, frisou o eurodeputado após o encontro, lembrando que “depois de décadas de desinvestimento, a UE não está preparada para ombrear militarmente com os Estados Unidos”. “E é neste quadro de enorme dificuldade que vale a pena nos prepararmos, desde já, Portugal enquanto país soberano, mas Portugal também enquanto membro de organizações como a NATO e a União Europeia”, assinalou, vincando o projeto europeísta na Defesa, lamentando que o “tema não tenha entrado na agenda.” Na semana passada, disse mesmo que vinha desde a tomada de posse de Trump “a pensar de forma diferente.”Jorge Pinto respondeu ao repto do DN. “Tem de haver uma posição para uma Comunidade Europeia na Defesa, que tenha autonomia e que seja um projeto de paz. A questão não é discutir a nossa continuidade da NATO, mas as garantias que os Estados Unidos dão, porque está claro, está escrito que deixaram de ser amigos da Europa. O grande problema é o fim da NATO como o conhecemos”, disse ao DN o candidato apoiado pelo Livre, que valida, em linhas gerais, com a visão de autonomia europeia que Cotrim dissera, embora aponte ao liberal “a crítica frouxa ao ataque ilegal” dos EUA na Venezuela e que a “coerência tinha de ser a mesma na Ucrânia e no genocídio em Gaza.” A Ventura, acusa de querer “estar ao lado de quem quer acabar com Europa”, considerando-o um “traidor de Portugal”. Criticou ainda os 5% para a Defesa, um “número arbitrário decidido por Trump, e a ausência de afirmações perentórias e oficiais do Governo, salientando que "só Pedro Sánchez [Espanha] teve coragem para fazer perguntas."No domingo, Catarina Martins disse ser “o momento de a Europa começar a pensar em formas de cooperação para a sua segurança, não com os Estados Unidos, mas apesar dos Estados Unidos”. “Trump não está numa deriva perigosa, Trump é um perigo. É um perigo para o seu povo e um perigo no mundo”, vincou, em resposta à declaração mais temperada de Gouveia e Melo. Ao DN, a 2 de dezembro, reforçou que “a Constituição da República Portuguesa fala de dissolução de todos os blocos político-militares e, portanto, alguém que jura cumprir a Constituição deve levar esse juramento a sério”, questionando uma NATO que tem em Trump “um dos maiores perigos.”António Filipe repete a ideia de Portugal precisar de “uma voz própria”, criticou e associou “intervenções militares externas aos fascistas.” Em dezembro, ao DN disse que a “Constituição defende a abolição dos blocos político-militares”, mas que não tem nos “propósitos como Presidente da República, todas as quintas-feiras, estar a dizer ao primeiro-ministro: ‘Olhe, veja lá, tem de sair da NATO.’ Não está em cima da mesa. Só deixaríamos a NATO se existisse um consenso nos órgãos de soberania”, explanou. ."Foi um erro a Europa desinvestir em Defesa. Trump? Não tenho candidatos de preferência, já o critiquei várias vezes.” André Ventura."Não está nos meus propósitos, como Presidente da República, estar a dizer ao primeiro-ministro: ‘Olhe, veja lá, tem de sair da NATO.’” António Filipe."As ameaças à Gronelândia são um enorme desafio à coesão da NATO e podem, inclusivamente, ser a sua sentença de morte.”João Cotrim de Figueiredo."A questão não é discutir a nossa continuidade na NATO, mas as garantias que os Estados Unidos dão. Deixaram de ser amigos da Europa.”Jorge Pinto."A Constituição fala de dissolução de todos os blocos político-militares. Alguém que jura cumpri-la deve levar esse juramento a sério."Catarina Martins.Presidenciais. Cotrim distancia-se de Ventura na Defesa e puxa combatentes para agenda política .Jorge Pinto: “Uma revisão constitucional feita só com a direita e a extrema-direita é uma possibilidade de golpada”