Centeno alerta para aumento da despesa pública e compara Montenegro a José Sócrates
Nestes últimos meses, Mário Centeno tem usado a palavra para se vincar crítico das contas públicas atuais, pedindo correções orçamentais para 2027. O ex-ministro das Finanças, que já contestou também o PS por se tentar "substituir ao Governo", assina esta quarta-feira, 7 de outubro, um artigo de opinião no jornal Público em que lembra as dificuldades de tesouraria do Estado durante os tempos de José Sócrates como primeiro-ministro. Tece uma comparação entre Montenegro e o antigo líder socialista.
No início do artigo, de título "Montenegro destrona Sócrates", Centeno lembra que "entre 2024 e 2026, a despesa pública cresceu 25% e a economia [nominal], 19%, ambas [cresceram] mais do que em períodos sem inflação", apontando que "o Governo de Montenegro bate recordes de iliteracia financeira" e que o "caminho é insustentável."
Apela a uma mudança de rumo no Orçamento do Estado. Há duas semanas, em entrevista ao Jornal Negócios e Antena 1 já lembrara 12 mil milhões para serem recuperados. "Temos dois anos para corrigir 12 mil milhões de euros de desvio face ao compromisso que o país assumiu com Bruxelas: até 2028, a despesa líquida deveria subir 29%; se nada for feito, o Banco de Portugal diz que subirá 41%. Até 2026, já cresceu 28%, fica um ponto percentual para 2027 e 2028: uma métrica da impossibilidade, que nem cobre o aumento dos preços. Isto não é bom. Famílias e empresas, preparem-se. Nos últimos dias, juntaram-se mais 800 milhões de euros [refere-se ao alívio no IRS até ao sexto escalão e ao bónus aos pensionistas, ainda faltando nas contas o aumento no Complemento Solidário para Idosos] de medidas a este desvio e, no primeiro semestre, as despesas com pessoal e consumo intermédio cresceram 486 milhões de euros acima do previsto no Orçamento do Estado. De uma penada, juntámos mais 1,3 mil milhões de euros à mochila que nos fazem carregar", descreveu.
O ex-governador do Banco de Portugal, que continua a deixar em aberto o futuro político apesar de não ser ainda militante do Partido Socialista, faz uma crítica generalizada. "Nada disto seria necessário, se quem nos governa hoje tivesse estudado para além do 10 anémico, como quem espera uma repescagem", diz, recuando no tempo, passando por vários governos. "Entre 1985 e a crise de 2011, em todos os governos o aumento da despesa excedeu sempre o crescimento da economia. No topo esteve José Sócrates, 1,8 pontos percentuais por ano acima do crescimento da economia, penalizado pela crise financeira de 2009. Durão e Santana não foram melhores, 1,5 por ano. Este foi o cenário entre 1985 e 2011. Ninguém fez diferente", critica.
Exaltou apenas os méritos da governação de António Costa, que ladeou no Governo: "A situação orçamental de 2019 permitiu uma resposta controlada à crise pandémica. Em 2023, tínhamos melhorado os resultados face ao período da pré-pandemia. No Governo de Costa, a despesa cresceu menos 3,3 pontos percentuais por ano do que a economia; quase quatro vezes mais do que com Passos Coelho. A consolidação das contas públicas entre 2016 e 2019 foi o contrário da austeridade. Três anos volvidos, ficámos sem dinheiro perante a crise do primeiro-ministro, cujo impacto mais severo ainda nem chegou."
Prosseguiu depois na comparação do cenário económico de 2009. "O Governo de 2009 subiu os salários dos funcionários públicos e baixou o IVA em 1 ponto percentual. E foi crismado por estas medidas durante anos. Em 2026, o Governo revê 19 carreiras da administração pública e temos o maior número de funcionários públicos de sempre. Na Educação e Ciência mais 34 mil, na Saúde mais 38 mil face a 2014. Nada de mal – desde que haja dinheiro para pagar, mas a despesa cresce por ano 2,3 pontos percentuais.acima da economia", concretiza Mário Centeno, lançando o repto para o Orçamento do Estado: "A leitura da proposta do Orçamento do Estado para 2027 será simples: ou corrige a mão, ou o futuro reserva-nos penas mais duras."
