Poderosos encobriram-se uns aos outros na comissão de inquérito à CGD, diz relatório

Foi aprovada alteração do PSD às conclusões do relatório da comissão de inquérito que inclui que nas audições houve um grupo de poder que "reproduziu um padrão de encobrimento mútuo, através da defesa coletiva, do silêncio, da concertação de narrativas e mesmo da falta de memória".

Deputados do PSD, PCP e BE aprovaram esta quarta-feira, na comissão de inquérito à CGD, uma alteração do PSD às conclusões do relatório incluindo que nas audições houve um grupo de poder que se encobriu, usando estratagemas como falta de memória.

Esta proposta -- aprovada pelos deputados de PSD, PCP e BE, com abstenção de CDS-PP e contra de PS -- refere que "em Portugal existe e subsiste um grupo restrito de pessoas e empresas que beneficia e concede entre si tratamentos privilegiados, constituindo posições de vantagens para si, que se tornam em sacrifícios e desvantagens para os restantes agentes económicos e para os portugueses em geral".

Na comissão de inquérito, acrescenta, esse grupo "reproduziu um padrão de encobrimento mútuo, através da defesa coletiva, do silêncio, da concertação de narrativas e mesmo da falta de memória, um encobrimento mútuo de práticas de concessão de financiamentos e créditos de favor e de créditos especulativos com condições mais favoráveis, num processo que envolveu um triângulo nefasto de figuras do poder empresarial, político e financeiro".

O deputado do PCP, Paulo Sá, considerou que esta proposta vai ao encontro da ideia comunista de controlo pelos grandes interesses, o que provocou risos na sala, e referindo o seu voto favorável disse estranhar o facto de o PSD ter rejeitado anteriormente uma proposta do PCP que considerou semelhante, mas com outras palavras.

Duarte Pacheco respondeu que o PSD há muito tempo critica a promiscuidade entre o poder político e económico.

"Não nos venham dar lições, nós temos ações", afirmou, rejeitando que haja um estigma sobre todos os empresários e que o que os sociais-democratas criticam são os empresários privilegiados.

Os deputados da II Comissão de Inquérito à Recapitalização e Gestão da CGD estão esta quarta-feira a discutir e votar as propostas de alteração dos grupos parlamentares ao relatório final preliminar, que foi apresentado na segunda-feira pelo deputado relator João Almeida (CDS-PP).

O objetivo é os trabalhos ficarem fechados esta quarta-feira e o relatório final ser discutido na sexta-feira em plenário (o último do ano parlamentar).

No início desta reunião houve a aprovação do texto base do relatório final, que junta ao relatório preliminar as propostas de alteração consensualizadas (que contaram com o apoio de todos os deputados).

As propostas de alteração consensualizadas foram decididas numa reunião de duas horas ao início da tarde desta quarta-feira, à porta fechada, sem a presença da comunicação social. Contudo, houve um erro dos serviços e cerca de 50 minutos da reunião foram transmitidos pelo Canal Parlamento.

Os deputados estão agora a debater e votar as propostas de alteração dos partidos que não obtiveram consenso, sendo que só no final destes trabalhos será votado o relatório final desta comissão de inquérito à CGD.

O relatório preliminar da comissão de inquérito à CGD conclui que o banco público "não foi gerido de forma sã e prudente", que a grande maioria das perdas teve origem em créditos dados no mandato da administração liderada por Santos Ferreira, acusa o Banco de Portugal de pôr em causa a utilidade da supervisão e critica os governos que não agiram apesar dos alertas feitos.

O empresário Joe Berardo, grande devedor da CGD, e o ex-governador do Banco de Portugal Vítor Constâncio (que foi também líder do PS) foram os 'protagonistas' da comissão de inquérito parlamentar.

Exclusivos