Jovens são mais de 30% dos novos infetados desde junho

Salto ocorreu na segunda semana de junho, quando o número de menores de 30 anos infetados chegou a 44% do total nesse período. A partir daí, manteve-se sempre acima dos 30%. Tendência parece acompanhar a da zona de Madrid, onde a idade média dos novos infetados baixou para 35 anos nas últimas semanas.

Desde a declaração da pandemia que o número de novos infetados com menos de 30 anos está a crescer em percentagem do total no país. Porém, na segunda semana de junho deu um salto: foram reportadas 658 novas infeções nessa faixa etária, um acréscimo de 43,6% face à semana anterior (458). A partir daí, a percentagem de menores de 30 no reporte de infetados em cada semana esteve sempre acima de 30% - sendo neste momento de 18 702, no total acumulado de infetados do país (53 223), ou seja, mais de um terço.

O "salto" ocorreu mais de um mês após o final do estado de emergência (ou seja, do início do desconfinamento) e antes do final do terceiro período escolar, não havendo "explicação oficial" para este facto - até porque a evolução não está patente nos dados oficiais, foi encontrada pelo DN comparando os dados semanais de novos infetados.

Mas esta aparente tendência de "juvenilização" da infeção reportada foi já, e de acordo com diário espanhol El País, identificada na comunidade de Madrid, na qual a média de idades de todos os casos diagnosticados passou de 42 anos, entre 11 de maio e 9 de agosto, para 35 nas últimas duas semanas, com 74% dos casos detetados a corresponder a pessoas entre os 15 e os 59 anos - o que contrasta com o facto de que até 1 de maio, quando se viveu o pior da pandemia em Espanha, 70% dos que testaram positivo tinham mais de 60 anos.

Infetados mais jovens quadruplicam contactos

De acordo com o jornal espanhol, estes dados indiciam que a possibilidade de sobrevivência dos infetados está a aumentar - quanto mais novos são menos é provável que a doença os afete muito -, mas também que será mais fácil a infeção espalhar-se, já que a maioria dos contagiados têm uma vida social mais intensa, especialmente nesta altura de férias.

Isso mesmo parecem revelar os dados existentes, segundo afirmou na última terça-feira Enrique Ruiz-Escudero, responsável pela área de saúde da Comunidade de Madrid, onde vivem sete milhões de pessoas: "Desde há um mês e meio que o número de contactos por cada contágio aumentou, enquanto diminuiu a idade dos infetados. Passou-se de entre três e cinco contactos por infetado para cerca de 20." Ou seja, quatro vezes mais. Uma multiplicação que pode estar a contribuir para o aumento do número de infetados verificado nesta quinta-feira em Espanha - mais 2935, com Madrid na dianteira, com quase 30% (842).

Destes, cerca de 50% serão assintomáticos e 85% menores de 65, de acordo com as autoridades de saúde espanholas, enquanto a média de idades dos mortos está acima dos 83 anos, sobretudo relacionadas com surtos em lares de idosos.

Uma vida anormal "o mais normalmente possível"

Se Beatriz, 23 anos, estudante de mestrado a viver na Amadora, for exemplo do comportamento da sua faixa etária, podemos concluir que esta segue de perto as indicações das autoridades. "No início, não me encontrava de todo com ninguém, falávamos muito por mensagens e por videochamada. O meu círculo estava restrito ao meu agregado familiar e ao meu namorado, com quem mantive contacto. Durante a quarentena, ganhámos o hábito de ir fazer caminhadas ao ar livre e com distância de segurança. E fui-me encontrando com amigos assim. Apenas em maio estive ao vivo com um pequeno grupo de amigas (quatro a contar comigo) em casa de uma delas. Quando as coisas começaram a mostrar melhoras, comecei a expandir para outros amigos, almoços ao ar livre ou piqueniques ou em casa uns dos outros."

Só a partir de junho sentiu que podia deixar de estar metida em casa e começou a encontrar-se com mais gente, embora com precauções: "Sempre em grupos pequenos. Já frequento restaurantes e centros comerciais mas de forma muito mais cautelosa e sinceramente reduzida na frequência de visita."

"Uma amiga fez anos agora em agosto e fizemos uma festa num barco com 14 pessoas. O que tentamos sempre fazer é manter os mesmos grupos de pessoas. Claro que sabemos que cada um tem os seus diferentes e isso já cria uma 'cadeia' enorme. Ainda assim, sinto-me bastante segura, a maioria dos meus amigos está a trabalhar a partir de casa e, por isso, as interações com desconhecidos são limitadas. Todos temos os cuidados (máscara e desinfetante) e tendemos a estar juntos ao ar livre exatamente para não ter essas restrições tão presentes." E conclui: "Não estou de todo a fazer uma vida normal. Mas vamos vivendo o mais normalmente possível."

"Ao fim de uns copos há tendência para esquecer"

Mariana, advogada de 27 anos a viver em Lisboa, prepara a grande aventura da era covidiana para setembro: "Será um fim de semana de 15 pessoas no Alentejo. Até agora, não estive com mais de dez pessoas quer em convívios caseiros quer em jantares fora." Cumpre as normas da máscara, não se cumprimentam "desde que isto começou, apenas cotoveladas". Mas admite que "à volta de uma mesa acabamos por estar próximos e, ao fim de alguns copos (nada de exagerado, atenção), há uma certa tendência para nos esquecermos."

Também Keila, de 25 anos, investigadora a residir no Porto, tem frequentado "jantares-convívio em casa até mais tarde" a partir de agosto, depois de numa primeira fase do desconfinamento se ter encontrado com os amigos em espaços abertos, esplanadas e miradouros. Uma precaução que ainda não abandonou, assim como os membros do seu grupo, é a de evitar os transportes públicos. Mas encara os amigos mais chegados como família: "A partir do momento em que deixamos os amigos entrar no nosso "safe space", nomeadamente em casa, é como se fizéssemos todos parte do mesmo agregado familiar."

"Estamos há cinco meses com o mesmo modelo de dados"

Em Portugal, não há dados oficiais sobre a proporção de assintomáticos entre os diagnosticados, embora a diretora-geral da Saúde, Graça Freitas, tenha garantido no início de julho que Portugal é dos países que mais assintomáticos deteta, alertando para o facto de que estes constituem um grande risco de transmissão por não saberem que estão infetados.

Confrontado com o aumento de jovens entre os infetados em Portugal e com o "salto" de junho, o pneumologista António Diniz, do gabinete de crise da Ordem dos Médicos, não arrisca uma análise. "Só se pode nesta altura especular sobre os motivos. Mas não fico surpreendido, na medida em que há tempo quente, férias, as pessoas convivem mais mas as pessoas mais velhas, pela temperatura, não se infetam tanto. Tal como não ficarei surpreendido se quando o tempo esfriar essa tendência se deslocar para os mais velhos." Considera, no entanto, que "nesta fase deveríamos ter mais informação e mais análises, com informação disponível com clareza e transparência para a população. Quando se apresentam apenas os totais, há muita coisa que fica por se saber. Por exemplo, seria muito interessante saber em cada região como tem evoluído a infeção nos grupos etários. Para não falar de não termos maneira de saber quantas pessoas entraram nos cuidados intensivos em cada dia, quantas morreram nos cuidados intensivos..."

Também pneumologista e igualmente do gabinete de crise da OM, Filipe Froes faz coro com o colega: "Estamos há cinco meses com o mesmo modelo de dados epidemiológicos. Depois destes meses todos de pandemia continuamos a ter o mesmo registo de informação - ou melhor, continuamos a ter o mesmo tipo de dados, porque o registo de informação até pode ter mudado, não sabemos. E para fundamentar decisões precisamos desse trabalho."

"Temos de identificar o que não sabemos"

O especialista sublinha, no entanto, face à "juvenilização" visível nos dados madrilenos, que "se encontra aquilo de que se vai à procura". Querendo dizer, explica, que "se no início da pandemia em Portugal e Espanha só se testavam pessoas com sintomas graves - e os espanhóis estavam inundados com doentes graves, quase todos idosos -, a partir de certa altura os critérios mudaram e passaram a ser testados os contactos do infetado, o que implicou apanhar mais assintomáticos e jovens". Quer isto dizer que o retrato que os números agora nos dão não é necessariamente uma evolução na realidade: pode ser só um alargar de perspetiva. Porque tudo, frisa, "depende dos critérios de testagem".

O epidemiologista Ricardo Mexia, presidente da Associação de Médicos de Saúde Pública, lembra que não estão a fazer-se "rastreios generalizados na população" e que, portanto, se está a identificar infetados "por relação com sintomáticos". Ou seja, as pessoas testadas são-no sobretudo por terem tido contacto com alguém que teve sintomas e foi diagnosticado como tendo covid. Será que se trata no caso dos mais jovens de infeções familiares? Ou advêm de contactos relacionados com grupos de amigos?

Certo é que não há um estudo conhecido que permita relacionar a evolução da infeção em Portugal com comportamentos de maior ou menor risco. E, se a ideia existente é de que os mais jovens tenderão a arriscar mais - quer por crerem que correm menos perigo se infetados quer por eventualmente terem menos sentido de responsabilidade e comunidade e menos tendência a cumprir regras -, na verdade não temos elementos para concluir nesse sentido.

Assim, a curva de crescimento dos infetados menores de 30 anos identificada pelo DN não tem uma interpretação fácil nem óbvia. Como aponta Filipe Froes, "é importante identificar o que não se sabe, para tentar saber e avançar".

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