Dois anos de adrenalina a explodir multibancos. Toda a história do maior gangue de sempre

Um batizado de 4000 euros pago com notas ainda com fuligem da explosão do multibanco, viagens e muitos carros e motas de alta cilindrada. Tudo à conta de dois anos de assaltos, 26 ATM´s explodidos, meio milhão de euros roubados

Começando pelo fim da história: 36 suspeitos, dos quais 10 mulheres, foram julgados pelo seu envolvimento direto - nas explosões de 26 caixas ATM - ou indireto - através do branqueamento do dinheiro roubado. O maior gangue alguma vez levado a julgamento.

Ouviram a sentença esta sexta-feira no tribunal de Setúbal, dois anos e meio depois de terem sido detidos pela Unidade Nacional de Contraterrorismo da PJ, em novembro de 2016. 17 condenados, 11 dos quais a prisão efetiva.

Os dois cabecilhas, que já estavam em prisão preventiva, com outros seis, desde essa altura, foram condenados a penas de 15 anos de cadeia cada um. Trata-se de Paulo Santos, o "Tuga", 35 anos, e Leonildo Fonseca, o "Leo", 32 anos, residentes no bairro da Cova da Moura. Nenhum tinha antecedentes criminais até entrarem neste espiral de criminalidade.

Foram mais de dois anos de muita adrenalina, sensação de poder, riqueza e arrogância de se acharem intocáveis. Só o que ficou provado em tribunal indica que explodiram 26 caixas multibanco, o que lhes rendeu mais de meio milhão de euros (um total de 587 mil e 462 euros).

"Gangue-carrossel"

O "bando" - como foram classificados pelo coletivo de juízes do tribunal de Setúbal, que os absolveu a todos da acusação de "associação criminosa" - tinha tentáculos em vários concelhos da zona da Grande Lisboa: havia o "grupo da Amadora", o "grupo de Cascais", o "grupo de Setúbal" e o "Grupo da Zona Oriental de Lisboa".

"Era o que designamos um 'gangue carrossel', que vão utilizando diferentes operacionais de acordo com a zona onde querem atuar", explica um investigador que esteve envolvido neste processo.

O acórdão, a que o DN teve acesso, tem 535 páginas e faz uma descrição detalhada de cada um dos assaltos, do papel de cada um, dos rendimentos que tiveram e dos danos que causaram (pelos quais foram também condenados a pagar elevadas indemnizações, de mais de 300 mil euros).

"Leo" chegou a pagar em dinheiro vivo 4000 euros pelo batizado da sua filha, em maio de 2016, na Quinta do Pavão, em notas de 10 e 20 euros, nas quais foram depois detetados "vestígios de fuligem", resultantes da explosão de uma caixa ATM em cujo assalto tinha participado na madrugada desse dia, nas piscinas municipais de Pinhal Novo.

"Tuga" comprou uma moto Kawasaky por 5800 euros e um Alfa Romeu no valor de 3700, pagos com notas, que foram depois apreendidas e que também tinham "vestígios de fuligem e de queima".

Outro dos condenados, Aristides Moreira, "Tide", comprou também em dinheiro vivo, um pacote turístico para ele e para a namorada, com destino à República Dominicana. As notas estavam também "marcadas".

Pelo menos 15 carros topo de gama, entre BMW's, Mercedes, Audis, e mais de uma dezena de motos de alta cilindrada foram apreendidos pelas autoridades, na posse dos principais operacionais, quando foram feitas as buscas

O crime pode ter compensado durante o tempo - e foi longo, cerca de 22 meses - em que conseguiram manter-se fora do alcance das autoridades.

O primeiro multibanco que explodiram (pelo menos, de que há registo e provas) foi a 30 de setembro de 2014, em Queluz; o último foi a 21 de julho de 2016, em Algés.

Já estavam, no entanto, na mira da Judiciária, que ia reunindo pacientemente provas de cada um dos crimes, até encontrar, no final do "puzzle" montado, os rostos dos suspeitos. Foram detidos 17 a 29 de novembro de 2016, numa operação que a PJ denominou de "Caixa Automática".

Quem eram os líderes

"Tuga", diz o acórdão, era "possuidor de know-how e meios logísticos necessários" para o furto dos automóveis que seriam depois utilizados nos ataques aos terminais.

Este "know-how" não era nada mais, nada menos, que um curso de Mecatrónica Automóvel que lhe foi ministrado Academia de Formação da Autoeuropa. Foi por isso que, sustentam os juízes, o alvo preferencial do gangue era o "furto de viaturas do denominado Grupo VAG, responsável pela produção, comercialização e assistência, mormente, dos modelos A6, da marca Audi; Leon, da marca Seat, e, Bora, Golf e Passat, da marca Volkswagen", porque "Tuga" sabia muito sobre "o funcionamento dos respetivos componentes eletrónicos e mecânicos".

Do seu "relatório social" o tribunal retirou "elementos francamente positivos em relação à sua estrutura familiar com preocupações pessoais a este nível". Porém, é assinalado, não pode "ser indiferente ao número massivo de crimes praticados ao longo de um período excessivo de tempo assim como a presença deste arguido em concreto em quase todas as operações realizadas".

"Leo" era "detentor de know-how e meios logísticos necessários à concretização das explosões dos equipamentos bancários em questão".

Do seu "relatório social" o tribunal destaca que "fez o seu processo de socialização enquadrado numa dinâmica familiar que parece organizar-se em torno de um modelo convencional de funcionamento, com definição dos papeis sociais e interiorização de normas e valores".

Apesar de ter crescido "num bairro onde ocorrem diversas patologias sociais e onde comportamentos de desvio são comunitariamente pouco censuráveis, o arguido desenvolveu esforços no sentido de progredir no percurso académico, tendo posteriormente tomado a decisão de interromper os estudos, segundo o próprio, com objetivo de iniciar a atividade laboral e, desta forma, conseguir meios para se manter autónomo e permitir contribuir para o suporte das necessidades da sua família".

Tal como "Tuga", o tribunal sublinha que "não pode ser indiferente ao número massivo de crimes praticados ao longo de um período excessivo de tempo assim como a presença deste Arguido em concreto em quase todas as operações realizadas".

Grupo flexível

A investigação não conseguiu concretizar a data exata, mas estima que em 2014, "Leo" e "Tuga", amigos do bairro, acordaram criar um "grupo organizado" para, "a coberto da noite", começarem a explodir caixas ATM.

Recrutaram mais elementos, "provenientes de quatro grupos distintos, atenta a proveniência territorial dos mesmos, pelos seus potenciais de adaptação e flexibilidade, ao nível do método de explosão, e de mobilidade e dispersão geográfica de atuação, repercutidos na consumação de assaltos a terminais ATM em cenários tão díspares, heterogéneos e remotos, quanto situados nos distritos de Lisboa, Santarém e Setúbal".

A funcionar como uma espécie de "cão pisteiro", estava R.B., 34 anos, de alcunha "Esquilo" (condenado a cinco anos de pena suspensa), cuja função era de utilizar o seu cartão de débito nos terminais alvo e fazer uma consulta de movimentos, que permitia verificar, no talão, o número de movimentos que aquele terminal tinha registados até aquele momento e estimar o valor monetário que ali se encontrava.

Sem cadastro, do seu "relatório social" consta que cresceu "num meio sócio familiar estruturado e harmonioso e beneficiou de um acompanhamento parental normativo, não lhe sendo identificadas problemáticas de conduta durante o seu crescimento", salientando-se "não obstante, da sua parte, um fraco sentido critico relativamente às amizades".

Sobre "Esquilo", é escrito no acórdão, demonstrou-se que "tinha um emprego estável como repositor de supermercado, estabilidade esta a qual determinou que fosse abordado por outros elementos melhor identificados neste processo com vista a realizar as operações bancárias adequadas a confirmar sobre as probabilidades de sucesso das operações ilícitas a que se dedicavam".

"Bando" e não "associação criminosa"

Pelo menos 11 dos arguidos estavam acusados de "associação criminosa", mas o tribunal considerou que este crime não ficou provado no julgamento.

"Na realidade, do que se retirou dos autos é que este conjunto de pessoas que ocasionalmente realizava os assaltos às caixas multibanco, assim como aqueles que se dedicavam ao tráfico de estupefacientes, variava no que diz respeito aos seus elementos em conformidade com fatores que nem sempre se prendiam com a localização dos alvos a atacar. Ou seja, estamos perante um grupo instável de elementos", é explicado no acórdão.

Por outro lado, é ainda assinalado, "não se retirou absolutamente nada dos autos que nos permita concluir pela existência de um líder, ou um conjunto de líderes, uma hierarquia, ou uma divisão de tarefas clara e inequívoca".

O que para o tribunal ficou "claro e inequívoco" é que um determinado conjunto de pessoas, desenvolvia com frequência as práticas descritas, em conjunto uns com os outros, por diversas vezes, sempre com o mesmo método operacional e com resultados que poderiam variar entre o seu enriquecimento e a frustração de tal expectativa caso o assalto em questão não se conseguisse concretizar".

É concluído então que "dúvidas não existem quanto à existência do que certa jurisprudência dos Tribunais superiores apelida de um "bando".

Os condenados a penas de cadeia efetiva foram, além de "Tuga" e "Leo", ambos a 15 anos; "Tide" (sete anos e oito meses); Eugénio Neves (seis anos e dois meses); Francisco Tavares (sete anos); Sidnei Vidinhas, "Jóy" (6 anos e 2 meses); Carlos Conceição, "Calhotas" (5 anos e 10 meses); Fernando Leite (quatro anos e 8 meses); Rúben Garcia (5 anos e 8 meses); Carlos Lopes, "Beto" (sete anos) e Mohamed Baldé, "Mecas" (sete anos).

O maior susto do taxista

Durante estes dois anos, o gangue foi em dois assaltos apanhado em flagrante pela PSP. Perseguidos, houve tiros disparados contra os policias (sem acertar) mas só numa das ocasiões, em Loures, quando detiveram um dos suspeitos (Mohamed Baldé, o "Mecas", 34 anos).

No penúltimo dos assaltos, no Dafundo, um taxista da praça de Algés, terá apanhado um dos maiores sustos da sua vida, quando passou à hora errada, no local errado.

Eram quatro da manhã, quando três dos assaltantes, um dos quais "Tide", de gorro do tipo passa-montanhas, se deslocavam em passo de corrida em direção a um multibanco junto a um café.

Sem reparar, o taxista L.L. parou para virar a esquerda, quando sentiu uma forte pancada no carro. Olhou e viu o cano de uma arma de fogo comprida, empunhada por um dos suspeitos, apontada à sua cabeça. "Arranca, arranca c....!!!", gritava o indivíduo. Obedeceu.

Em 2018 houve apenas o registo de 27 participações pelo crime e furto a terminais ATM, menos 176 que no ano anterior, resultado, quer das detenções que foram sendo feitas ao longo dos anos, mas também devido a algumas medidas preventivas impostas pelo governo aos bancos, sugeridas pelas autoridades policiais - depois de terem estado cinco anos na "gaveta".

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