Identificar, testar, isolar e tratar. A "estratégia muito agressiva" contra a covid na Grande Lisboa

A região de Lisboa e Vale do Tejo tem concentrado na última semana quase todos os casos de covid-19 do país. Autoridades de saúde estão a responder com reforço da vigilância, uma campanha de testes em empresas e desconfinamento com o pé no travão.

A atenção foi redobrada e está em marcha uma campanha de testes de despiste para a covid-19 na região de Lisboa e Vale do Tejo, onde as infeções pelo novo coronavírus destoam dos números nacionais, continuando a aumentar. Quem acusa positivo (apenas cerca de 4%) é isolado e tratado. A região gera "as maiores atenções e preocupações", voltou a admitir o secretário de estado da Saúde, António Lacerda Sales, esta terça-feira, durante a conferência de imprensa diária, no ministério. Mas a diretora-geral da Saúde, Graça Freitas, pede confiança na "estratégia muito agressiva" que está no terreno, antevendo que os frutos serão colhidos "dentro de dias".

A atenção direciona-se principalmente para os focos prováveis que têm surgido em empresas, em obras, bairros sociais, para além do contágio esporádico ou contraído na habitação (o mais usual). Assim, as autoridades falam num reforço da vigilância epidemiológica, em planos de realojamento de emergência para permitir "a separação de pessoas que estejam infetadas" e numa campanha de testes realizados nas empresas da Área Metropolitana de Lisboa (AML), que Fernando Medina, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, crê ser a principal justificação para o aumento de novos casos. Mais testes, mais notificação, porque se encontram até os infetados com sintomas ligeiros ou assintomáticos.

Dos 195 casos de covid-19 diagnosticados, nas últimas 24 horas, 158 dizem respeito à região de Lisboa e Vale do Tejo (81%), segundo o boletim da Direção-Geral da Saúde (DGS), e entre as 12 vítimas mortais, sete tinham residência nesta zona. A taxa de letalidade da região é de 4,7%, ligeiramente superior à nacional (4,4%).

No entanto, este aumento não se traduz, segundo a diretora-geral da Saúde, em perda de capacidade de resposta, não se refletindo, por exemplo, num crescimento do número geral de hospitalizados. Isto porque o perfil dos infetados é "sobretudo a população jovem, adulta, trabalhadora", mais saudável, e com tendência para ter doença menos grave, que pode ser acompanhada em casa.

O Governo garante estar a acompanhar a situação através de contactos regulares com as autoridades de saúde e com os autarcas de todos os 18 municípios que rodeiam a capital: Alcochete, Almada, Amadora, Barreiro, Cascais, Lisboa, Loures, Mafra, Moita, Montijo, Odivelas, Oeiras, Palmela, Seixal, Sesimbra, Setúbal, Sintra e Vila Franca de Xira. E para já a ministra da Saúde não vê necessidade de se falar em cercas sanitárias na região, referiu Marta Temido, em resposta a esta possibilidade lançada pelo autarca da Azambuja, concelho limítrofe da área da Grande Lisboa.

Mais de 2 mil testes em empresas

Entre sábado e segunda-feira, foram realizados cerca de dois mil teste de despiste à covid-19, no âmbito da estratégia de diagnóstico de casos em empresas na região de Lisboa e Vale do Tejo. 945 destes aconteceram nas últimas 24 horas, informou o secretário de estado da saúde, durante o briefing diário. No entanto, os balanços são remetidos para o final da semana, uma vez que até lá a recolha de amostras - que conta com a colaboração do INEM, dos laboratório dos hospitais lisboetas e do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge - continuará a decorrer.

Os exames têm sido feitos a "trabalhadores de estaleiros, em zonas identificadas", a "coabitantes e contactos próximos depois do confinamento", esclareceu o Governante. São dezenas de empresas que se localizam um pouco por toda a região, mas a maior parte concentra-se na zona da Azambuja, onde foram encontrados surtos na plataforma logística. O maior diz respeito à empresa Sonae, onde foram identificados pelo menos 175 trabalhadores.

Apesar de oficialmente não fazer parte, a decisão de incluir a Azambuja no processo de testagem dos municípios da AML justifica-se com este focos e por ser uma zona onde há 230 empresas que empregam 8 500 pessoas, explicou o gabinete do secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, também envolvido neste processo.

Lojas do cidadão e centros comerciais ainda fechadas

A terceira fase do plano de desconfinamento começou esta segunda-feira, com a reabertura de centros comerciais, lojas do cidadão, salas de espetáculos, cinemas, ginásios, piscinas. Embora ainda em estado de calamidade (até 14 de junho), foi revogado o "dever cívico de recolhimento" e passa ser possíveis ajuntamentos de até vinte pessoas. No entanto, estas regras encontram restrições na região de Lisboa e Vale do Tejo, onde, por exemplo, permanece o limite de grupos com mais dez pessoas.

Também as lojas do cidadão continuam encerradas na Grande Lisboa e os centros comerciais com restrições que não foram impostas no resto país, decisão que será reavaliada esta quinta-feira (4 de junho).

Quanto à abertura de lojas com área superior a 400m2 e a realização de feiras estão sujeitas à aprovação das Câmaras Municipais.

Transportes públicos com lotação reduzida

A lotação dos transportes públicos tem sido também alvo de muitas criticas por dificuldades de cumprimento da regra de distanciamento social, o que levou o Governo a reforçar as medidas nestes locais. Para além do uso obrigatório de máscara, os veículos só podem ter uma lotação máxima de dois terços dos passageiros.

As transportadoras rodoviárias privadas da Área Metropolitana de Lisboa já anunciaram que vão reforçar oferta, com um acréscimo de 60 circulações em dias úteis e 70 ao fim de semana, para responder à nova fase de desconfinamento. No entanto, a Federação dos Sindicatos de Transportes e Comunicações (Fectrans) insistiu, esta terça-feira, que os problemas de sobrelotação persistem e acusam o primeiro-ministro de olhar de forma "leviana" para este assunto.

António Costa assegurou que os transportes públicos da região de Lisboa não registam problemas, com exceção do comboio das 06:36 da linha de Sintra. O que fez com que a Fectrans lhe dirigisse uma carta aberta. "Essa afirmação, que parece-nos feita de forma leviana, só pode revelar má informação sobre o assunto, já que no mesmo dia o canal público de televisão emitiu um trabalho jornalístico, com imagens recolhidas no mesmo dia, em que demonstra que numa das empresas que opera na zona de Lisboa a regra é a de autocarros acima dos 2/3 de lotação", lê-se no documento enviado para o gabinete do primeiro-ministro.

Grande Lisboa e Norte são as regiões onde ainda há cadeias de transmissão comunitária

Esta terça-feira, há 11 590 doentes portugueses ativos (valor encontrado quando se subtrai o número de curados e mortes ao total nacional), menos 134 que no dia anterior. A transmissão comunitária do vírus, em Portugal, só existe agora nas regiões de Lisboa e Vale do Tejo e no Norte, apontou a diretora-geral da Saúde, Graça Freitas, durante a conferência de imprensa diária, a partir dos dados reportados pelas autoridades de saúde locais. Este tipo de transmissão pressupõe que existe contaminação possível entre elementos de uma comunidade e esteve na origem, por exemplo, da cerca sanitária de Ovar.

Quanto às restantes regiões do país, no Centro há "apenas pequenos focos muito localizados". Alentejo e Algarve também se referem a "pequenos focos". Já a Madeira e os Açores indicam que apenas têm "transmissão esporádica".

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