Graça Freitas: "Os testes negativos podem dar uma falsa segurança"

Responsáveis de lares não podem descansar se um único teste dá negativo ao novo coronavírus, alerta a diretora-geral da Saúde. Em Portugal das 119 mortes, 70 eram pessoas com mais de 80 anos.

Foi uma conferência de imprensa sobretudo didática. Os cuidados a ter pelos responsáveis de lares de idosos e a falsa segurança que um teste negativo para o covid-19 pode incutir foram este domingo os pontos mais focados pela ministra da Saúde e pela diretora-geral da Saúde, respetivamente, no balanço epidemiológico das últimas 24 horas. O boletim aponta para 119 mortes em Portugal - sem contar com a criança de 14 anos que morreu já este domingo no Hospital da Feira.

As declarações das responsáveis máximas da saúde em Portugal surgem num altura em que se multiplicam os casos de infeções e mortes de idosos internados em lares. Com os responsáveis a pedirem a ajuda das autoridades, como fez já este domingo o provedor da Santa Casa da Misericórdia de Foz Côa que dirige um lar onde 47 dos 62 idosos estão infetados.

Os idosos são a população de maior risco nesta pandemia. Em Portugal, dos 119 casos mortais registados no boletim epidemiológico referente a sábado (28 de março), só sete têm menos de 60 anos. Sendo que é na classe etária acima dos 80 que se regista o maior número de vítimas mortais - 70. A taxa de letalidade nas pessoas com mais de 70 anos subiu este domingo para 8,1%.

"Um teste numa fase precoce permite encontrar pessoas que tenham doença, mas não serve para descansar os casos que foram negativos. Fazer testes isoladamente não resolve o problema. É importante testar, mas não tenhamos a ilusão de que basta fazer testes." As palavras são da diretora-geral da Saúde quando questionada sobre a decisão do município da Maia detestar todos os idosos em lares e significam que um único teste negativo não pode descansar os responsáveis dos lares.

"Os resultados negativos podem dar uma falsa segurança e fazer relaxar dentro dos lares. Devem manter-se os hábitos de distanciamento social dentro de semanas e meses", referiu Graça Freitas, sublinhando que, muitas vezes, um teste dá negativo mas que um segundo já pode ter resultado positivo.

" Não fiquemos com a falsa segurança de que um teste negativo nos dispensa de atitudes que todos os dias todos temos que tomar", acrescentou.

"A questão dos lares é muito delicada"

A ministra da Saúde, Marta Temido, já tinha centrado a sua intervenção nos cuidados que as direções técnicas de lares e unidades de cuidados continuados devem ter quando são detetados casos positivos ou que medidas de prevenção devem tomar. "A questão dos lares é muito delicada", disse, apelando mais uma vez a apelar à comunidade e a quem tem conhecimentos técnicos que se voluntarie para ajudar nesta área. "Não podemos deixar ninguém abandonado à sua sorte."

A ministra deu exemplos concretos de medidas que devem ser tomadas nas estruturas residências de idosos. Desde o distanciamento de 1,5 metros a 2 metros nos cadeirões usados pelos utentes, a necessidade de desencontrar os horários das refeições para permitir essa mesma distância e a reduzida circulação nos corredores. E pediu que mal seja detetada uma situação suspeita, o idoso seja de imediato isolado e que seja contactado o médico para a avaliação clínica.

Marta Temido pediu ainda que os funcionários sejam organizados por equipas. Ou seja, que a equipa A e B fique com os utentes de uma determinada ala, que a equipa C e D fique com outras, sem se cruzarem.

"Para que nos possamos voltar a abraçar é preciso que nos situemos longe uns dos outros agora."

A ministra insistiu ainda na necessidade de medir a febre a cada um dos funcionários e que sejam cumpridas as regras básicas de higiene, como a lavagem das mãos, e o cumprimento da etiqueta respiratória.

O facto de muita gente estar na rua e de as autoridades policiais estarem a parar os condutores, como aconteceu na Ponte 25 de Abril, levou Marta Temido a afirmar que "estamos a enfrentar um fenómeno que exige uma grande disciplina e capacidade de resistência", mas também acrescentou que temos de tentar manter as nossas atividades laboral tanto quanto possível.

E deixou um alerta: "Para que nos possamos voltar a abraçar é preciso que nos situemos longe uns dos outros agora", disse a ministra da Saúde.

Mais uma vez, as responsáveis pela Saúde em Portugal disseram que se estima "um número muito elevado" de infeções e que é preciso a ação de todos para os diminuir. "Não podemos confiar na sorte."

Graça Freitas, por seu turno, disse que é necessário "interiorizar que isto não é coisa de uma quinzena, de dois ou três meses, até haver uma vacina esta situação vai durar meses".

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