Diretor da ARS Alentejo nunca viu os utentes do lar. "Eu sou gestor, não estava ali como médico"

José Robalo visitou duas vezes o lar em Reguengos de Monsaraz, mas não chegou a ver os utentes. Ao DN diz que é preciso "averiguar de forma neutra se houve falhas".

O relatório elaborado pela Ordem dos Médicos (OM) revela que o diretor da ARS Alentejo pressionou e ameaçou os clínicos que denunciaram as más condições no lar de Reguengos de Monsaraz. José Robalo admite que o fez e justifica dizendo que "todos os médicos que recusem cumprir as funções para as quais estão destacados incorrem em processos disciplinares". "Mas nunca aconteceu, apresentaram-se sempre ao serviço", diz ao DN o responsável.

José Robalo garante que a recusa dos médicos em continuarem a prestar apoio no lar - ou no local onde os utentes estivessem - surgiria caso não recebessem diariamente uma ordem de serviço com as indicações para o trabalho desse dia. E que ele assim o fez. "Sempre que passei o papel, os médicos apresentaram-se ao serviço", diz ao DN.

O diretor da Administração Regional de Saúde (ARS) do Alentejo confirmou que esteve pelo menos duas vezes no lar, mas que nunca chegou a ver os utentes.

"Eu sou gestor, não estou ali como médico. A avaliação técnica [das condições do lar e dos utentes em relação ao surto] foi feita por médicos da ARS Central", disse. "Não me cabe a mim apurar [as condições em que estavam os utentes), não posso confundir os dois papéis", afirma.

Dezasseis utentes do lar morreram, assim como uma funcionária e um motorista da Câmara Municipal.

Sobre o relatório da OM, que Robalo já contestou, o diretor da ARS do Alentejo afirma: "Não digo que lá tenha coisas falsas, temos é leituras diferentes [da situação]."

"A PGR irá clarificar a situação"

Sobre a necessidade de apurar responsabilidades em relação ao estado em que estavam os idosos e às mortes - que a ministra Ana Mendes Godinho já veio dizer que não é fundamental esclarecer - José Robalo diz, por seu lado, haver "necessidade de clarificar os eventos".

"A PGR [Procuradoria-Geral da República] irá tomar conta deste processo, o que julgo ser uma mais-valia para clarificar a situação", sublinha.

Questionado se não considera que houve falhas na gestão do surto, o responsável garante que aquilo que estava ao seu alcance fazer, foi feito. "Considero importante que venha a averiguar-se de forma neutra se houve falhas", diz.

A ARS do Alentejo já contestou este relatório produzido pela Ordem dos Médicos.

De acordo com o documento, a que o DN teve acesso, "vários doentes estiveram alguns dias sem fazer a terapêutica habitual por não haver ninguém que a preparasse ou administrasse".

A RTP teve acesso à resposta enviada pela ARS Alentejo ao Ministério da Saúde depois de Marta Temido ter pedido explicações sobre o que consta no relatório da OM.

"A Ordem dos Médicos vem pretender branquear o seu comportamento de obstaculização da prestação dos cuidados de saúde com a instauração de uma auditoria (...) que visa substituir-se a um inquérito judicial", escreveu ao Ministério da Saúde a ARS Alentejo, segundo a RTP.

Na terça-feira (dia 11 de agosto), a direção do lar da Fundação Maria Inácia Vogado Perdigão Silva (FMIVPS), em Reguengos de Monsaraz, distrito de Évora, garantiu ter feito "tudo" ao seu "alcance" para "salvar vidas" depois do grave surto de covid na instituição.

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