Charles de Gaulle e Konrad Adenauer encontraram-se pela primeira vez em 1958, na residência privada do presidente francês, em Colombey-les-Deux-Églises. Nos cinco anos seguintes o presidente francês e o chanceler alemão haviam de multiplicar os encontros que resultariam na assinatura, a 22 de janeiro de 1963, do Tratado do Eliseu, que punha oficialmente fim a uma longa história de conflitos entre os dois países e, 18 anos após o fim da II Guerra Mundial, definia que Paris e Berlim se comprometiam a consultar-se mutuamente sobre questões relevantes de política externa, defesa, educação, juventude e cultura.Foi no 40.º aniversário dessa data que, em 2003, foi estabelecido o Dia da Amizade Franco-Alemã, assinalado anualmente a 22 de janeiro. Nesse âmbito, o DN juntou esta semana as embaixadoras de França, Hélène Farnaud-Defromont, e da Alemanha, Daniela Schlegel para uma conversa sobre a importância do chamado “motor” europeu num momento de grande incerteza global. “É um momento grave, é um momento potencialmente perigoso, por isso, é muito importante que conversemos ainda mais do que antigamente, que estejamos unidos, e, dentro desta União Europeia, o casal franco-alemão é mais importante do que nunca”, explicou a diplomata francesa, anfitriã da conversa, que decorreu na Embaixada de França, em Santos. A sua congénere alemã não podia concordar mais: “A França e a Alemanha são, especialmente nestes tempos, um importante exemplo de como os inimigos se podem transformar em amigos. Estamos muito ocupados com os desafios atuais, mas se olharmos para a nossa História não tão longínqua, houve muita rivalidade, muita animosidade, momentos muito negros, mas com a ajuda de De Gaulle e de Adenauer, as duas sociedades conseguiram, com muita dedicação e convicção, com muita tolerância também em relação às preocupações da outra, ultrapassar isso e mostrar ao mundo que inimigos se podem transformar em amigos, e amigos confiáveis.”."França e Alemanha são, especialmente nestes tempos, exemplo de como os inimigos se podem tornar amigos".Ao longo das últimas seis décadas foram vários os “casais” franco-alemães, desde os já referidos De Gaulle e Adenauer, até Mitterrand e Kohl, líderes durante a reunificação alemã. Hoje em dia, a relação entre os dois aliados está nas mãos do presidente Emmanuel Macron e do chanceler Friedrich Merz. Os líderes das duas maiores economias da União Europeia têm enfrentado grandes desafios internos nos últimos meses, mas não descuraram o seu papel na defesa de uma Europa forte.O Mezcron, como é apelidado este duo franco-germânico, não tem tarefa fácil, a começar por manter uma frente unida numa Europa a braços com as suas próprias divisões e perante desafios externos crescentes. “Os europeus estão a ser testados em permanência, pela Rússia, pela China e, agora, pela Administração Trump. Temos, primeiro, de ter consciência disso e, segundo, de ter uma resposta à altura”, garantia Hélène Farnaud-Defromont. Para isso precisam, mais do que nunca, do seu motor bem oleado.Editora-executiva do Diário de Notícias