Telefonem ao homem

A história da presidência portuguesa da União Europeia dificilmente seria bonita de viver. António Costa concebeu o seu segundo governo com um programa e uma equipa preparados para seis meses que, com a pandemia, não existirão.
A transição digital e energética mantém-se nas prioridades para a recuperação pós-pandémica, mas as dinâmicas políticas estão mais centralizadas e as fragilidades dos países mais pobres, como Portugal, mais expostas.

Para Costa, que vinha assumindo um protagonismo seu entre os socialistas do continente, o amargo de boca é compreensível. E o cenário doméstico, verdade seja dita, não tem facilitado. O primeiro-ministro entrou na presidência da UE com a imprensa internacional a reportar um ucraniano assassinado pelo serviço de fronteiras português, com o Parlamento Europeu e a provedora de Justiça europeia a exigirem explicações quanto às falsidades no currículo de José Guerra e com o maior número de infetados por milhão de habitantes no planeta.

A presidência portuguesa, que começou com um horário matinal mais relaxado do que a alemã, até com direito a pastéis de nata, teve, portanto, um estado de graça breve. Com o evento principal, nas palavras de Costa, a ser "uma cimeira social", a acontecer em maio, no Porto, esperemos que haja condições sanitárias ‒ e políticas para esta ter sucesso.

No discurso que fez na quarta-feira, em Bruxelas, o primeiro-ministro identificou o processo de vacinação como primeiro foco da presidência portuguesa, realinhando, de certo modo, as prioridades que havia estabelecido no final do ano passado: "recuperação", "autonomia estratégica" e "multilateralismo". Olhando para a realidade portuguesa, e dos demais Estados membros, entende-se o acerto. Olhando para a fragilidade que o seu executivo aparenta (veja-se o desnorte na educação, nesta semana), talvez não seja suficiente. O governo é, cada vez mais, um carrossel de um homem só. Continua a girar, mas a música parou. E gerir um país com a maior taxa de mortalidade da sua história ao mesmo tempo que se preside um semestre europeu não será, certamente, tarefa fácil. Planos vindos de gestores petrolíferos e remodelações oriundas de gabinetes não chegam.

Soluções? Tenho uma.

Há sete anos, em 2014, o comissário português na Comissão Juncker liderou a resposta europeia à epidemia do ébola, que não se tornou pandemia pelo trabalho que se fez para a combater. Juntamente com os governos da Alemanha, do Japão e da Noruega, esse comissário português fundou a CEPI (coligação para preparação contra as epidemias), que angariaria 460 milhões de euros para desenvolver vacinas e uma rede de partilha de dados que permitisse travar o ébola. O comissário português chamava-se Carlos Moedas.

O sucesso dessa iniciativa é tão óbvio que o meu caro leitor eventualmente nunca tinha ouvido falar dela. O ébola foi travado a tempo e não atingiu as vidas dos europeus. Mas foi essa mesma CEPI que serviu de alicerce à resposta global ao coronavírus, que num ano angariou dez mil milhões de euros, também para o desenvolvimento de vacinas.

Moedas manteve, além disso, excelentes relações institucionais com o atual governo quando o PSD saiu de São Bento, tendo-se reunido com o primeiro-ministro para passar a pasta à sua sucessora, Elisa Ferreira. Conhece a praça da inovação, da tecnologia e da ciência como poucos.

Talvez não fosse má ideia telefonarem-lhe.

Colunista

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