16 minutos que abalaram o mundo

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Começo pelo óbvio: Mark Carney, primeiro-ministro canadiano, fez em Davos um discurso que ficará na história do século XXI. Durou 16 minutos, foi interrompido duas vezes com palmas e, no final, praticamente toda a sala se levantou para uma prolongada ovação que só teve paralelo com um célebre discurso de Mandela, em 1992, quando chamou ao palco F. D. Klerk promovendo aos olhos do mundo uma reconciliação nacional na África do Sul.

É extraordinário que este discurso tenha sido feito por um banqueiro. O seu percurso foi sedimentado na liderança de dois poderosos bancos centrais, o Banco do Canadá e o Banco de Inglaterra - Carney foi o único a governar mais do que um banco central do G7. E é igualmente notável que seja um canadiano a avançar como ideólogo da decência de um novo mundo que, por mais desejos piedosos que possamos ter, já não volta para trás. Um banqueiro canadiano que cita dois pensadores europeus, um da Grécia, berço da Democracia, o outro do Leste europeu que foi rastilho para uma subversão que aniquilou por dentro uma tirania que se acreditava indestrutível: a tirania comunista com base no Pacto de Varsóvia e da União Soviética.

Mark Carney licenciou-se em Harvard e doutorou-se em Oxford. Os seus pais eram professores de liceu e acreditavam na força das ideias como motor humano. Ele e os seus três irmãos cresceram nessa premissa. Era importante saberem para onde ir e acreditarem que a cooperação é mais inteligente do que o individualismo. Mark foi guarda-redes de hóquei no gelo na infância e adolescência. E durante vários anos, nas férias de estudante do Secundário, distribuía o jornal da terra nas ruas de Edmonton.

É um discurso revolucionário. Um texto corajoso, destemido e brilhante que me disse muito. Se me tem acompanhado nesta “conversa” semanal sabe o quanto estes temas me são caros. O valor dos princípios aliado ao pragmatismo. O valor dos resultados, aliado à cultura e ao pensamento. O valor do crescimento, aliado à cooperação. O valor da liberdade aliado às regras e aos princípios. O valor e o peso dos “peixes” médios e pequenos que têm de fazer por si para não serem engolidos por tubarões, quando estes, como disse Carney com outras palavras, decidem que não há regras que devam respeitar sempre que lhes apetece comer.

Carney vem do mundo das ideias e da banca. Vem do mundo das regras e da regulação. Vem da procura da excelência e não do populismo. E vem do Canadá, onde o perigo de se dizer não a Trump é real. É isso que redobra a força do seu discurso. Ele está ali ao lado, é o seu país que está diretamente ameaçado, mas é precisamente ali que Trump e os seus pistoleiros, serão combatidos.

Desejo dizer duas ou três coisas rápidas. Partilhá-las consigo. Quero que fiquem escritas. Como bem disse Carney, o mundo mudou. E é neste quadro que devemos trabalhar, não num mundo utópico ou nostálgico. Ninguém nos dará nada de borla. Não é por nos ajoelharmos ao poder dos falcões - quer seja Trump ou Putin - que eles nos oferecerão alguma coisa. Os que acreditaram nisso, perderam. Perderam na década de 1930 com os nazis, perderam há uns anos com a Rússia, depois da invasão da Crimeia, e tornarão a perder se capitularem com a tomada pela força da Gronelândia… ou do Canadá.

A aceitação traz segurança, pergunta Tucídides. A resposta é evidente. Será duro o embate, mas precisamos de aceitar o desafio e formarmos uma verdadeira confederação de ideias. Necessitamos de estabelecer regras e novos líderes capazes de se distinguir a partir de uma ideia moral. Estar do lado certo, do lado do bem, da cooperação, único modo de sermos eficientes, de sobrevivermos e ganharmos.

Por fim, uma pequena nota. Acredito firmemente que este novo tempo terá como consequência o fim da Esquerda e da Direita como conceitos e modelos ideológicos. A clivagem será, a partir de agora, e nas próximas décadas, entre quem acredita na liberdade e na democracia liberal, e quem não acredita. Entre quem defende uma ordem baseada na decência e no respeito pelos interesses das partes, e quem defende a desordem e o poder da força dos poderosos contra todos os que não o são. Entre quem acredita num mundo regulado e quem utilizará a tecnologia para criar cidades, países e, por fim, um mundo como espaço não-regulado, um mundo libertário saído de um filme de ficção científica. Entre, para simplificar, o bem e o mal. A luz e a sombra. A esperança e o ressentimento.

Tudo isto tem alguma coisa a ver com as nossas eleições presidenciais, mas isso deixarei para a próxima semana.

Presidente da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Torres Vedras

manuel.guerreiro@ccamtv.pt

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