Bastaram seis meses – ou até menos, sendo justos – para que o Volta, um sistema de reciclagem que aproximava Portugal de países como a Alemanha, a Noruega, a Finlândia ou a Dinamarca, deixasse de ser visto como uma boa ideia e se tornasse um problema social grave. A questão já não é apenas saber quantas embalagens são recolhidas. É perceber se o modelo escolhido consegue cumprir o objetivo ambiental sem criar novos problemas sociais, urbanos e económicos. O certo é que, neste momento, é já um problema político, quer o Governo o reconheça ou não.
Quando o presidente da maior câmara do país pede a suspensão do sistema – como fez Carlos Moedas, frisando ter imagens de “pessoas a entrar dentro dos caixotes do lixo” para retirar garrafas e receber 10 cêntimos por cada uma –, não podemos fazer de conta que nada se passa. Pelo contrário.
As imagens de cidadãos a remexer em caixotes para recolher embalagens por dez cêntimos são suficientemente fortes para obrigarem a uma reflexão. A isto junta-se o lixo que fica espalhado pelas ruas, gerando um problema de saúde pública e limpeza urbana. À petição entregue no Parlamento, o autarca lisboeta acrescentou ainda o exemplo de França, país que recuou nos planos para aplicar uma caução na compra de bebidas.
Por outro lado, o pagamento destes dez cêntimos adicionais por garrafa ou lata está, contudo, a ser percecionado pelos consumidores como mais um custo obrigatório associado à compra. Afinal, quem optar por fazer a separação de lixo em casa e depositar as embalagens no ecoponto perde esse dinheiro. E as explicações sobre o destino final dessas verbas não-recolhidas continuam a não ser convincentes para muitos consumidores. Apesar de a entidade gestora, SDR Portugal, ter feito saber que tais montantes revertem para o sistema Volta, para manutenção, expansão e modernização da rede.
Também seria importante que, caso o sistema se mantenha – refira-se que os dados apontam para mais de 305 milhões de embalagens recolhidas nos primeiros cinco meses, o que demonstra que o sistema tem capacidade para mobilizar os consumidores –, se clarifique a sua aplicação no setor da restauração e cafés. Quando um cliente consome uma água ou lata num restaurante ou café, não tem de pagar a taxa de 10 cêntimos, uma vez que a embalagem permanece no estabelecimento. No entanto, há quem cobre o valor indevidamente e depois fique com as embalagens para posterior reembolso.
A ideia de fundo pode ser excelente, mas ao fim de seis meses torna-se evidente que faltam acertos e, sobretudo, uma estratégia de comunicação clara para que a medida seja aceite e respeitada por todos.