O que parecia uma boa ideia para incentivar a reciclagem está também a revelar uma realidade menos confortável: a de milhares de pessoas que procuram no lixo uma forma de ganhar alguns euros.Refiro-me ao Sistema Volta, uma ideia para a gestão de resíduos que pretende, também, ajudar a transição para a economia circular e que tem como objetivo atingir, em Portugal, a “meta europeia de recolher 90% das embalagens de bebidas de uso único até 2029”, como se pode ler na página do Governo dedicada a este serviço.Portanto, o objetivo é meritório e, pelos dados conhecidos – em três meses foram atingidas as 100 milhões de embalagens recolhidas –, está a ter sucesso. Adesão que a partir de 10 de agosto até deverá aumentar, pois vamos passar da fase de transição, em que era possível a circulação de embalagens e latas sem marca Volta, para ser obrigatório que todas tenham essa referência e passem a ser entregues, caso se queira, no sistema com o reembolso dos 10 cêntimos que se pagam na compra desses produtos.Só que a realidade depressa revelou um custo que ninguém parece ter antecipado: esta aposta na economia circular está a provocar problemas às câmaras municipais, Lisboa e Porto já se referiram ao tema, no que diz respeito à higiene urbana, com ruas a terem lixo espalhado em vez de dentro dos caixotes.É que movidos pelo objetivo de receber os 10 cêntimos por cada embalagem, há quem esteja a revolver caixotes do lixo à procura de latas e garrafas, deixando os resíduos espalhados pelo chão. O problema não são os dez cêntimos. O problema é existirem pessoas para quem dez cêntimos justificam revirar um contentor. Num país em que a taxa de risco de pobreza é de 15,4% da população (cerca de 1,6 milhões de pessoas), talvez esta seja uma explicação para essa procura.A autarquia de Lisboa, por seu turno, já alertou para o facto de o sistema transferir custos operacionais que não deveriam ser seus e pediu para que a SDR Portugal, a sociedade que gere o Sistema Volta, comparticipe nessa despesa. A questão é que esta diz que a limpeza do espaço público é uma “competência das autarquias”.Pelo meio há já quem peça novos modelos de recolha. No caso a Associação Vizinhos de Lisboa pede a colocação de novos pontos de recolha, dando como hipótese estarem junto de ecopontos, oleões e papeleiras, recorrendo a modelos utilizados na Alemanha e na Dinamarca.Certo é que enquanto se decide o que fazer já houve a primeira detenção de um “mineiro do lixo”, como o DN apelidou as pessoas que andam a procurar as embalagens nos caixotes.O que é triste...