Um PS a dois ritmos

Pedro Sequeira

Editor-executivo do Diário de Notícias

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Os resultados do último barómetro DN/Aximage atestam algum desgaste na dinâmica do Governo liderado por Luís Montenegro. Até entre o seu próprio eleitorado. A 2 de abril, ao assinalar dois anos como primeiro-ministro, Montenegro considerou que o país e os portugueses “estão melhor” do que estavam em abril de 2024. Já uma larga maioria dos inquiridos na sondagem têm opinião contrária: 68% discordam da visão do governante.

Além disso, ficou patente a descrença em relação à evolução da economia nacional, com 55% dos portugueses a considerarem que esta vai piorar. A avaliação ao desempenho geral do Governo é negativa (54% consideram-no mau ou muito mau), mas a gestão económica que o Executivo está a fazer para navegar na crise que resultou da guerra no Médio Oriente tem nota ainda pior: 77% dizem que a resposta é insuficiente.

Outra ação do Governo que mereceu reparos foi a gestão dos apoios às regiões afetadas pelas tempestades de janeiro e fevereiro deste ano – 66% classificam essa atuação como má ou muito má.

Sem surpresa, esta soma de 'desagrados', acaba por canalizar apoios dos cidadãos para outras forças políticas que não os partidos da AD. E o barómetro mostra que é o PS o maior beneficiado. Em abril, os socialistas surgem à frente na intenção de voto, com 30,6% das opiniões expressas na sondagem (feita a distribuição de indecisos). Trata-se de uma subida de 3,6 pontos percentuais (p.p.) em relação a março e de 6,8 p.p. face aos números de outubro de 2025. Um movimento ascendente que contrasta com o da AD e do Chega, tendo ambos caído de março para abril na intenção de voto (PSD e CDS recuaram 2,3 p.p., para 24,3%, e o Chega caiu 2,2 p.p., para 23,6%).

Perante este dados, o natural seria um reforço inequívoco da liderança de José Luís Carneiro também nas sondagens. Mas aqui, embora não se verifique uma queda, há um ritmo completamente diferente na afirmação política que vai tendo junto dos portugueses. Quem é a principal figura da oposição ao Governo? André Ventura, dizem 53% dos inquiridos, contra apenas 24% que identificam o líder do PS. Que líder partidário tem mais avaliações positivas? Luís Montenegro, presidente do PSD, com 44% contra os 41% de Carneiro. E quem merece mais confiança para desempenhar o cargo de primeiro-ministro? Luís Montenegro, respondem 27% dos portugueses, mais quatro p.p. do que Carneiro. Neste particular, o da confiança para liderar o Governo, a sondagem mostra inclusive que o secretário-geral do PS ficou estanque nos mesmos 23% de preferências que tinha em março, apesar das quebras nos números de Montenegro (de 31% para 27%) e André Ventura (23% para 22%). E o que é que aumentou? A quantidade de portugueses que não confia em nenhum dos três (20%).

Sobre a liderança da oposição, há também outro dado que salta à vista: se entre os eleitores do Chega, 88% atribuem esse papel ao líder do partido, nas hostes socialistas a percentagem dos que identificam Carneiro como figura maior da oposição baixa para 43% (30% dos socialistas apontam a Ventura esse estatuto).

Sem legislativas num horizonte próximo, talvez ainda seja cedo para que esta décalage entre ritmos de subida, do PS e do seu líder, faça soar alertas no largo do Rato. Se o PS cresce é justo dizer que tal não se deve apenas ao descontentamento dos eleitores, pois será também resultado da anunciada estratégia de Carneiro de não querer beliscar a estabilidade governativa e financeira do país, mesmo que isso o obrigue a engolir alguns sapos pelo caminho.

O problema é que essa estratégia não está, pelo menos para já, a ajudar a construir junto dos eleitores a imagem de um líder mais decidido, mais galvanizador, que Carneiro precisará ser para vencer futuras eleições. Tem tempo pela frente para o fazer? Sim. Mas, no entanto, enfrenta hoje circunstâncias mais desafiadoras. Dois exemplos: a Administração Interna, área onde Carneiro foi ministro e em que a sua experiência o poderia ajudar a conquistar votos, principalmente se o Governo voltar a falhar na gestão de períodos de crise – como nas tempestades -, tem agora na liderança Luís Neves, alguém que também conhece o terreno e cuja competência, enquanto diretor da PJ, foi sempre elogiada pelos socialistas, pelo que a crítica, a surgir, terá sempre de ser um pouco mais comedida. Por outro lado, no parlamento voltará a sentar-se o ex-secretário-geral Pedro Nuno Santos. Por mais discreto que possa querer ser na sua ação política, qualquer palavra ou posição que tome serão alvo de atenção redobrada. E, se forem em sentido contrário à atual liderança, terão o poder de abrir feridas no partido, passando para fora a ideia de divisão. Pelo meio, houve ainda a recusa do ex-ministro Duarte Cordeiro ao convite para integrar a Comissão Política Nacional do PS.

Seja como for, em algum momento Carneiro terá de passar ao ataque. Ficar em cima do muro, dando sempre a outra face, é curto para poder controlar, sem sombras de qualquer espécie, a máquina do partido, que já vai aquecendo os motores a pensar num regresso ao poder. A concorrência interna pode estar adormecida, mas existe.

Editor-executivo do Diário de Notícias

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