Quando em fevereiro de 2022, ao ser invadida pela Rússia, a Ucrânia fez um amplo apelo às nações amigas para que lhe fornecessem armamento, o Japão – como outras – respondeu “sim”. Mas foi um sim com um enorme asterisco. Afinal, a poderosa economia japonesa não enviaria armas letais, capazes de dissuadir os soldados russos de entrarem por ali adentro, mas sim coletes balísticos (capazes de travar munições de alguns calibres) e viaturas. Incluindo as Toyota Hilux, as favoritas dos terroristas do Estado Islâmico, pela sua resistência e versatilidade.A decisão do Japão de enviar apenas equipamento não-letal não foi um capricho do momento, nem fruto de uma votação à pressa no Parlamento. Tratou-se apenas do cumprimento das regras que existiam no Japão, conhecidas como os Três Princípios sobre a Transferência de Equipamento de Defesa e Tecnologia. Estes apertados preceitos, que emanavam da Constituição Japonesa escrita à luz da derrota na II Guerra Mundial, foram sucessivamente sendo afrouxados, para permitir, mais recentemente, a venda de artigos de Defesa para efeitos de resgate, transporte, alerta e vigilância e, também, desminagem.. Saltamos quatro anos. Ontem, a nova primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, anunciou um novo alívio destas restrições, o que permitirá ao governo japonês autorizar a venda de armas letais ao estrangeiro.“Num ambiente de segurança cada vez mais complexo, nenhum país pode proteger a sua paz e segurança sozinho“, mas antes “precisa que os países parceiros se apoiem mutuamente em questões de Defesa”, disse Takaichi. Ou seja, agora o Japão passa a poder exportar equipamento como caças (o país produz, sob licença dos EUA, uma versão do F-15), mísseis (é o único país, além dos EUA, que constrói mísseis Patriot) e destroyers, uma classe de navio em que os japoneses têm uma longa tradição de qualidade. As fragatas da classe Mogami, por exemplo, são classificadas entre as melhores do mundo.A frase de Takaichi até pareceria encaixar à perfeição na atual situação da Ucrânia… e também no conflito no Irão. Mas não é bem assim.Apenas os 17 países que já assinaram acordos específicos nesta matéria com Tóquio poderão ser destino de exportação destas armas. E estes incluem EUA e o Canadá; Reino Unido, França, Alemanha, Itália, Suécia e Noruega; Filipinas, Malásia, Indonésia, Vietname, Tailândia, Singapura; Austrália, Índia e Bangladesh.."O Japão passa a poder exportar equipamento como caças (o país produz, sob licença dos EUA, uma versão do F-15), mísseis (é o único país além dos EUA que constrói mísseis Patriot) e destroyers.”.O governo japonês – que reserva para si o direito de monitorizar como vão ser usadas estas armas – ainda se autoimpõe uma proibição de exportar armas para países em guerra. Mas já admite fazê-lo caso existam “circunstâncias excepcionais” – como uma “agressão armada” contra o país que pretende adquirir esse equipamento – e após a concordância dos quatro ministros japoneses que compõem o Conselho de Segurança Nacional japonês.Ora este governo japonês é considerado o mais “hawkish” (falcão, ou agressivo) dos últimos anos. Desde que chegou ao poder, Takaichi admite rever a cláusula pacifista da Constituição e, enquanto isso anda e não anda, aumentou o orçamento da Defesa para valores recorde, perto dos 2% do enorme PIB japonês.Uma resposta à instabilidade geopolítica? Ou à atual falta de previsibilidade da política externa dos EUA? Não está completamente claro, mas o o ritmo a que têm vindo a cair estas reservas por parte da classe política japonesa – e dos seus eleitores – deixam antever um Japão muito mais influente nos tabuleiros globais