Todas as crianças do mundo

Patrícia Reis

Jornalista e escritora

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Quando duas crianças são abandonadas à beira de uma estrada conseguimos ainda reconhecer a crueldade. Talvez porque aconteceu perto, porque conseguimos imaginar o medo, porque aquelas crianças têm rosto, voz, nome, corpo. Mas quando somos bombardeados diariamente com imagens de crianças na Palestina, no Sudão ou noutro lugar qualquer do mundo, olhamos sem verdadeiramente sentir. E essa é talvez uma das maiores tragédias do nosso tempo: continuamos a ver, mas aprendemos a sobreviver sem deixar que a dor dos outros nos atravesse demasiado.

Os telejornais e as redes sociais estão cheios de crianças em cenários de guerra, fome e deslocação. Crianças subnutridas, doentes, órfãs, feridas. As campanhas da UNICEF e da Cruz Vermelha sucedem-se. Haverá quem ajude, felizmente. Mas também nos habituámos à repetição da tragédia. O sofrimento tornou-se fluxo contínuo, quase ruído de fundo.

E não é preciso ir longe. Em Portugal, vários estudos mostram que uma percentagem significativa de crianças vive em situação de pobreza e insegurança alimentar. Para muitas delas, a refeição mais completa do dia continua a ser a da escola. Isto num país europeu, democrático, onde tantas vezes discutimos crescimento económico, estabilidade e progresso.

Todas as crianças do mundo são nossas. Não num sentido paternalista ou sentimental, mas porque o futuro depende delas e da forma como as protegemos. Podemos analisar a violência, discutir o antissemitismo, comentar estatísticas sobre maus-tratos ou fome infantil, mas a questão essencial permanece: o que fazemos realmente com essa indignação?

A impotência perante o mal acompanha a História desde sempre. A guerra, a violência, os abusos e a fome não nasceram agora. O que talvez seja novo é a velocidade com que passamos por tudo. Comovemo-nos durante segundos, escrevemos uma frase, partilhamos uma imagem e seguimos em frente porque a vida continua a empurrar-nos.

É nesse movimento contínuo que duas crianças abandonadas à beira de uma estrada conseguem ainda interromper-nos. Duas crianças a quem disseram que tudo não passava de uma brincadeira. E que agora regressam ao lar paterno, apesar de o pai ter direitos de visita limitados e sujeitos a supervisão.

Talvez isto signifique apenas uma verdade desconfortável: somos capazes da maior ternura e da maior crueldade ao mesmo tempo. E apesar de repetirmos que todas as crianças são nossas, continuamos muito longe de cuidar delas como se o fossem realmente.

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