O meu pai, médico de Clínica Geral, e um homem muito inteligente e culto, adorava chamar-me depreciativamente o título desta crónica. Fazia-o para criticar a minha obsessão pela cirurgia, que ele achava exagerada e me afastava de uma culturalização necessária.
Foi a primeira pessoa a citar-me William Osler, um médico canadiano considerado o pai da medicina moderna, nascido no século XIX, que dizia, e cito, “um médico que só sabe de medicina, nem de medicina sabe”. “Tens de ler mais, ir ao cinema e ao teatro, visitar museus, ouvir concertos, saber o que se passa no mundo, só assim podes ser um médico humano e competente.” Poderá ter tido alguma razão, sobretudo em relação à leitura – só lia praticamente literatura médica. Só muito mais tarde, já tendo atingido o topo da carreira hospitalar, lhe pude responder com uma citação do mesmo autor, que ele tanto admirava, que dizia, e cito de cor novamente: “ Espanta que a medicina praticada possa ser exercida com tão pouco conhecimento da literatura médica, mas já não espanta que ela possa ser de tão má qualidade.”
O exercício da actividade médica exige uma formação contínua, uma actualização quase diária. É difícil mantermo-nos a par de todos os avanços e progressos. No tempo do meu pai, que quando se formou ainda não havia antibióticos e a literatura médica era escassa e apenas acessível em papel, era relativamente fácil estar a par dos grandes avanços da medicina e, ao mesmo tempo, acompanhar aspectos culturais envolventes. Quer a sua geração, quer gerações anteriores, deram à luz médicos cultos, que associaram as suas qualidades clínicas a escritos memoráveis, como Egas Moniz, Abel Salazar, Júlio Dinis, Fialho de Almeida, Jaime Cortesão, Bernardo Santareno e muitos, muitos outros.
Já na minha geração, nas últimas décadas do século XX, houve também médicos grandes escritores como António Lobo Antunes ou Miguel Torga, mas não foram grandes médicos, dedicaram-se quase exclusivamente à Literatura. Grandes médicos e excelentes escritores da minha geração recordo apenas João Lobo Antunes e Daniel Sampaio. Ao João cheguei a dizer-lhe pessoalmente que não percebia como tinha tempo de escrever excelentes livros e continuar a ser um fantástico neurocirurgião. O Daniel é um caso à parte, só escreveu dezenas de livros apaixonantes porque foi, e é, um enorme e competente psiquiatra.
Qual foi a minha vantagem de não ter tido tempo de ler o que deveria ter lido em devido tempo? Conto-vos uma história verídica. Já perto da reforma, e com mais tempo disponível e direito a férias mais prolongadas, ao chegar ao toldo pedi a amigos em toldos vizinhos, que me aconselhassem um romance para ler nesse verão. Um que ainda não tivesse lido, um grande romance! O António Pedro Vasconcelos disse logo: “Eu sugiro um, mas de certeza já leste.”
Não tinha lido e foi uma leitura fantástica, já sexagenário deliciei-me com O Conde de Monte Cristo! O tecnocrata empedernido foi compensado de anos de dedicação à cirurgia. Formei e ajudei a formar muitos cirurgiões, tentei sempre ensinar pela prática e pelo exemplo. Mas aquelas palavras, seguramente exageradas do meu querido pai, não caíram em saco roto. E dei algumas vezes por mim, nas reuniões obrigatórias da manhã, antes de começarmos a discutir os doentes dessa noite, a perguntar aos meus colaboradores que livros tinham lido recentemente. Não vos digo o resultado deprimente dessa pergunta, apenas lhes dizia que se lembrassem de William Osler, e que era preciso seguir os seus conselhos reproduzidos na forma das citações atrás referidas.
Mas depois disto tudo posso concluir. Para cirurgião não fui e não sou assim tão inculto! Ouviste, querido Pai?
Escreve com a antiga ortografia