Para Sanna Marin, a linha vermelha com a Rússia é simples: “quando caças russos invadirem o espaço aéreo europeu ou da NATO, devemos abatê-los e dar um sinal claro a Putin.” A declaração foi feita em entrevista ao DN, a propósito do livro Esperança em ação: O futuro pertence-nos. Questionada se tal atitude não pode levar à guerra com a Rússia, a antiga primeira-ministra finlandesa, que no cargo liderou o processo de adesão da Finlândia à NATO após a invasão russa da Ucrânia, exclama: “Não devemos deixar que o medo dite a nossa resposta. Haverá uma guerra muito mais ampla na Europa se não mostrarmos força agora perante a Rússia.”
É óbvio que esta é a resposta de alguém que já não está na política ativa - é conselheira estratégica no Tony Blair Institute for Global Change desde 2023 - e que se ainda fosse chefe do governo, Sanna Marin teria de medir mais as palavras. Mas a verdade é que aquela que em 2019 se tornou na mais jovem primeira-ministra do mundo, aos 34 anos, revela na sua resposta a mesma atitude de desafio que o seu país teve várias vezes em relação à Rússia/União Soviética.
Grão-Ducado do Império russo entre 1809 e 1917, a Finlândia conseguiu nesses anos construir as instituições depois essenciais após a independência. E numa visita a Helsínquia pode surpreender haver ainda hoje uma estátua do czar Alexandre II, a não ser pelo facto de ter sido ele a introduzir reformas e, sobretudo, a reativar o parlamento finlandês. E se a crescente russificação imposta por Nicolau II acabaria por levar à independência da Finlândia, em 1917, no caos da revolução russa, a II Guerra Mundial iria ditar duas guerras entre os vizinhos. Na Guerra de Inverno (1939-40), apesar da resistência frente aos soviéticos, os finlandeses perderam territórios, mas mantiveram a independência e, de 1941 a 1944, a Guerra de Continuação impôs-lhes novas perdas. Dois conflitos que explicam a neutralidade mantida pela Finlândia na Guerra Fria para garantir a sua soberania e evitar uma invasão soviética. E só quebrada com a entrada na NATO em 2023, na sequência da invasão russa da Ucrânia.
Na memória coletiva, estas guerras estão bem presentes. E os finlandeses orgulham-se tanto da resistência frente aos soviéticos como do país que construíram depois. A própria Sanna Marin apresenta-se como um produto do Estado Social finlandês, que permitiu à menina pobre tornar-se na primeira pessoa da sua família a ir para a universidade - sem ter de pagar manuais ou propinas.
Como primeira-ministra, teve de enfrentar duros ataques ao seu caráter, durante os “escândalos” que aborda no livro - um, a capa de uma revista em que surge de blazer mas sem camisa, outro, o vídeo em que aparece a dançar numa festa. Escândalos de aparente trivialidade mas que não a pouparam a semanas de notícias a denegrir o seu caráter. Hoje, vê nisso sobretudo uma dualidade de critérios em relação à forma como tratavam os seus colegas homens.
Na altura, Sanna Marin recusou pedir desculpas por se divertir e ser como é. Com a mesma garra com que agora garante: “Eu não tenho medo!” e apela à Europa para que não ceda à “retórica de Putin”.