Sanna Marin: “Quando caças russos invadirem o espaço aéreo europeu devemos abatê-los e dar um sinal claro a Putin"
FOTO: Paulo Spranger

Sanna Marin: “Quando caças russos invadirem o espaço aéreo europeu devemos abatê-los e dar um sinal claro a Putin"

Em Lisboa para promover o livro 'Esperança em ação: O futuro pertence-nos' e inaugurar as conferências Ideias de Ler, a antiga primeira-ministra finlandesa falou ao DN sobre ser um produto do Estado Social finlandês. Mais jovem chefe do governo quando foi eleita em 2019, aos 34 anos, mas agora afastada da política ativa, Sanna Marin garante que a Europa não pode mostrar fraqueza quando está a lidar tanto com a Rússia como com os EUA de Trump.
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Foi com um “olá de novo” que Sanna Marin me recebeu para a entrevista, num hotel à beira Tejo. Na véspera, estivéramos à conversa num debate na embaixada da Finlândia em que a antiga primeira-ministra, além de temas como a covid-19 ou a NATO, falou dos desafios de ser jovem e mulher na política, do equilíbrio entre maternidade e carreira ou dos “escândalos” mediáticos que protagonizou, como as fotos de blazer e sem camisa numa capa de revista ou o vídeo numa festa em que surge a dançar e cantar. Polémicas nas quais vê uma “dualidade de critérios” dos media em relação aos seus colegas homens. Desta vez, limitadas pelo tempo, focámo-nos mais na ameaça russa e nos desafios que a Europa enfrenta.

A Finlândia já tinha tido uma presidente e uma primeira- -ministra, inclusive em simultâneo durante uns meses, quando foi eleita em 2019. Estamos a falar de um país que, ainda enquanto Grão-Ducado, um território autónomo do Império Russo, concedeu às mulheres não só o direito de voto, mas também o direito de serem eleitas para o parlamento, em 1906. Então, como explica o interesse em torno da sua eleição, foi também por, aos 34 anos, se ter tornado a chefe do Governo mais jovem do mundo?

Para mim foi uma surpresa a atenção internacional que a minha eleição gerou. Claro que imaginava que seria notícia na Finlândia, mas não previa o interesse internacional que iria despertar. E arrependo-me, menciono-o no livro, de não ter apagado algumas fotografias da minha filha bebé do Instagram, porque foram publicadas em todo o mundo. Olhando para trás, devia ter imaginado. Claro que é notícia internacional que uma mulher de 34 anos se torne líder de um país.

Cresceu numa família com poucas posses. Foi criada por duas mulheres, num ambiente queer. Foi a primeira pessoa da sua família a ir para a universidade. Se não tivesse nascido na Finlândia, com o Estado Social finlandês, teria chegado onde chegou?

Eu diria que não. A minha história não é a de uma pessoa extraordinária. É uma história de sucesso do modelo de Estado Social nórdico que me permitiu ter acesso a creches e a um ensino de elevadíssima qualidade. Consegui ir para a universidade sem pagar propinas e, mais tarde, seguir uma carreira na política porque tínhamos estas estruturas que me ajudaram, a mim, uma pessoa de origem pobre e humilde, a apanhar o elevador social. Por isso, estou extremamente grata ao meu país e às gerações anteriores que construíram este modelo de bem-estar social. E por isso escolhi juntar-me ao Partido Social-Democrata, porque queria salvaguardar estas estruturas, mas também promover mudanças e reformas para garantir que a nova geração tem as mesmas oportunidades que eu tive.

Um dos primeiros grandes desafios que teve de enfrentar como primeira-ministra foi a covid. Como foi lidar com algo tão inesperado e de rápida evolução como uma pandemia?

A covid foi uma crise excecionalmente difícil de gerir. Inicialmente, não tínhamos conhecimento. Não sabíamos que tipo de vírus era, como se propagava, que sintomas provocava a curto e longo prazo. Não sabíamos quais seriam as fases seguintes. Existiam diferentes modelos elaborados por especialistas de saúde que tentavam prever o percurso de propagação do vírus. Mas, ao princípio, não sabíamos o que iria acontecer. Com esse pouco conhecimento, tivemos de tomar decisões sem precedentes para proteger a nossa sociedade. Na Finlândia, foi necessário utilizar os geradores de emergência pela primeira vez desde as guerras. Foi preciso assumir o controlo político da situação e tomar essas decisões, mesmo sem saber se eram as corretas ou se teríamos de as alterar mais tarde.

A Suécia lidou com a covid de uma forma diferente, quase sem restrições. Isso criou algumas tensões entre os dois vizinhos?

A Suécia adotou uma abordagem diferente da dos outros países nórdicos. A Dinamarca, a Finlândia e a Noruega tiveram políticas bastante rigorosas em relação à covid. Adotámos o teletrabalho e as aulas online. Encerrámos grande parte das nossas sociedades para proteger os nossos cidadãos, sobretudo os mais vulneráveis. A Suécia escolheu um caminho diferente. Há razões culturais para isso e administrativas também. Foi difícil, especialmente nas regiões fronteiriças. Por exemplo, na Lapónia as pessoas podem viver no lado finlandês, mas trabalhar no lado sueco. Foi complicado gerir estas regiões com políticas totalmente diferentes em relação à covid. E também com capacidades diferentes no que diz respeito ao sistema de saúde. Uma das razões pelas quais optámos por uma resposta tão rigorosa à covid foi que não tínhamos, e ainda não temos, camas de urgência ou hospitalares suficientes para todos. Assim, precisávamos de impedir a propagação da doença. Em situações de emergência sanitária deste tipo, é necessário trabalhar com o sistema disponível. Mas mesmo tendo vivido uma pandemia global, o atual governo finlandês cortou ainda mais recursos na saúde. É algo que me aterroriza. Porque tenho quase a certeza que a covid não será a única pandemia global que enfrentaremos, infelizmente. E agora estamos a cortar na saúde. Isso não está certo.

Em fevereiro de 2022 deu-se a invasão russa da Ucrânia. E aquele dia acabou por ser um ponto de viragem para a Finlândia, que decidiu abandonar a neutralidade e aderir à NATO. Como foi este processo? A ameaça russa, que a Finlândia historicamente conhece bem, fez mudar as mentalidades quase do dia para a noite?

Sem a invasão em grande escala da Ucrânia, a Finlândia não teria decidido aderir à NATO durante o nosso governo. Antes da guerra, a maioria dos partidos políticos e a maioria dos cidadãos eram contra a adesão. Tínhamos essa opção prevista nos nossos documentos de política externa e de segurança, mas não havia consenso sobre a aplicação da adesão à NATO. E sem a guerra, não teria acontecido. Mas, após o início da invasão em grande escala, diria que talvez não da noite para o dia, mas quase, a mentalidade finlandesa mudou. E a razão foi a mesma que nos manteve militarmente não alinhados durante tanto tempo: garantir a segurança dos nossos cidadãos, do nosso país. Quando a Rússia iniciou a sua agressão, tentando invadir a Ucrânia, percebemos que já não era seguro ficar de fora. Não podemos estar sozinhos se a Rússia representa uma ameaça tão grande para a Finlândia.

Passados três anos da adesão, como olha para a Aliança Atlântica e a forma como os EUA se têm vindo a afastar dos aliados?

Acho justo que os EUA questionem o porquê de financiarem a segurança europeia há tanto tempo. Claro que existem razões para tal, como a influência que exerceram no nosso continente. Mas, ainda assim, é justo perguntarem porque cabe aos cidadãos americanos pagar pela segurança da Europa. E disseram que se vão retirar do continente europeu, não completamente, mas de alguma forma. Isto significa que precisamos de construir capacidades de defesa europeias, uma dissuasão europeia própria. Temos de garantir que o nosso quintal está seguro. É uma oportunidade para nós, europeus, darmos um passo em frente.

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Quatro anos e meio após a invasão russa, a guerra na Ucrânia continua. E vemos cada vez mais ameaças russas, sejam ataques híbridos, drones em aeroportos europeus ou cabos submarinos a serem cortados. Qual é a linha vermelha que os europeus não podem deixar a Rússia ultrapassar?

As linhas vermelhas já estão definidas. Não devemos deixar passar em claro tudo o que a Rússia está a fazer: cortar cabos submarinos, enviar drones, invadir o nosso espaço aéreo, utilizar diferentes tipos de armas híbridas e realizar ataques informáticos. São todos atos de agressão por parte da Rússia, com os quais tenta medir as nossas reações e aprender com o nosso comportamento. Devemos responder a estas ações com força e determinação. Isso significa que, quando caças russos invadirem o espaço aéreo europeu ou o espaço aéreo da NATO, devemos abatê-los e dar um sinal claro a Putin de que isso não é tolerado. Porque se não formos claros e firmes na nossa resposta, eles vão continuar.

Mas não teme que se um país europeu responder...

Não tenho medo. Não devemos ter medo. É retórica de Putin dizer que vai haver uma escalada. Pergunto: qual escalada? Já atacaram um país europeu. Estão a matar cidadãos. Estão a atacar a infraestrutura civil. Então, o que é essa tal escalada?

Portanto, não teme que uma retaliação europeia possa levar a uma guerra em grande escala com a Rússia?

Não devemos ter medo e não devemos deixar que o medo dite a nossa resposta. Encontrar-nos-emos numa situação muito mais difícil e haverá uma guerra muito mais ampla na Europa se não mostrarmos força agora perante a Rússia.

Em 2019, enquanto ministra dos Transportes, esteve com o presidente finlandês na Casa Branca, onde conheceu Donald Trump. Como vê a forma como a Europa está a lidar agora com esta segunda Administração Trump?

Penso que uma lógica semelhante se aplica quando se interage com o presidente Trump. Não creio que ganhemos nada em demonstrar fraqueza. Temos de ser claros e construtivos, mas também representar os valores e as decisões dos cidadãos europeus. Trump respeitará muito mais os líderes fortes, que se mantiverem firmes, do que os que tentam agradar-lhe ou rastejar diante dele. E penso que cometemos o erro de pensar que, curvando-nos e rastejando, conseguiríamos alguma coisa.

Atualmente, está afastada da política ativa. Integra desde 2023 o Tony Blair Institute for Global Change como conselheira estratégica. Voltar à política é uma possibilidade, talvez num cargo europeu?

Neste momento, não tenho planos para voltar à política ou candidatar-me a qualquer cargo. Mas nunca se sabe o que o futuro nos reserva.

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