Regresso às aulas e a ansiedade de separação: Dos pais ou dos ecrãs?

Ivone Patrão

Professora do Ispa – Instituto Universitário

Publicado a

Dos ecrãs? Como assim? Sim, há crianças a frequentar o ensino pré-escolar e o 1.º ciclo do ensino básico a revelar sinais de ansiedade de separação, não do adulto enquanto figura de vinculação, mas do seu ecrã de referência, que pode ser o tablet do próprio ou o telemóvel dos pais. Levam o ecrã até à entrada na escola e não o querem largar!

A inquietude associada à separação do pai ou da mãe, para ficar no espaço escolar, pode ser natural nos primeiros dias. Esta é uma fase de transição entre o período de férias e o estabelecimento de uma nova ligação com os professores e os colegas e, para algumas crianças, pelas características individuais e do contexto, é um desafio exigente para a sua regulação emocional.

É importante criar despedidas curtas, calmas e previsíveis, validando sempre a emoção da criança, com uma rotina de reencontro. E, ainda, pode ser útil usar um objeto de ligação. Um tablet? Um telemóvel? Não. Os objetos de ligação devem ser simples e reconfortantes – por exemplo, um boneco, uma pulseira, um lenço, um desenho. Algo que a criança goste, use e se sinta ligada.

Não obstante, se os ecrãs no contexto familiar estão a ser usados como reguladores emocionais, isto quer dizer que a criança usa o jogo, os vídeos ou as redes sociais para acalmar o que sente, seja o tédio, a tristeza, a frustração, a solidão ou a ansiedade. O ecrã passa a ser o seu melhor amigo, a sua companhia. Quando o ecrã lhe é retirado, todas as suas emoções ficam à flor da pele.

Os ecrãs dão estímulos rápidos, frequentes e imprevisíveis que ativam no cérebro os circuitos da recompensa associados à dopamina, e como tal reforçam a necessidade de ficar. O momento de parar, de sair do ecrã, pode causar irritação e ansiedade. Associar o uso dos ecrãs ao acordar e à ida para a escola tem este efeito negativo.

O regresso às aulas implica uma mudança de rotinas. Se nas férias o ecrã foi aquele que ajudou a regular as birras, então, a sua redução radical será vivida como uma perda de algo bom e reconfortante. E pode ser entendido pela criança como um verdadeiro objeto de ligação, que dá segurança e tranquilidade.

John Bowlby na sua teoria da vinculação reforçou a necessidade de existir uma figura próxima, sensível e responsiva às necessidades da criança, de forma constante e segura.

De forma complementar, Donald Winnicott, retirou o peso da perfeição de ser mãe ou pai, e falava de importância dos “pais suficientemente bons”, que criam um ambiente de sustentação emocional para a criança. Acrescentou ainda a importância do objeto transicional, para estimular a segurança e autonomia da criança, aquando de uma separação.

Ainda que estes conceitos tenham sido desenvolvidos no século passado, estão atuais, e a investigação científica continua a pontuar a necessidade de uma vinculação segura a uma figura de referência, e não a um ecrã.

Os pais, os avós, os tios, enfim, os adultos que cuidam de crianças, que são nativos digitais, têm um concorrente desleal – um ecrã – e, por isso, os desafios podem ser mais exigentes.

É importante apostarmos no adulto como modelo, na higiene do sono, nas rotinas de transição entre férias e a escola, e num padrão de uso do ecrã saudável.

Uma criança com um uso excessivo do ecrã e que não dorme fica mais irritável, ansiosa, impulsiva, com mais dificuldades de atenção e concentração. Se assim for, vai estar com mais dificuldade em regular as suas emoções sem um ecrã na mão. Escolher um tablet ou um telemóvel como objeto de ligação, não facilita a regulação emocional e a integração no ambiente escolar.

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