Férias sem ecrãs: como tirar os jovens do digital e devolver o lazer ao papel e à natureza
A perda das rotinas escolares e o aumento substancial do tempo livre durante a pausa estival transformaram o consumo compulsivo de ecrãs num dos maiores desafios para a saúde mental e o bem-estar de crianças e adolescentes. Para a psicóloga clínica Ivone Patrão, investigadora e docente no Ispa - Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida (antigo Instituto Superior de Psicologia Aplicada), a chave para contrariar esta tendência está na urgência de resgatar o desenvolvimento socioemocional. “Quando tiramos o ecrã, estamos a devolver todo este contacto social e a possibilidade de se identificarem, em presença, com outros. O nosso cérebro continua a precisar do contacto ocular, do abraço, do afeto”.
O alerta quanto aos riscos da hiperligação sem limites no período de descanso é sublinhado por organismos internacionais e nacionais. No seu relatório mundial sobre Tecnologia na Educação, a UNESCO adverte para os prejuízos do uso excessivo do telemóvel na capacidade de atenção e regulação emocional dos jovens, enquanto a Sociedade Portuguesa de Pediatria (SPP) aponta a quebra que as rotinas estivais trazem como um fator de perturbação da qualidade do sono e de aumento da ansiedade.
A explicação neurobiológica para esta hiperdependência assenta na facilidade com que o mundo digital estimula o cérebro.
“O mundo online traz um prazer associado que ativa a dopamina”, explica Ivone Patrão, frisando a importância do “consumo ativo” em detrimento do “scroll passivo”, no qual o algoritmo assume o controlo. “No mundo online tudo é rápido e o algoritmo só nos dá as coisas de que gostamos. Se os entregamos [as crianças e jovens] só ao mundo online, podemos estar a dar cabo das funções executivas, como a atenção, a concentração e a memória. No mundo offline as coisas não são tão rápidas e há que lidar com as frustrações e o aborrecimento”, nota a investigadora.E Ivone Patrão acrescenta um aviso: “Temos de saber introduzir este equilíbrio, porque senão isto torna-se um concorrente desleal. Os cérebros das crianças e dos jovens ficam a achar que é só no digital que sentem bem-estar”.
Além disso, a psicóloga sublinha que o uso desregulado acarreta custos emocionais profundos: “Os conteúdos, que são cada vez mais agressivos e aditivos, e o tempo que se passa online, diminuem drasticamente os níveis de empatia nos nossos jovens.”
O “treino offline” e a revolução em papel
Para rivalizar com a sedução dos dispositivos móveis, a solução passa por oferecer alternativas apelativas no mundo real. “Se há um treino online, também tem de haver um treino offline”, defende a especialista do ISPA. É precisamente nesta premissa de treino do foco e do raciocínio que se insere o sucesso do Caderno #1 - Verão, concebido pelo jornalista Daniel López Valle e ilustrado por Cristóbal Fortúnez.
Ao resgatar o formato dos antigos cadernos de férias para o transformar num objeto de cultura pop, a obra propõe um conjunto de desafios de lógica, história, cinema, arte e literatura envolvidos por humor e rigor gráfico. Sem recorrer a notificações ou lógicas punitivas, a publicação demonstra que o suporte impresso consegue disputar a atenção dos mais novos, exigindo uma leitura demorada e reflexiva incompatível com a dispersão do telemóvel.
“O facto de lermos faz com que não só fiquemos mais informados, mas também que falemos e escrevamos melhor”, reforça Ivone Patrão sobre os benefícios do regresso ao papel.
No terreno: das ciberameaças ao contacto com a natureza
A par da desintoxicação através da leitura e do jogo analógico, o afastar dos ecrãs funciona igualmente como um escudo protetor. “Quando tiramos o ecrã, estamos também a retirar os jovens da exposição constante a ciberameaças e ao cyberbullying”, lembra Ivone Patrão, explicando que a ilusão de segurança doméstica é frequente: “Podemos estar todos de férias na mesma divisão, o miúdo num outro sofá, e acharmos que está a ver algo inofensivo quando na verdade está numa interação mais agressiva. Ao retirarmos o ecrã, retiramos a criança dessa vulnerabilidade.” No terreno, multiplicam-se as iniciativas com políticas estritas de “ecrãs zero”. Um dos exemplos práticos é o campo de férias não-residencial Detetives da Natureza, promovido pela Associação Natureza Portugal em parceria com o World Wildlife Fund (WWF).
A decorrer entre julho e agosto na Labs Lisboa - a incubadora situada no campus universitário, muito perto da Biblioteca Nacional -, para crianças dos oito aos 11 anos (com um custo base de 210€ por semana), o programa transforma os participantes em investigadores ambientais que, ao longo de saídas diárias, resolvem mistérios sobre a biodiversidade sem recurso a qualquer dispositivo tecnológico.
Em maior escala, o programa nacional Férias em Movimento, dinamizado pelo Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ) entre 13 de junho e 12 de setembro, para jovens dos 10 aos 17 anos, oferece dezenas de campos residenciais e não-residenciais gratuitos ou comparticipados. Através de batismos de surf, canoagem, circuitos de orientação, trabalhos manuais e ações de conservação ambiental, a iniciativa retira os adolescentes do isolamento e do sedentarismo doméstico.
Ciência, leitura na areia e redescoberta do convívio
A curiosidade pelo mundo físico encontra também resposta na Ciência Viva no Verão, promovida pela Agência Ciência Viva de 15 de julho a 15 de setembro. Com inscrições gratuitas ou de custo simbólico (entre 2€ e 13€) através do portal da entidade, milhares de jovens participam em sessões de astronomia noturna com telescópios reais, passeios de biologia marinha e exploração de ecossistemas fluviais.
Da mesma forma, as Redes de Bibliotecas de Praia, presentes de junho a setembro em municípios costeiros como Oeiras, Cascais ou Esposende, disponibilizam no areal livros em papel, oficinas gráficas e torneios de jogos de tabuleiro ao ar livre.
Esta transição do ecrã para o mundo físico oferece recompensas biológicas semelhantes, nota Ivone Patrão: “Todas as atividades fora, em contacto com a natureza, até o andar de bicicleta ou uma caminhada, trazem este bem-estar que também ativa a nossa dopamina.”
Os benefícios do afastamento dos ecrãs são corroborados pela investigação de campo. Ivone Patrão acompanhou a aplicação da proibição de telemóveis numa escola durante um ano letivo e concluiu que a larga maioria dos alunos do 5.º ao 9.º ano aprovou a medida, reportando que passara a brincar e a conviver mais. Curiosamente, os jovens apontaram como “desvantagem” o surgimento de maior quantidade de pequenos conflitos sociais no recreio - um sinal, segundo a psicóloga, de regresso à vida real.
“Antes, com o telemóvel na mão, nem reparavam nos outros. Se estavam na fila e lhes passavam à frente, nem reparavam. Ao estarem presentes, têm de aprender a gerir divergências e a negociar. É na presença que se desenvolvem competências socioemocionais que não se treinam online.”
Com base na sua prática clínica e em trabalhos de investigação no terreno, a psicóloga clínica Ivone Patrão destaca dados e evidências essenciais para compreender e gerir o impacto dos ecrãs nos mais novos:
O teste real na escola
(1 ano sem telemóvel):
Ainda antes de entrar em vigor a legislação que agora começa a ser adotada por todas as escolas, Ivone Patrão fez o acompanhamento de um projeto-piloto numa escola que restringiu o uso de telemóveis do 5.º ao 9.º ano . O estudo revelou que a larga maioria dos alunos aprovou a medida, reportando que passou a brincar e a conviver mais. Curiosamente, os jovens apontaram, como desvantagem, a ocorrência de maior número de pequenas brigas e desentendimentos no recreio e na cantina, como nas escolas de outrora - um sinal de regresso ao mundo real, onde é necessário aprender a gerir divergências e a negociar presencialmente, e que faz parte do processo de crescimento social.
Consumo ativo vs. guiado pelo algoritmo:
A literatura científica fixa em uma hora diária o limite recomendado de ecrã para idades entre os cinco e os dez anos. Mais do que este tempo, a especialista sublinha a diferença entre o consumo ativo (escolha intencional e delimitada de conteúdos) e o consumo passivo (comandado pelo scroll infinito do algoritmo), sendo este último o principal responsável por hiperdependência e prejuízos na atenção, concentração e memória.
