Não é tanto o número de horas mas os conteúdos que as crianças e jovens vêm e com que interagem nos telemóveis que são determinantes.
Não é tanto o número de horas mas os conteúdos que as crianças e jovens vêm e com que interagem nos telemóveis que são determinantes. FOTO: Arquivo

Mais ecrã, melhor raciocínio? Estudo de oito anos desafia dogma digital na adolescência

Em vez de proibições cegas, dados apontam que desafios digitais complexos afiam a mente durante a fase de crescimento.
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Investigadores finlandeses acompanharam, ao longo de oito anos, centenas de jovens dos 8 aos 16 anos e concluíram que o tempo passado em frente aos ecrãs está associado a um melhor processamento cognitivo, foi divulgado esta segunda-feira, 17 de agosto, no site da revista Science Daily. O segredo, garantem, não está nas horas gastas, mas naquilo que se faz com elas.

Numa altura em que o discurso público e as diretrizes de saúde tendem a encarar os dispositivos digitais como os principais vilões do desenvolvimento infantil, o estudo da Universidade de Jyväskylä e da Universidade da Finlândia Oriental, acaba de introduzir uma nuance científica de peso.

Ao acompanhar 260 crianças (124 raparigas e 136 rapazes) desde o início da escolaridade até à adolescência (cerca dos 15,8 anos), a equipa de investigadores descobriu que os jovens que acumularam maior tempo de ecrã desde a infância demonstraram, em média, um melhor processamento cognitivo na adolescência.

Os resultados, integrados no consagrado estudo longitudinal PANIC (Physical Activity and Nutrition in Children) e publicados na revista científica Pediatric Exercise Science, contrariam a ideia generalizada de que o consumo de tecnologia é inerentemente prejudicial ao cérebro em crescimento.

A qualidade da atividade supera a quantidade de horas

Para avaliar o impacto real dos hábitos digitais e motores, os investigadores cruzaram questionários detalhados com sensores combinados de frequência cardíaca e movimento, medindo o desempenho mental através da bateria de testes neuropsicológicos CogState (que avalia parâmetros como atenção, memória de trabalho e capacidade de aprendizagem).

A explicação para a vantagem cognitiva observada reside no tipo de envolvimento que os ecrãs proporcionam. Quando os dispositivos são utilizados para pesquisa, jogos estratégicos, criação de conteúdos, resolução de problemas ou comunicação ativa, o cérebro é desafiado e estimulado de forma contínua.

"Os resultados sugerem que o tempo de ecrã pode apoiar o processamento cognitivo de crianças e adolescentes. Presumivelmente, o ponto essencial prende-se com o tipo de atividades que realizam durante esse tempo. Pais e professores devem incentivar o uso de dispositivos de formas que promovam o pensamento ativo, a resolução de problemas, a criatividade e a aprendizagem", sublinha Petri Jalanko, investigador doutorando na Universidade de Jyväskylä e autor principal do estudo.

Jalanko sintetiza a mensagem central: o objetivo não deve ser a demonização ou a restrição cega, mas sim a procura de um equilíbrio saudável entre o movimento físico e o uso digital estimulante.

O enigma do exercício físico: raparigas e rapazes respondem de forma diferente

O estudo debruçou-se igualmente sobre os efeitos da atividade física e do sedentarismo, revelando padrões surpreendentes e diferenciados consoante o género. No caso das raparigas, uma maior acumulação de atividade física de intensidade ligeira desde a infância revelou-se benéfica para a memória de trabalho na adolescência. Já entre os rapazes, foi a prática regular de atividade física orientada e supervisionada – como modalidades desportivas com treinador – que demonstrou uma associação positiva com essa mesma capacidade cognitiva.

Por outro lado, a análise ao exercício físico não-supervisionado revelou um padrão inesperado: níveis mais baixos de exercício livre autorreportado surgiram associados a um melhor processamento cognitivo.

Curiosamente, as medições brutas de movimento e sedentarismo obtidas pelos sensores corporais não demonstraram correlação direta com a cognição. Este dado reforça a tese dos cientistas: o impacto neurológico depende do conteúdo da atividade – tanto mental, como física – e não apenas do gasto calórico ou da postura corporal.

Associação não é causalidade: o apelo ao bom senso

Apesar da relevância dos dados recolhidos ao longo de quase uma década de acompanhamento, os autores sublinham que se trata de um estudo observacional que identifica associações estatísticas, e não uma relação de causalidade direta.

Fatores paralelos – como o contexto socioeconómico, a curiosidade intelectual inata da criança ou o acompanhamento familiar – podem influenciar tanto a preferência por atividades digitais complexas, como o bom desempenho nos testes de raciocínio.

O estudo finlandês deixa, ainda assim, um contributo decisivo para o debate educativo contemporâneo: substituir o pânico moral em torno dos ecrãs por uma literacia digital exigente e ativa é o caminho mais eficaz para preparar os jovens para o futuro.

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