A utilização de telemóveis e o jogo online são algumas das questões sempre em destaque quando o tema é a saúde mental dos jovens. Assunto que motivou um seminário na Cooperativa de Ensino Superior Politécnico e Universitário e que teve como um dos participantes o psicoterapeuta João Nuno Faria, coordenador do núcleo de intervenção no comportamento online no Partners in Neuroscience (PIN ), onde exerce psicologia clínica em torno das temáticas associadas ao Cyberbullying e à Adição à Internet e videojogos.Diz recusar uma leitura simplista da relação entre redes sociais e saúde mental. Então que leitura podemos fazer?A relação entre redes sociais e saúde mental é bastante clara. Levantam-se problemas quando se dá um salto no sentido da causalidade. Existe uma evidência robusta da associação, mas não se sabe muito bem qual é que causa qual. Será que, por se utilizar demais as redes sociais, a saúde mental verifica uma degradação? Ou é por já se verificar uma degradação na saúde mental que os indivíduos recorrem mais às redes sociais? E o risco que se corre nisto é estarmos a dar saltos demasiado precipitados, a confundir causas com consequências. Se a causalidade vem das redes sociais, a intervenção, a prevenção, a redução do dano é num determinado sentido. Se as redes sociais são um recurso desadaptativo de quem está psicologicamente vulnerável, então essa é outro tipo de linha de intervenção, outra forma preventiva que tem de ser feita.O uso intensivo das redes sociais pode ser também sintoma. Há uma explicação para esse uso intensivo? Até ao dia de hoje não existe o diagnóstico de dependência de redes sociais. É muito falado, é muito indicado. Os pais queixam-se, as escolas queixam-se, os governos posicionam-se. O nosso governo está a estudar a proibição até ao 3.º ciclo no próximo ano letivo e depois no secundário. Sou completamente contra a proibição. A proibição dos telemóveis resolve definitivamente o problema dos smartphones nas escolas. Ou seja, se eles não entram, é claro que não são um problema, se reduz o cyberbullying, se aumenta a socialização entre as crianças. Estou plenamente de acordo. Os dados empíricos mostram que há aumento do foco, da socialização, da motivação, diminuição das interrupções. Porém, ao fazê-lo, a escola deixa de sentir que existe um problema. E desta forma passa completamente ao lado do papel pedagógico que tem/que deveria ter de ajudar as crianças e os jovens a aprenderem desde cedo a relacionarem-se mais e melhor com a tecnologia que veio para ficar.Quando se proíbe o consumo de drogas é porque, clarissimamente, o seu consumo é nocivo. Quando se coloca a proibição do consumo de álcool é porque o seu consumo excessivo é problemático. O mesmo para a questão do tabaco. Mas quando chegamos ao patamar da tecnologia, como não é algo facultativo, a escola não vai treinar adequadamente e veicular mensagens, sobretudo preventivas e importantes, de como se deve utilizar bem e de forma adequada. O papel da escola enquanto regulador faria muito mais sentido. As redes sociais são um refúgio dos jovens?Hoje, por a questão das redes sociais ainda não serem uma categoria de diagnóstico, sabe-se muito mais sobre o gambling e o gaming. A evidência está a surgir; muito provavelmente num futuro não muito distante o diagnóstico surgirá, porque o modelo de construção destas aplicações está a ir num sentido de acumular cada vez mais propriedades aditivas – do ponto de vista funcional, não do ponto de vista da substância – que já estão identificadas no caso do jogo a dinheiro e do videojogo. Uma das funções que este tipo de comportamento aditivo tem é precisamente uma função de fuga. Os videojogos têm essa função, o jogo de dinheiro o consumo de álcool, o consumo de droga também. As redes sociais poderão, claramente, ter a função de escape e também a função de coping, ou seja, de regulação emocional.Diz que as redes sociais podem ser também um mecanismo de regulação emocional? Como?Uma coisa que estas experiências permitem é deslocar a atenção do foco dos nossos pensamentos em si – que podem ser eles próprios geradores de ansiedade, de angústia, de depressão – para conteúdos que estão constantemente a refrescar a nossa atenção. Quando se pergunta às pessoas sobre a utilização das redes sociais, muitas dizem que é um passatempo e raramente incluem no seu Top 5 de coisas preferidas para fazer enquanto fornecedor de prazer. Mas é um ótimo mecanismo de fuga àquilo que está a ser alvo do nosso fluxo de pensamento: as minhas preocupações com o trabalho, as minhas preocupações com a escola, as minhas relações com os meus colegas, a tensão entre mim e as notas e os meus pais. Isto tudo desaparece e, nesse sentido, traz uma fortíssima regulação emocional, de maior abrandamento da ativação emocional, pelo mecanismo de fuga em si. Num dos textos que escreveu refere que o Instagram é um facto de stress para os jovens por causa da procura de likes. A vida à procura de reconhecimento do outro é um dos problemas de saúde mental que a sociedade enfrenta?Quando surgiu o Facebook, o símbolo do like tornou-se logo importante. Não é novo. Esta procura do reconhecimento do outro, até certa etapa do desenvolvimento, é necessária. Na infância, necessitamos do feedback dos outros significativos para a construção da nossa noção de nós próprios – o autoconceito, a famosíssima autoestima e a autoeficácia (no que é eu sou bom a fazer). A adolescência pelos 12, 13, 14 anos é uma altura no desenvolvimento cognitivo em que o indivíduo já começa a possuir as ferramentas para fazer a sua autoanálise de uma forma mais válida. As crianças mais novas não têm esta capacidade de se colocarem fora de si, de se analisarem enquanto espectador. Se isto vai sendo prolongado, e se há toda uma comunidade que lida com esta ideia da procura de validação por fontes externas, então aqui está-se a perpetuar qualquer coisa que não vai ao encontro da capacidade desenvolvimentista do indivíduo. E é provável que se fique muito mais refém desta validação vinda de fora, quando já se devia estar a fazer o exercício da validação pelo próprio. Neste sentido, pode ser muitíssimo prejudicial. Já existe alguma investigação que mostra que existe um limite a partir do qual a influência inspiradora dos influenciadores se transforma em inveja. No fundo, os utilizadores das redes sociais estão a comparar-se uns com os outros, numa comparação que não é absolutamente justa porque é altamente selecionada, e é apenas um recorte muito específico – e habitualmente exageradamente positivo. É preciso sempre estar num determinado patamar de elevação para se ser validado. Isso pode ser problemático porque o dia-a-dia, a rotina, o mais do mesmo, não interessa à rede social e, portanto, não obtém validação. Rotina essa que é fundamental para a construção da nossa identidade e para nos encaixarmos adequadamente. E a importância dos influencers na procura dessa “aprovação”?Enorme. Para os jovens, em particular, pela etapa de desenvolvimento, não tanto cognitivo, mas psicossocial em que se encontram. É uma altura onde o jovem vai à procura de respostas para quem é que eu sou, o que é que eu faço, como é que os outros me veem, que impacto é que eu tenho nos outros, como é que vai ser no futuro? Altura muito inquieta, um grande reboliço de hormonas. O grupo de pares ganha uma relevância enorme. Há um afastamento das figuras mais velhas e uma aproximação das figuras mais da esfera da mesma idade. E estes influenciadores com impacto são pessoas que ainda estão dentro da esfera da idade. A necessidade de validação, de seguir o modelo é imensa e é expectável nesta altura. O que é que acontece com estes influencers? Não são influencers do desenvolvimento propriamente dito. São influencers de marcas que pagam, de locais e de ideias que podem ser facilmente coladas por estes jovens que os observam com tanta atenção porque estão na etapa de desenvolvimento para isso. Claro que isto pode ir num sentido muito positivo ou menos positivo. E será só nos jovens?Não é só nos jovens. É sobretudo nos jovens pela etapa vulnerável em que estão na construção da sua identidade. Mas um adulto não é impermeável à influência. E todo o marketing que existe nas redes sociais tem um objetivo muitíssimo claro. Na sequência da pandemia aumentou a adição aos videojogos e à internet. Os casos relacionados com a saúde mental começaram a aumentar também a partir daí?Aqui no PIN temos um núcleo de intervenção no comportamento online – carinhosamente chamamos de NICO, que é um grupo de pessoas que eu coordeno que trabalha especificamente estas problemáticas do comportamento online. E na nossa consulta há um claro antes e depois da pandemia. Já trabalhamos nesta área desde 2013, há um acumular de preocupação e de evidência clínica, mas ali em 2020, houve um acréscimo inacreditável e ainda hoje estamos a lidar o impacto que o covid teve. Eram das poucas coisas que se podia fazer. E então deu-se larga margem a que pudessem ser utilizadas de forma excessiva, intensiva e rotinizada. Quem tinha problemas, agravou-os muito. Quem estava em risco de ter, passou a tê-los. A pandemia foi o marco. Na saúde mental também se verificou. O PIN, no geral, enquanto centro de desenvolvimento, verificou um aumento dos casos. A própria ciência identificou um grande aumento dos casos. Eu diria por duas razões. O impacto do covid, claramente, que mexeu com as pessoas, sobretudo, com as crianças, do ponto de vista do desenvolvimento, colocando-as em trajetórias mais vulneráveis, mais permeáveis aos riscos para a saúde mental. Mas, por outro lado, também se notou o advento da saúde mental nas redes sociais. Tornou-se um tema das redes sociais e a estar muito mais normalizada a ideia de que existe um problema e de que se pode procurar ajuda.E acho que isso também foi um forte contributo para levar as pessoas, com muito mais normalidade, à procura de ajuda profissional para os problemas que também aumentaram. Temos uma nova figura de viciados: os viciados nas redes sociais?Como lhe disse, ainda não apareceu a adição às redes sociais enquanto diagnóstico, mas falaremos em breve.Falamos muito no impacto nos jovens, mas e nas famílias? Como, segundo a sua experiência, estão os pais a lidar com esta questão?Do que temos tido aqui, é um caso difícil de resolver pelas famílias. Nada disto é ensinado. Não existe um contexto: eu diria que seria a escola, desde o pré-escolar, que deveria ter um papel importantíssimo junto das crianças e das famílias para dar informações e formação sobre como e quando melhor utilizar a tecnologia. As famílias não sabem. Por um lado, precisam que os seus filhos tenham dispositivos, porque são fontes de entretenimento, de conexão e também de vigilância.Por outro lado, reconhecem que o tempo de utilização é excessivo, que os conteúdos não são mais adequados, mas por ser também uma geração que está ainda bastante fora do mundo digital, também não compreendem a experiência na sua plenitude, não estão tão ao par das forças e dos riscos associados à utilização. Mas a prática clínica, o que existe, por enquanto, é o FOMO como uma entidade clínica – é o medo de ficar de fora e todas as fragilidades que isso causa. E é uma experiência de impacto na família, porque o jovem quer ficar até mais tarde ligado à internet para saber o que se está a passar, quer acabar a refeição mais cedo para se ligar, não desliga o telefone enquanto está à mesa, não estuda tanto tempo. O mundo digital não tem vantagens? Só se fala dos problemas de saúde mental, de vício etc...Em todos os sítios onde vou dar formação, nunca deixo de fora a importante mensagem de que estas experiências têm dimensões muito positivas. Não só a questão do dispositivo em si, que veio para ficar, mas as próprias experiências dentro do digital podem ser muito positivas. Há imensa evidência da promoção do desenvolvimento cognitivo, emocional, comportamental, social que vem dos videojogos. No caso das redes sociais, de certeza que existirão conteúdos extremamente inspiradores, motivadores, e vê-se a presença de influenciadores que contribuem do ponto de vista pedagógico, escolar, da exploração do mundo, do contacto com outras culturas. A internet enquanto fonte de aprendizagem multidimensional é absolutamente inquestionável. Deixar os indivíduos completamente fora destas experiências é privá-los de um potencial benéfico.carlos.ferro@dn.pt.Redes sociais: até onde devem ir os jovens?.Proibição de telemóveis nas escolas fez reduzir ‘cyberbullying’