Pais, nestas férias, arranjei um 'part-time' 'online': 4h de ecrã na mão, posso ir?

Ivone Patrão

Professora do Ispa – Instituto Universitário

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“Não, não podes!” Se entendermos o part-time online como um modo de trabalho, será uma exploração infantil. Em Portugal, o trabalho realizado por menores de idade não é permitido e é sancionado, com enquadramento legal explanado na Constituição da República Portuguesa e nos Códigos Civil, Penal e do Trabalho.

Nesta época de férias, a afirmação frequente de pais de crianças e jovens é: “Passa o tempo todo no ecrã!”

Ficar só pela afirmação é subtilmente assumir o contrato de part-time online, e assim, uma criança ou um jovem em 3 meses de férias terá, pelos menos, 360 horas de “trabalho”, sem folgas, onde dá o seu tempo em troca de conteúdos rápidos, de recompensa imediata, para alimentar os algoritmos e ajudar a tornar viral reels, que podem não ser adequados para o seu nível de desenvolvimento.

Passar ao passo seguinte será pensar em conjunto, com a criança e com o jovem, os cenários possíveis para ocupar o tempo. É muito importante acrescentar, nessa negociação, as experiências vividas pelos pais, tios, avós para ocupar o tempo, agora, e quando eram mais novos, quando não existiam os ecrãs.

Na Teoria da Aprendizagem Social, Albert Bandura, psicólogo, defende que aprendemos não só pela experiência direta, mas também pela observação, pela imitação e pelo reforço dado ao comportamento. E se assim é, os adultos são modelos educacionais para as crianças e para os jovens, quando têm um ecrã na mão. Por isso, talvez as crianças e os jovens possam também perguntar: “Os pais podem fazer part-time online nas férias e eu não, porquê?”.

Cada família pode olhar para a forma como ocupa o tempo e que mensagem passa para os mais novos. Até porque os adultos, em férias, querem muito descansar da sobrecarga do trabalho, e não querem assumir um part-time online.

Em cada comunidade existem algumas atividades de ocupação dos tempos livres que permitem desfrutar do ar livre, da natureza, e que activam competências socio-emocionais e motoras, pois implicam actividade física e gestão de relações interpessoais.

No seio da família podem surgir sugestões criativas e úteis de ocupação do tempo que não só ter um ecrã na mão. Não é necessário diabolizar o ecrã, pois ele pode ser útil para mediar uma atividade artística, para traçar um trilho, para comunicar. São diferentes: a centralidade do ecrã durante o dia (e por vezes, durante a noite) e o uso do ecrã como ferramenta e mediador de uma atividade. É diferente ter um consumo intencional do ecrã, ou seja, com tempo e conteúdos que são escolhidos pelo próprio, em comparação com um consumo livre do ecrã, ao ritmo do algoritmo. E também é diferente realizar tarefas úteis para o bem-estar de todos em família e o trabalho infantil. É muito rico promover o trabalho de equipa e a partilha de tarefas, pois motiva a empatia e resolução de problemas práticos.

Com as crianças a ocupação do tempo livre pode ser uma tarefa mais fácil. Os jovens são já mais autónomos no consumo do ecrã, e se não tiveram nas suas rotinas, durante o período escolar, limites e regras, nas férias pode existir um uso excessivo do ecrã com interferência na funcionalidade diária – por exemplo, no sono, na socialização, na atividade física, na alimentação.

Na “passarela das férias”, os adultos podem ser um modelo educativo digital e, também, antecipar que tipo de contrato querem assinar, todos em família, para o tempo e os conteúdos visualizados através do ecrã. Tudo isto pode dar “trabalho” e ao mesmo tempo retorno, ao verem a “colecção de verão” investida em tempo relacional de qualidade.

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