Quando não houver fundos da UE, “assobiem-lhe às botas”

João Oliveira

Eurodeputado pelo PCP

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A discussão do próximo quadro comunitário vai prosseguindo aceleradamente, distante e arredada de noticiários, primeiras páginas e da discussão política mais geral em Portugal.

As iniciativas que tentam romper esse cerco de silêncio, num momento em que as decisões estão ainda em construção, passam também quase completamente despercebidas no radar mediático. Mesmo quando se juntam representantes de múltiplos sectores de actividade, sindicatos, associações profissionais e sociais, professores universitários e outras personalidades dedicadas ao tema, incluindo convidados internacionais, parece não haver interesse em dar notícia pública do que se discute.

Lamentavelmente, salvo uma honrosa excepção, foi isso que aconteceu com a iniciativa que o PCP realizou na passada sexta-feira, dia 24. Apesar do valioso arsenal de contribuições que foi possível recolher daqueles diversos e vastos contributos e opiniões, a expressão mediática é quase nula.

Quando tudo estiver decidido (ou quase) e alguém se der conta daquilo que aí vem para os anos 2028-2034, certamente aparecerá muito quem se pergunte como foi possível ter-se deixado passar tamanhas malfeitorias sem a correspondente denúncia e recusa.

Ao contrário do que a quase inexistência mediática parece fazer crer, o que aí vem não é caso para pasmacento desinteresse. O que está na calha é muito mau e preocupante.

Muito dinheiro para armas e guerra, pouco dinheiro para casas, hospitais, escolas, cultura.

Para grandes grupos económicos e multinacionais, uma nota preta. Para agricultores, pescadores, pequenas e médias empresas uns tostões furados.

Financiamento para ciência, tecnologia, produção industrial, investimento em ferrovia, portos, aeroportos, só se lhes se encontrar também um uso militar que possa ser útil.

E não haverá tostão que seja entregue a um Estado ou região que não seja controlado diretamente pela toda-poderosa Comissão Europeia e não esteja dependente das suas orientações e exigências. Que é como quem diz: querem fundos, cumpram as ordens que vos damos com as designadas “recomendações“ de reformas.

O que se antevê não é apenas uma errada distribuição de fundos europeus em função dos diversos objetivos a que eles podem ser destinados. O que está também em gestação é uma mais injusta distribuição desses fundos, saindo prejudicados os países menos desenvolvidos económica, social, científica e tecnologicamente e sendo beneficiados aqueles que estão na dianteira desse desenvolvimento e também do controlo político das instituições da UE.

Quando for tarde demais para reparar o prejuízo, aqueles que agora andam distraídos, depois “assobiam-lhe às botas”.

Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico

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