Paramount & Warner, ou a morte do cinema?

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Os novos espectadores de filmes não foram educados para o cinema. Nem sequer para conhecer o pano de fundo industrial em que os filmes são gerados – muitos acreditam mesmo que mais de um século de filmes se reduz a uma avalanche ruidosa de “efeitos especiais”. Na melhor das hipóteses, poderão associar este ou aquele filme à Netflix, à HBO Max ou à Disney+, mas nada disso envolve o desejo de conhecer o universo multifacetado da criação cinematográfica, desejo que alimentava (e, apesar de tudo, ainda alimenta) a cinefilia clássica. No limite, a crença, abstrata e pueril, da pertença dos filmes a uma “coisa” a que se dá o nome de streaming apagou qualquer noção do que seja um estúdio de cinema.

Daí que esses mesmos espectadores, incautos utilizadores da insensibilidade de muitos instrumentos digitais, nem sequer deem atenção ao facto de a história de Indiana Jones ou Batman (que, apesar de tudo, conhecerão) ser indissociável de nomes como Paramount ou Warner, respetivamente. Não suspeitam também que, de uma maneira ou de outra, tais nomes estarão inevitavelmente associados ao futuro da sua condição de espectadores.

A história é antiga, mas pode dizer-se que está agora a recomeçar – e, para mais, entrando num capítulo cujas consequências são potencialmente trágicas para o mundo dos filmes e, no limite, para a própria sobrevivência da noção de “cinema”. Assim, depois das atribulações geradas pela vontade, não-consumada, da Netflix de adquirir os estúdios da Warner, está em marcha a fusão da mesma Warner com a Paramount (condicionada, para já, pelas questões em análise motivadas pelas leis da concorrência dos EUA).

'Psico' (1960): foi você que disse Paramount?
'Psico' (1960): foi você que disse Paramount?Arquivo

Os mais céticos (em que me incluo) poderão estar enganados. De acordo com uma possibilidade quase mítica (afinal, ainda estamos a falar da “fábrica dos sonhos”), os gigantes Paramount e Warner poderão gerar um gigante ainda maior que, além de gerir de forma inteligente o prodigioso património artístico de cada um deles, rasgue novos caminhos para a produção de filmes, respeitando a pluralidade dos profissionais que lhes dão vida.

Acontece que são muitos os profissionais que não acreditam nesse futuro radioso. Assim, há poucos dias, mais de 3000 trabalhadores do mundo do espectáculo e da informação (sim, o jornalismo não é estranho a todas as estruturas de produção em causa) assinaram um documento de inequívoca desaprovação da possível fusão Paramount/Warner. Embora reconhecendo que a “competição é essencial para uma economia saudável e uma democracia saudável”, sublinham o facto de esta fusão ter como prioridade “os interesses de um pequeno grupo de poderosas entidades contra o bem do público em geral”. Especulando, ma non troppo, talvez que uma das questões centrais seja a criação de um novo gigante do streaming (fundindo Paramount+ e HBO Max), preparado para concorrer de forma mais agressiva com a... Netflix.

"A fusão de dois estúdios de cinema dos EUA transcende fronteiras, podendo desencadear efeitos realmente globais.”

Compreendemos que nada disto é uma banal situação de egos feridos quando começamos a ler os nomes dos signatários do documento: David Fincher, Denis Villeneuve, Jane Fonda, Joaquin Phoenix, JJ Abrams, Ben Stiller, Bryan Cranston, Mark Ruffalo, Emma Thompson, Lin-Manuel Miranda, etc. Lembram os signatários que este tipo de fusões tem gerado sempre uma diminuição do número de produções e uma consequente vaga de desemprego, a par do enquistamento da sua pluralidade artística, no limite ameaçando a “sustentabilidade de toda uma comunidade criativa.”

A questão inicial da educação para o cinema não será uma poção mágica para resolver o assunto, mas convulsões deste teor reforçam a sua importância, muito para lá das fronteiras simbólicas de Hollywood. Afinal de contas, o primeiro filme sonoro, The Jazz Singer (1927), surgiu com chancela Warner, enquanto títulos tão populares como Psico (1960), O Padrinho (1972) ou Titanic (1997) foram gerados nos estúdios Paramount. As suas memórias não são peças intermutáveis da burocracia digital, mas sim referências de um património realmente universal.

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