Para que é que serve a música? Para o etnomusicólogo norte-americano Anthony Seeger, a música ocupa funções diferentes em sociedades distintas, ainda que, numa comunidade específica, indivíduos diferentes possam assumir vários papéis dentro da mesma manifestação musical (por exemplo, numa jam session de jazz há quem ouça e há quem toque; e no grupo dos músicos há quem toque contrabaixo, piano, trompete e por aí fora). Até há música que nos leva a consumir produtos, sendo que também há música concebida especificamente para isso, num contexto publicitário. Lembro-me, a título de exemplo, de uma famosa cadeia de supermercados que cultivou várias músicas no subconsciente - e mesmo no consciente - de muita gente, deixando-nos com a eterna pergunta que puxa pela resposta evidente: Quem trouxe, quem trouxe? Portanto, há música comercial, literalmente, com o objetivo de nos levar a comprar coisas. E há música que é comercial simplesmente porque segue padrões que levam ao consumo de si própria, como um produto (ainda me lembro da MTV de 1998, por exemplo). Como explica um outro etnomusicólogo norte-americano, Timothy Taylor, num livro intitulado Os Sons do Capitalismo (The Sounds of Capitalism, na versão original), uma certa música é uma tecnologia cultural do capitalismo, capaz de criar afetos, memórias e identidades de marca. Neste sentido, a publicidade ter-se-á apropriado da música para naturalizar o consumo, acabando por torná-lo emocional, íntimo, praticamente inevitável. Timothy Taylor explica como a cultura popular norte-americana foi profundamente moldada por esta simbiose entre música e mercado, sendo que o capitalismo não apenas usa música, mas produ-la, da mesma forma que orienta a sua circulação e influencia a sua estética.Continuamos a falar de música, mas talvez pudessemos falar de qualquer outra coisa nestes termos.Mas quero distanciar-me desta música, que eu também consumo – como inevitabilidade do mundo ocidental em que vivo – para falar da investigação mais icónica de Anthony Seeger. Prometo que não serei moralista, nem no plano estético nem no ideológico, mas defendo que toda a música é comercial, porque apela aos afetos, independentemente das comunidade em que estamos inseridos.Anthony Seeger, em determinada altura da vida, foi morar para o Brasil, onde estudou música, no sentido mais antropológico do termo. Durante dois anos, morou no Estado do Mato Grosso com a mulher, uma guitarra e um banjo.Poderia ser uma evasão, mas foi mesmo no contexto duma investigação que o levou a viver com os índios Suiá, que lhe mostraram que a música cumpre objetivos comunitários concretos, como estabelecer relações e assinalar que a estação das chuvas começou.Foi uma troca de experiências, tendo em conta de Anthony Seeger ensinou a música que sabia e recebeu o retorno que esperava. Deixo já a nota de que, de acordo com o investigador, nenhum dos membros daquela comunidade demonstrou interesse na guitarra ou no banjo. A única forma relevante de música é a voz, ainda que a acompanhem em determinadas situações com chocalhos feitos a partir de nozes ou sementes secas.A sociedade Suiá é construída com música, não há relógios, estações, direções, e é com música que assinalam as diferenças. A época das chuvas começa e acaba com música, o tempo é definido com música e o espaço também, no sentido em que há lugares onde se faz música e outros onde não se faz música.O mesmo acontece com as relações entre pessoas: há quem canta certo tipo de canções e há quem não cante. Assim, através de música, são construídos vários aspetos da sociedade.É suposto cada manhã começar com música, assim que o sol começa a nascer. O mesmo acontece à noite.Quando estão a construir uma grande cerimónia, começam a cantar para a preparar, constantemente, de manhã e à noite, todos os dias, até que ela é concretizada.Um outro aspeto desta comunidade é a palavra para música, que é exatamente a mesma que utilizam para designar dança. Para eles é exatamente a mesma coisa, até porque ambas nascem do corpo: voz e movimento.Por algum motivo, sinto que quem sente, não fica indiferente a música. Seja ela qual for, com uma cadência constante, definida, leva sempre alguém a bater o pé, caso não tenha restrições, ou a abanar o pescoço. Também é por isto que há bailes.No caso dos Suiá, há ainda outra semelhança com aquilo que a maioria das pessoas associa a um ambiente musical: toda a gente se veste da mesma forma se estiver a tocar numa orquestra, ou se pertencer a uma banda punk rock.Os Suiá despem-se completamente nas cerimónias importantes, pintam-se de vermelho ou preto e fazem música..Jordi Savall: “Fazer música é uma mensagem de solidariedade, de igualdade”.Como não apostar em cultura e outras caricaturas