Como não apostar em cultura e outras caricaturas

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A música é uma linguagem universal, apesar de conter em si mesma um conjunto de códigos mais ou menos simbólicos que são ulteriores à expressão linguística. Quando refiro este caráter universal dos sons organizados com intenção não estou a pensar em canções, tendo em conta que, na maior parte das vezes, por terem alguma língua na base, estão mais ligadas a umas pessoas do que a outras. Ainda assim, a voz pode ser universal, porque contém possibilidades ultra e paraverbais, que vão além das palavras.

Um bom exemplo desta universalidade é Lisa Gerrard, que recorre ao seu poderoso aparato vocal como se tratasse de qualquer outro instrumento, sem que haja uma letra concreta por trás. No filme (que também é um disco) de Dead Can Dance intitulado Toward the Within (1994), Lisa Gerrard descreve o estado pré-verbal da sua filha, que, ainda antes de saber falar, quando era bebé, já sabia cantar. Eram sons sem aparente ligação semiótica com algum significante, mas com propósito, que só um bebé poderia expressar. Lisa Gerrard explicou como este princípio lhe serviu de inspiração para algumas canções, que contêm voz sem palavras definidas, ainda que não sejam desprovidas de significado: é aqui que entra a ornamentação, a entoação e tantas outras expressões que dão sentido às músicas.

Há uns dias, durante a iniciativa In Varietate Concordia - organizada pelo Centro Nacional de Cultura e pela Europa Nostra -, que decorreu na Fundação Calouste Gulbenkian, o maestro catalão Jordi Savall, em conversa com o barítono Jorge Chaminé e com a fadista Katia Guerreiro, demonstrou como a Europa, antes de ser uma organização económica, começou pela cultura.

Não sei se há um denominador cultural comum entre os países europeus, mas, durante a conversa, Jordi Savall alertou para um momento fundacional da música europeia: a criação da Ars Nova (arte nova, em latim), no século XIV, que, de uma forma resumida, correspondeu a uma inovação na notação musical, que abriria portas para a polifonia e para todos os grandes compositores de que ouvimos falar desde sempre, como Dufay, Bach, Vivaldi, Lully, Telemann, Mozart, Seixas, Fauré, Beethoven, Bontempo. A lista é interminável.

"Jordi Savall alertou para um momento fundacional da música europeia: a criação da 'Ars Nova' (arte nova, em latim), no século XIV, que, de uma forma resumida, correspondeu a uma inovação na notação musical, que abriria portas para a polifonia e para todos os grandes compositores de que ouvimos falar desde sempre"
"Jordi Savall alertou para um momento fundacional da música europeia: a criação da 'Ars Nova' (arte nova, em latim), no século XIV, que, de uma forma resumida, correspondeu a uma inovação na notação musical, que abriria portas para a polifonia e para todos os grandes compositores de que ouvimos falar desde sempre"Leonardo Negrão

O maestro catalão descreveu este momento como a “coisa mais bela” criada na Europa, algures entre França e Itália. É assim que este projeto europeu surge como a base de todos os outros que se lhe seguiram, até mesmo a Comunidade Económica Europeia, à qual Portugal aderiu há 40 anos, junto com Espanha.

Falar em notação musical pode remeter para música erudita, mas quero sublinhar que a Ars Nova influenciou todas as expressões musicais que chegaram até hoje, seja o pós-punk de Joy Division ou a música sentida e pensada por Rodrigo Leão. Por tudo isto, uma apologia à música europeia e a todas as outras não é um exercício intelectual que sublinha um certo elitismo estético. Pelo contrário, é a democratização da música, não esquecendo, porém, que há músicos e investigadores que lutam diariamente para recriar a beleza da música que, ao longo dos séculos, foi sendo substituída por outras mais recentes, até que acabou por ser resgatada dos confins da memória.

Há outro aspeto que acabou por tornar a música europeia naquilo que é e que continuará a ser, sempre em mutação: a diversidade.

"Uma aposta em cultura iria resolver alguns problemas estruturais, que só existem por ignorância.”

As expressões são influenciadas por outras expressões, de preferência diferentes o suficiente para contrastar e criar a curiosidade necessária para que se dê o deslumbramento. Talvez seja aqui que entra o exotismo.

De uma forma ou de outra, tanto os artistas que, no contexto da conferência, alertaram para as fragilidades da cultura - até porque não é barato contratar artistas que façam interpretações historicamente informadas de música antiga -, como o representante do Governo, o secretário de Estado da Cultura, Alberto Santos, e o presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, o referiram. Também sublinharam a importância de investir em cultura, na mesma medida em que deixaram notas de apreço a todas as influências de vários povos que nos trouxeram aqui.

Quase de forma caricatural, Alberto Santos, depois do seu discurso inspirado sobre a forma como o Governo diz querer investir em cultura (mais 50% ao longo deste ciclo legislativo, vincou), saiu sem ouvir as críticas que os artistas tinham para fazer aos vários governos. Não me surpreende, até porque este Governo é liderado por Luís Montenegro, que, há quase um ano, escolheu Tony Carreira como artista convidado para celebrar o 25 de Abril, uma semana depois, no 1.º de Maio, para que a celebração da liberdade e da democracia não interferisse no luto decretado pela morte do Papa Francisco. Parece-me que uma aposta em cultura iria resolver alguns problemas estruturais, que só existem por ignorância.

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