Este concerto - Oriente-Ocidente -, como aconteceu com Les Routes de l’Esclavage, parece responder a uma inquietude ética e política muito clara. Acredita que a música antiga pode ser uma ferramenta para a paz e não apenas um gesto simbólico?Não é um concerto estritamente de música antiga. É um concerto em que há representantes de culturas muito diferentes e depois há músicos, como David Mayoral, que vem da música histórica. O que aproveito aqui é que, com a música medieval, podemos dialogar perfeitamente com as músicas orientais, porque estamos no mesmo sistema modal e monódico. Aproveito essas características que nos permitem dialogar de uma forma totalmente natural, porque nós, os ocidentais, podemos tocar com eles e eles podem tocar conosco. Se eu fizesse, por exemplo, uma cantata de Bach, não poderia fazer música com os mesmos músicos que tenho aqui, porque é um idioma totalmente diferente. Portanto, a ideia principal neste concerto é que se misture Hespèrion, que somos poucos, David Mayoral, na percussão, Dimitri Psonis [no santur], que é grego e toca conosco há muito tempo, e depois os outros são músicos que vêm de culturas orientais e pertencem ao projeto que comecei em 2017, quando havia as migrações massivas em Calais e perto de Grécia. Visitei esses lugares e dei-me conta da terrível tragédia que era para essas pessoas que tinham caminhado milhares de quilómetros e não podiam chegar a um lugar onde podiam ter as suas vidas. Impressionou-me especialmente na Grécia, porque ali os migrantes estavam instalados em grandes estruturas de fábricas vazias, e havia centenas de crianças que não tinham pais. Foi quando decidi que algo tinha de ser feito, que não podia estar simplesmente a lamentar-me. Foi quando decidi fazer este projeto que apresentei à Europa Criativa, de ajudar os que viessem cá e fossem músicos a fazer música. E também ajudámos a fazer master classes em bairros marginais, onde os filhos dessas culturas não tinham possibilidade de estudar a música das suas culturas. Fizemos isso durante três anos e foi uma experiência maravilhosa. Este concerto resume um pouco esse trabalho. E aqui há dois ou três músicos que são muçulmanos, músicos refugiados, músicos curdos e todos esses músicos que vieram para a Europa e que procuram a fazer as suas vidas.Este concerto é uma forma de questionar o passado ou o presente?É uma forma de mostrar que o diálogo é possível quando deixamos que todo o mundo possa falar e possamos escutar. A música ensina-nos que, para fazer música, a primeira coisa que temos de fazer é escutar. E também afinarmo-nos. Fazer música é uma mensagem de solidariedade, de igualdade, porque quando fazemos música temos de respeitar os outros, escutá-los e unirmo-nos. Portanto, este concerto é uma mensagem a favor do diálogo, da paz e do respeito de outras culturas e músicas.Assumiu na UNESCO e na União Europeia um papel como embaixador para o diálogo intercultural. Qual é a maior ameaça a esse diálogo? São os populismos, que usam o medo das culturas distantes para nos fazer ter medo e evitar que possamos comportar-nos com naturalidade. Com certeza há conflitos, porque cada cultura tem os seus costumes, e há costumes que podem chocar-nos. E temos que lutar também, porque às vezes nas outras culturas a mulher não é respeitada. E temos que lutar para que os direitos da mulher e de outros coletivos diferentes sejam respeitados. Mas entre isso e estar contra qualquer diálogo é outra coisa. Quero lembrar que toda a civilização europeia se fundamentou no intercâmbio de pessoas que viajaram. E na música é mais evidente. Temos músicos espanhóis que iam a Roma na época de Borgia, os melhores polifonistas daquela época, Tomás de Victoria, Francisco Guerrero, Morales. Temos músicos italianos que vão a Inglaterra no período isabelino e mostram as violas da gamba e fazem com que esses instrumentos se desenvolvam. Temos músicos alemães que vão a Veneza para estudar a nova forma de fazer música que foi inventada por Monteverdi, no contexto da Camerata de’ Bardi, com Frescobaldi. E depois temos um italiano de Florença que vai a França e inventa a música francesa, que é Lully. E é um italiano. Jean-Baptiste Lully? Sim. E depois temos na Alemanha compositores como Telemann, que são os melhores compositores que fizeram música francesa. E é alemão e tem as melhores suites para orquestra de música francesa. Händel é de origem alemã e está associado à cultura inglesa. Em Espanha, temos Scarlatti, temos grandes artistas italianos. Toda a história europeia baseia-se numa riqueza de intercâmbios. E isso não devemos esquecer. Mas há outra coisa muito mais importante: esquecemos que durante mais de três séculos, desde o século XVI até o século XIX, a riqueza da Europa foi fundamentada com o trabalho de escravos, que trabalhavam forçadamente, sem serem pagos, em toda a América colonial. E são milhões de africanos que retirámos dos seus povos, das suas terras, das suas famílias de uma forma violenta. Temo-nos esquecido, porque hoje ninguém se lembra quando chegam esses mesmos descendentes africanos que vêm para a Europa. Ninguém fala disso. Nunca ouvimos a mínima referência a esse momento histórico. E a Europa nunca pediu perdão e nunca compensou essa enorme barbaridade. Acho que isso é fundamental. Temos uma memória tão curta que, para mim, a música é a melhor forma de nos lembrarmos da história. Porque quando ouvimos uma música, como tocamos hoje, da Idade Média, ou qualquer outra música de outras épocas, vivemos a experiência que viviam aquelas pessoas na época. Sentimos as mesmas emoções e podemos entender melhor como eram essas pessoas, como pensavam e como viviam. Isso dá-nos uma visão da história que é importantíssima, porque quem não tem memória não pode melhorar a vida. A vida melhora se tivermos memória e se soubermos aprender com os nossos erros.Em trabalhos como The Celtic Viol, considera mais importante o rigor histórico ou desmontar estereótipos sobre os instrumentos?Eu não quero desmontar. Formei-me em música europeia, mas descobri, ao longo da minha juventude, que há muitas músicas que não estudamos no conservatório e que são músicas que são importantes na cultura de muitos países. Descobri uma coisa muito importante através da música sefardita: as músicas populares, muitas vezes, nascem da necessidade de encontrar esperança, de encontrar paz. A música céltica servia para as pessoas que viviam num mundo em que não tinham nada para comer - porque a Irlanda e a Escócia, a Irlanda especialmente, eram detidas pela Inglaterra e não podiam ter todos os recursos. E quando migravam, também tinham de trabalhar muito e duramente. A música era o que os salvava. Fazer música depois de um dia de trabalho duro, num pub, com uma cerveja, dava-lhes esperança. É o mesmo com uma família sefardita, que tinha que emigrar para Istambul, ou para Fez, ou para onde for, cantar as músicas que tinham cantado os seus avós, e que lhes dava de novo esperança e lhes levava paz. Além disso, servia de ligação, de conexão com as suas raízes, porque conservavam as suas músicas e o seu idioma. Portanto, percebi que não podemos estar somente no mundo da música, que é muito importante. Por isso, interessei-me pela música céltica, pela sefardita, pela música arménia, pela música turca, pela música árabe, e pela música colonial, porque isso dá-me uma visão muito mais ampla de toda a riqueza. E também me interessei pela música chinesa, pela música japonesa, porque estamos ligados, mesmo que sejam formas muito diferentes. É um idioma que nos une.Toca com frequência um rebab original do século XI. Qual é a importância de tocar com instrumentos originais?Os instrumentos originais são como um bom vinho com alguns anos. A passagem dos anos num instrumento é algo que é impossível de obter num instrumento que acabou de ser construído. O som num instrumento moderno pode ser mais forte, pode ser mais brilhante, mas o instrumento antigo sempre tem uma textura que vem da idade e por ter sido tocado. Por isso, eu gosto, mas não tenho nenhum problema em tocar também instrumentos modernos. Tenho a sorte de ter encontrado os instrumentos, porque os procurei desde muito cedo. Mas eu penso que o que é importante ressalvar é que o som dos instrumentos de uma época aproximam-nos mais do que os compositores pensaram. Porque, claro, escutar uma sonata para traverso de madeira ou com um um piano forte não é o mesmo que escutar essa sonata com uma flauta de ouro ou de prata e um piano. A música pode ser tocada de muitas formas, mas hoje em dia temos o paradoxo de que conhecemos Beethoven, por exemplo, que é um dos compositores mais populares do mundo, conhecemos a sua música, as suas sinfonias, com versões que estão muito longe do que ele pensou e fez. Porque as versões que conhecemos são versões de Karajan, por exemplo, de grandes maestros, mas que interpretaram com orquestras duas vezes maiores do que o que Beethoven pensara, com instrumentos modernos e com uma concepção rítmica, tempos que não têm nada a ver com o que Beethoven deixou escrito. O exemplo mais típico é a Sinfonia n.º 5. O destino bate à porta, quando aqui põem allegro molto. E não é o destino, aqui é a revolução que começa. É a Revolução Francesa. Esta sinfonia explica como foi a Revolução Francesa. E isso é porque, naquela época, não davam importância aos metrónomos. O maestro pensava que era o único que podia decidir o bom tempo de uma obra. Hoje, estamos a conseguir voltar a escutar essas músicas com o som da época e com o caráter. E isso é possível porque, com orquestras como a minha, fizemos o mesmo caminho que fizeram os músicos da época. Começámos com as músicas da época de Monteverdi, de Lully, 1600, 1650, e fizemos o caminho a aprender todas as técnicas, os golpes de arco, a maneira de tocar, os ornamentos, a dinâmica. E quando chegamos a Beethoven, somos como os músicos da época, que também haviam tocado Bach, Händel ou Gluck. E hoje podemos, quando vamos com uma espécie de mochila cheia de coisas que já estão dentro de nós. Quando um músico que está a tocar Stravinsky, Wagner, ou Ravel, ou Debussy, ou músicas de hoje em dia, vai para trás, não tem essa bagagem. Ele leva a bagagem que tem do nosso tempo. São virtuosos, são perfeitos - os modernos são mais perfeitos que os antigos -, mas falta essa bagagem. Então não há essa naturalidade, o som, os acordes naturais. A visão que temos é totalmente diferente. O som está muito longe do original. E acho que é importante que possamos aceder às obras-mestras de outros compositores com uma aproximação do original que o compositor esperava.O que faz a viola da gamba um instrumento tão fascinante?A viola da gamba que eu escolhi foi a baixo, porque naquelas épocas antigas, na família dos violinos o instrumento solista era o violino. O violoncelo demora muitos anos para ser solista, porque fazia parte do baixo do violino. No entanto, a viola da gamba, desde o princípio, mesmo que houvesse um conjunto de violas sopranos, a viola da gamba tomava o papel de solista, porque no conceito do renascimento, a viola da gamba expressava todos os âmbitos da vida de um ser humano. A parte aguda, do menino, a parte mais aguda, de uma mulher, depois, o tenor, o baixo, do ancião. Era esse símbolo de que um instrumento com seis cordas tocava os sons correspondentes à voz humana de diferentes idades. E com isso também se tenta tocar a parte sensível. Pode-se estar a tocar um violino maravilhosamente, mas se estiver numa habitação pequena e o violino tocar durante horas, há um momento em que os sons agudos são tão fortes que se tornam insuportáveis. Uma viola da gamba não tem esse problema, porque não é um instrumento tão brilhante. É um instrumento que pode falar. E digo, inclusivamente, sussurrar. Pode falar à orelha. Todas as coisas mais belas que se dizem entre um homem e uma mulher são sempre suaves. Todas as coisas que são emocionalmente fortes dizem-se sempre com suavidade. E a viola é um instrumento que pode ser intenso e ao mesmo tempo suave. Por isso, apaixonei-me por ela, porque tem um repertório maravilhoso. Quando eu a descobri, praticamente ninguém tocava. Como é que Montserrat Figueras construiu a voz? Que técnicas foram utilizadas, era mais do que técnica abdominal?Montserrat estudou com bons professores e teve muito bons mestres, mas o que fazia dela especial não era a técnica, era o facto de colocar a alma na voz quando cantava. E isso sempre foi o que a caracterizou. E quando se escuta hoje as suas gravações vê-se que, quando canta, coloca lá todas as suas emoções. .Rui Vieira Nery: “A identidade portuguesa é um mosaico. É feita de diferenças”.Ana Bacalhau: “A voz da mulher é um instrumento poderoso e perigoso, por isso é que ela é proibida em muitos países”