O que a Glória nos exige

Luís Newton

Consultor

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Há momentos em que a política deve saber falar, mas há também momentos em que a política deve saber conter-se. O acidente do Ascensor da Glória é um desses casos.

A tragédia que atingiu Lisboa no dia 3 de setembro de 2025 deixou marcas profundas na cidade, nas famílias das vítimas, nos trabalhadores, nos utilizadores dos transportes públicos e em todos aqueles que reconhecem nos ascensores históricos uma parte da identidade lisboeta.

Perante uma tragédia desta dimensão, a primeira obrigação de qualquer responsável político não é procurar vantagem, nem ocupar espaço mediático, nem transformar a dor num argumento partidário, mas sim respeitar as vítimas, proteger as suas famílias e garantir que a verdade é apurada com rigor.

É por isso que a criação de uma comissão eventual na Assembleia Municipal, nos termos em que tem sido defendida pelo PS, não me parece o caminho certo.

Não porque o tema não mereça escrutínio, merece todo o escrutínio.

O que está em causa não é fiscalizar menos, é fiscalizar melhor.

E, neste momento, há várias frentes em curso. O Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários (GPIAAF) publicou o seu relatório preliminar e indicou que o relatório final deverá ser conhecido em breve.

A Carris tornou público que está a colaborar com o GPIAAF e com o Ministério Público, tendo também desencadeado um inquérito interno e uma auditoria externa independente.

Foi ainda anunciada uma equipa de missão para estudar o futuro sistema tecnológico do Ascensor da Glória, envolvendo entidades técnicas como o LNEC, a Ordem dos Engenheiros e o Instituto Superior Técnico.

Ou seja, o apuramento não está parado. Está a decorrer onde deve decorrer.

E a Assembleia Municipal deve acompanhar esse trabalho, mas não deve substituir-se a ele.

Criar agora uma comissão eventual, com um objeto tão vasto como aquele que foi proposto, arrisca transformar a Assembleia Municipal numa espécie de palco paralelo, onde cada audição se presta mais à manchete do dia seguinte do que ao apuramento sereno da verdade.

E nenhum partido deve correr o risco de transformar a dor das famílias em argumento de combate político.

Por isso, quando o relatório final do GPIAAF for conhecido, quando a auditoria externa independente da Carris estiver concluída, quando tudo for disponibilizado, então a Assembleia Municipal deve analisar com profundidade. Deve ouvir quem tiver de ouvir.

E depois virão as responsabilidades. Que até podem ser do próprio PS, pelas decisões que tomou e que podem também ser parte relevante das razões do acidente. É este o caminho que o PS quer para os próximos meses? O passa a culpa?

Porque há uma diferença essencial entre escrutinar e explorar. Entre fiscalizar e substituir-se às entidades competentes. Entre honrar as vítimas e usar a sua dor como argumento.

E essa diferença, numa cidade ferida, deve ser respeitada.

Lisboa merece melhor do que isso e é isso o que a Glória nos exige.

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