O Japão ainda é um lugar estranho... para as mulheres

Helena Tecedeiro

Editora-executiva do Diário de Notícias

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Com a família real reduzida a 16 membros, o Japão aprovou há dias uma lei para relaxar as leis de sucessão. A medida mais controversa permite que a família imperial adote parentes masculinos distantes com mais de 15 anos, desde que solteiros. Mas a legislação permite também às mulheres manterem o estatuto real se se casarem com um plebeu.

O que a nova lei, pensada para salvar uma monarquia com mais de 2500 anos, continua a não permitir é que uma mulher suba ao trono. Com a popularidade da princesa Aiko, a única filha do imperador Naruhito, a disparar à medida que a jovem de 24 anos vai assumindo mais compromissos oficiais, multiplicaram-se os apelos ao fim da Lei Sálica – que dita que apenas um homem pode ser imperador. Em vão. Sendo assim, Naruhito, de 65 anos, tem apenas três possíveis sucessores: o irmão, o príncipe Fumihito, de 60, o filho deste, o príncipe Hisahito, de 19 anos, e ainda o tio, o príncipe Hitachi, de 90 anos.

Uma das vozes que defendem a Lei Sálica é a da primeira-ministra Sanae Takaichi. A política conservadora que, em outubro de 2025, se tornou a primeira mulher a chefiar um governo no Japão viu-se, entretanto, ela própria envolvida numa polémica sobre os seus hábitos de sono. Ou melhor, a falta dele.

Após um recente fim de semana prolongado, Takaichi escreveu nas redes sociais que conseguiu “cinco horas completas de sono pela primeira vez em muito tempo”, melhor do que as “zero a três horas” habituais. Num país dominado por estruturas patriarcais e onde as mulheres ainda são minoria na política, o desabafo da primeira-ministra gerou debate sobre a dificuldade em equilibrar trabalho e vida pessoa. Afinal, muitos japoneses trabalham bem mais do que as oficiais 40 horas semanais. E no caso das mulheres, por um salário mais baixo, ou não fosse a disparidade salarial de género de 20%, quase o dobro da média da OCDE.

Sinal de que as coisas começam lentamente a mudar, foi a opção de Shoko Kawata, a mayor de Yawata, cidade a sul de Quioto, de tirar licença de maternidade. Aos 35 anos, a autarca comunicou que tenciona ficar em casa dois meses antes do nascimento do bebé e dois meses depois. No Japão, a licença de maternidade é de 14 semanas, com a mãe a receber dois terços do salário (em Portugal é de 120 dias e 100% do salário ou 150 dias a 80% do salário). Mas se Kawata já esperava causar surpresa com a sua decisão, talvez não antecipasse uma chuva de críticas, entre elas: “Se queria engravidar, devia tê-lo feito antes de ser eleita.” Mas também recebeu alguns elogios.

Há muitos anos li O Japão é Um Lugar Estranho, o livro em que Peter Carey relata a viagem que fez com o filho adolescente, fã de manga e anime. Nele o autor australiano confronta-se com os mistérios de uma cultura milenar. Quarta economia mundial, o país que já foi dos samurais e das geishas, mas agora é o da Toyota e da Sony, conquistou o mundo com a sua gastronomia, as suas artes marciais, os livros de Kawabata ou os filmes de Miyazaki. Mas continua a ser um lugar estranho... sobretudo para as mulheres.

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