O Chega e a Bíblia de Tarantino

Nos EUA, um ministro pretende fazer um sermão bíblico recitando, em pose Chuck Norris, a fala furiosa de um gangster num filme; em Portugal, um partido invoca o laicismo do Estado para declarar que o país é católico e, portanto, podem-se ilegalizar outras confissões.
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Já toda a gente, menos o próprio, terá dado umas boas gargalhadas ao ver Pete Hegseth, o burlesco ministro da Guerra de Trump, recitar entusiasticamente, do princípio ao fim, convencido de que está a reproduzir um excerto bíblico, o inesquecível “sermão” de Samuel L Jackson em Pulp Fiction — aquele que a personagem, esbirro de um mafioso, declama sempre antes de despachar mais uma vítima com um tiro entre os olhos.

Engraçado porém que a maioria dos comentários sobre o equívoco do governante se detiveram na sua reveladora ignorância bíblica, sem mencionarem algo bem mais relevante: admitindo que não se tinha enganado, e citara mesmo a Bíblia e não uma criação de Quentin Tarantino, como se admite, num país com alegada separação entre Estado e religião, um ministro “oficiar” numa cerimónia religiosa? Mais, que sentido faz uma cerimónia religiosa num edifício estatal (o Pentágono)?

A razão pela qual — em Portugal, pelo menos — ninguém colocou essas questões é que, apesar de termos desde 1976 uma Constituição que deixa clara a separação entre Estado e igrejas, estamos há estes mesmos 50 anos a assistir a negações práticas dessa separação. Desde logo, através do mais ou menos declarado financiamento, com dinheiros públicos, da confissão dominante — ainda há um quarto de século o então cardeal patriarca de Lisboa, José Policarpo, se queixava de haver pouca verba no Orçamento de Estado para a construção de igrejas, e só a partir de 2005, após a revisão da Concordata, os padres deixaram de beneficiar legalmente de isenção de IRS —, sendo fastidioso enumerar aqui todos os privilégios, económicos e outros, de que a Igreja Católica ainda goza face às outras confissões.

Este é, de resto, um assunto praticamente tabu — de cada vez que alguém se lembra de abordar tais privilégios, é tratado de herege raivoso para baixo. 

Nem que apenas se proteste, por exemplo, contra o facto de a Igreja Católica portuguesa ter levado duas décadas para aceitar examinar com seriedade a horripilante questão dos crimes de abuso sexual de menores no seu seio, sem nunca ter sido a tal forçada pelo Estado. Ou se chame a atenção para o facto de a renitente interdição do sacerdócio às mulheres, mantendo-as num estatuto de menorização na hierarquia, constituir, nas palavras do teólogo suíço Hans Küng, “uma difamação essencial das mulheres” que nega o princípio fundamental da igualdade de género.

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A Igreja Católica portuguesa e os crimes por omissão
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Diário de uma teocracia suave
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Diário de uma teocracia suave, parte 2

Ou ainda, numa nota mais leve, alguém se insurja  por num determinado dia santo para os crentes do catolicismo toda uma zona da cidade ser apetrechada com altifalantes para que o som da música (tocada pela banda da GNR, claro) e cânticos de uma procissão, mais o sermão do padre que lhe preside, possam propagar-se em alto e bom som por vários quarteirões. 

Que faria então se, em vez de questionar apenas a necessidade de altifalantes que obrigam toda a gente nas imediações a escutar a celebração como se tivesse resolvido passar o dia na missa, a proposta fosse de interditar as procissões, alegando que, ao ocupar o espaço público, incomodam quem nelas não participa, podendo de resto defender-se que são contrárias aos valores e gostos da maioria, já que, como resulta evidente, só uma ínfima minoria da população, mesmo quando sucedem em feriados, a elas ocorre? 

Tal proposta — a de interditar as procissões por a maioria nelas não participar nem por elas se interessar — seria decerto e bem classificada como um atentado à liberdade em geral e à liberdade religiosa em particular. Não faltaria quem lembrasse que é assim que agem os estados totalitários e as teocracias, onde, em nome do alegado império de uma maioria e do bem da nação, os que professam religiões minoritárias (ou qualquer religião) são frequentemente invisibilizados, discriminados, obrigados a esconderem-se para as celebrar. E até insultados, perseguidos, escorraçados, brutalizados e mortos.

Haveria inclusive quem recordasse como em Portugal, o Portugal monárquico em que Igreja Católica e Estado não se distinguiam, foram a certa altura discriminados, perseguidos, escorraçados e obrigados a esconder a sua religião, para não serem expulsos ou assassinados, os judeus. 

Tudo impensável hoje, no país democrático e liberal, com separação entre confissões e Estado e garantia constitucional de não discriminação com base na religião, que somos. 

Ou não: num projeto de lei apresentado em março, e que esta quarta-feira vai a discussão em comissão, a dos assuntos constitucionais, da Assembleia da República, o Chega propõe precisamente, em nome de uma “matriz cultural e espiritual da nação”, e da “identidade católica portuguesa”, alterar a Lei da Liberdade Religiosa (de 2001) para combater “a crescente diversidade religiosa”. Passando então os respetivos artigos 4º e 5º a rezar assim (alterações a itálico): “O Estado não adota qualquer religião nem se pronuncia sobre questões religiosas, contanto que as mesmas não contrariam os valores constitucionais ou a ordem pública (…)”; “O Estado cooperará com as igrejas e comunidades religiosas radicadas em Portugal e compatíveis com os valores nacionais (…).”

O objetivo, entre outros, tal como se admite no muito instrutivo preâmbulo do diploma, assinado pelos 60 deputados do partido, é desde logo proibir “celebrações muçulmanas em espaços públicos”, com a justificação de que ser muçulmano é não ser português: “Não pode, nem deve, o Estado, disponibilizar os seus espaços públicos, e até, financiar, celebrações que nada têm que ver com a matriz do ser português.”

Assistimos assim à expulsão simbólica de todo e qualquer muçulmano da identidade nacional, ficando aliás a saber, os que de nós não são católicos, que deixamos muito a desejar como portugueses (como aliás nos lembrou ainda há semanas o ministério da Defesa, ao partilhar nas redes sociais o desejo de “Uma Santa Páscoa”) e podemos, quiçá, ser os próximos.

O mais curioso, porém, é que o Chega apresenta estas propostas em nome do “princípio constitucionalmente protegido da liberdade religiosa”. E como? Alegando que “em algumas comunidades muçulmanas há sistemas normativos, como a Xaria, nos quais a distinção entre o direito religioso e o direito civil não é formalmente estabelecida, prática substancialmente distinta do princípio ocidental da separação entre Estado e religião, consagrado na Constituição da República Portuguesa (…).” Um “princípio ocidental” que, lembre-se, até 1975 não vigorava em Portugal, já que o divórcio civil era interditado a quem tivesse celebrado um casamento católico — mas isso agora não interessa nada, muito menos ao partido “dos três salazares”.

Concluímos assim que para defender a ideia de que uma confissão (reconhecida pelo Estado, como é o caso da islâmica) não pode ser tratada como igual às outras, o que significa, obviamente, que aqueles que a professam não são cidadãos como os outros, se invoca o princípio da liberdade religiosa.  Mais: parte-se “da premissa constitucional de um Estado laico cuja política pública deve preservar a respetiva neutralidade e a igualdade entre cidadãos, sem prejuízo das garantias de liberdade religiosa (…).”

O que este extraordinário diploma nos diz é que é para defender o Estado laico — o Estado que não tem religião — que propõe ilegalizar a manifestação pública de uma determinada confissão, porque essa manifestação pública colide com “o núcleo identitário português”, ou seja, com uma proclamada identidade católica nacional. E isto tudo, imagine-se, “não pretendendo alinhar qualquer juízo de valor discriminatório”. 

Não é preciso ser constitucionalista ou sequer jurista para saber que este projeto de lei não tem ponta por onde se lhe pegue — os próprios autores saberão bem disso. Mas o que pretendem não é aprovar uma lei. É, como Hegseth quis com o seu sermão tarantinesco, fazer um show. Num caso como no outro, de ódio — porque é esse o seu único reino. 

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O século de Samora Correia
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Estado laico, mas pouco
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Falemos então da burqa
Diário de Notícias
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