Marrocos sem ‘fair play’ na coorganização do Mundial 2030?

Isabel Mendes Lopes

Líder parlamentar do Livre

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Como podemos aceitar que Portugal e Espanha continuem a organizar o Mundial de Futebol 2030 com Marrocos depois dos acontecimentos da semana passada em Ceuta?

O problema desta coorganização não é novo. Marrocos tem tido um historial de desrespeito pelos Direitos Humanos, nomeadamente oprimindo o povo do Saara Ocidental e boicotando sistematicamente o seu direito à autodeterminação. Portugal e Espanha terem aceitado coorganizar o Mundial 2030 com Marrocos tem o ónus de estarem a compactuar com este desrespeito.

Mas o que aconteceu em Ceuta no final de julho traz problemas e barreiras adicionais. Milhares de pessoas, instigadas pelas autoridades marroquinas, tentaram atravessar a nado a fronteira entre Marrocos e Ceuta, no que resultou numa tragédia humanitária com pelo menos 71 mortes. A instrumentalização do desespero para a pressão nas fronteiras de outro país é uma estratégia que não é nova e que tem sido usada para pressionar a Europa em vários cantos: desde Kadhafi, na Líbia, a Erdogan, na Turquia, e também Lukashenko, com o apoio de Putin, na Bielorrússia. Como se pode assegurar a coorganização de um evento da dimensão do Mundial de Futebol se não há confiança, nem cooperação leal, para garantir a segurança e a integridade entre os países parceiros? Não pode, e por isso Portugal deve exigir que Marrocos não seja parceiro nesta coorganização e, juntamente com a Espanha, assegurar que o Mundial 2030 se realiza na Península Ibérica.

Mas além da salvaguarda da segurança portuguesa, espanhola e europeia, há outra questão mais de fundo e que é chave neste tempo que vivemos. Neste momento político mundial em que o Direito Internacional e a diplomacia estão sob ataque, importa, mais do que nunca, fazer frente ao crescimento do autoritarismo. Marrocos tem-se aproximado perigosamente de Netanyahu e Trump (até uma autoestrada com o nome do atual presidente norte-americano planeia construir), que só se regem pela lei do mais forte e a quem interessa enfraquecer a União Europeia. Aliás, este episódio de Ceuta foi um ataque claro a Espanha e à União Europeia.

A principal arma contra a lei do mais forte é a confiança das pessoas nas instituições, na democracia e na política. Porque, com confiança, é possível garantir a união que faz a força. Mas a confiança só se consegue quando se mostra coerência nos valores e se aplica as mesmas regras em todas as situações. Para que Portugal - e a União Europeia - esteja do lado certo da História, é preciso que seja muito mais vocal e ativo na defesa dos Direitos Humanos e do Direito Internacional, até para que os seus cidadãos se assegurem da sua própria segurança. E isso não se faz estando de braço dado com quem, pondo em risco o seu próprio povo, ameaça a soberania europeia.

O fair play tem de ser válido e credível tanto no desporto, como na diplomacia, para bem de todos nós.

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