Homenagem ao músico desconhecido

Vítor Moita Cordeiro

Nasceu em Lisboa em 1978. Contador de histórias, apaixonado por música antiga, etnografia e cinema esquecido. É na política prática, aquela que move o mundo, que encontra os desafios que partilha no jornal. Trabalha no Diário de Notícias desde 22 de agosto de 2023.

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No dia 14 de março, há pouco mais de uma semana, os amigos de Dave Shepherd despediram-se com tristeza dele, porque morreu, recordando décadas de composições originais e de revivalismo de danças tradicionais europeias. Dave Shepherd era o violinista da icónica banda inglesa Blowzabella, fundada em 1978, que continuará a tocar sem o substituir até ao seu fim já anunciado, em 2028, quando completar 50 anos de bailes de matriz rural, mas sempre progressistas e inspiradores. Noutro momento, falarei de Blowzabella, mas neste texto quero falar de Dave Shepherd e de todos os músicos que não são recordados, porque não enchem estádios nem são cabeças de cartaz em festivais de verão, apesar de arrastarem multiplicidades de emoções e de públicos que pertencem ao nicho que habitam. Mas Dave Shepherd era virtuoso e criativo e merece que a memória que todos teremos dele reflita isso.

Só toquei com ele, informalmente, uma vez, em Águeda, depois de um concerto de Blowzabella organizado pela D’Orfeu. Era a primeira vez que estava entre estas lendas do folk (eu sei que soa melhor com rock, mas não posso fazer nada quanto a isso) e não podia perder a oportunidade de tocar com eles, naquilo a que habitualmente chamamos uma jam session (que os músicos de jazz me perdoem).

Poucos minutos antes dessa jam, os Blowzabella tinham tocado uma música que eu desconhecia - apesar de ser um fã incondicional e saber de cor grande parte do repertório da banda. Mais tarde, descobri que se chamava The Origin of The World. Era uma mazurca intelectualmente intensa, quase frenética, ainda que contivesse todas as características que tornam esta dança doce e íntimo, mesmo quando é dançada no meio duma multidão (experimentem, desafio-vos). The Origin of The World, descobri mais tarde, era uma composição original de Dave Shepherd, que se juntava a tantas outras que milhares de músicos espalhados pela Europa tocam quando estão a aprender repertório de baile, à semelhança de outras música do violinista inglês, como a Rose of Raby.

Mas The Origin of The World tem um mistério qualquer que ultrapassa o nome enigmático (A Origem do Mundo) e quase iniciático. Está em Sol menor, de acordo com os registos que há dela e sabe bem aos ouvidos, ainda que nos obrigue a pensar, tendo em conta a dimensão invulgarmente longa de cada frase.

Dave Shepherd com o violino.
Dave Shepherd com o violino.Foto: Matthias Weyrich

Mas já voltamos à The Origin of The World.

Descobri que Dave Shepherd tinha morrido porque vi um vídeo no Instagram de Nigel Eaton (um tocador de sanfona que já integrou Blowzabella, outrora) a tocar a Rose of Raby. É também uma mazurca, relativamente simples, também em Sol menor. Havia uma elemento supreendente na interpretação de Nigel Eaton naquele momento: estava a chorar e não conseguia conter um esgar de profunda tristeza. Eram amigos, claro, e não há muitas forma de sentir a ausência, ainda que haja uma pletora de possibilidades de a exteriorizar.

Nigel Eaton parece mais um nome desconhecido de toda a gente, mas, com a sua sanfona, já motivou gritos de abundantes de audiências que encheram estádios em concertos de Robert Plant e Jimmy Page. Para quem não sabe, esta dupla dava corpo e alma aos Led Zeppelin. Nigel Eaton tocou, na juventude, com os Led Zeppelin, sim. Tenho de repetir para eu próprio acreditar. E funcionou.

Em resumo, um músico que já tocou em estádios cheios pelo nome sonante dos Led Zeppelin estava a chorar pela morte do amigo. A homenagem a um músico deve ser feita com música, de preferência a que ele compunha ou interpretava. Por isso, ainda bem que Dave Shepherd era compositor e podemos homenageá-lo, seja a tocar o que ele escreveu, a dançar o que ele tocou ou simplesmente a ouvi-lo.

Motivado pelo Nigel Eaton, apesar de eu não ser de todo próximo de Dave Shepherd - só o admirava profundamente - passei dois dias inteiros a aprender a tocar a mazurca The Origin of The World. Não sou violinista, o que significa que esta música apresenta alguns desafios para a tessitura da flauta de bisel contralto. Mas aprendi cada ornamento, cada ligeira variação que Dave Shepherd impunha quando tocava The Origin of The World.

Em determinada altura, depois de horas a tocar a música, a impregná-la daquilo que eu achava que saía do violino de Dave Shepherd, mas traduzido para a minha flauta, senti que não era uma homenagem, mas um ritual, uma espécie de morte e ressurreição que os alquimistas apregoavam. É a imortalidade dos músicos.

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