A única vez que me cruzei pessoalmente com o recém-empossado Presidente da República foi há muitos anos, mais de 15, quando ele presidia à Comissão de Educação do Parlamento. Eram os anos de chumbo na área da Educação, devido às políticas da dupla José Sócrates/Maria de Lurdes Rodrigues, e o ambiente estava longe de ser pacífico.A hostilidade, em especial de certas parlamentares do Partido Socialista, para com as delegações de professores que iam apresentar as suas posições à Comissão, roçava a agressividade e, em diversas atitudes, transbordava para a descortesia, para não dizer pior. Constava entre os grupos de professores, que então se formavam e procuravam interlocutores na classe política, que António José Seguro era alguém que sabia ouvir. E eu confirmei que ouvia. Falar é que nem tanto, mas isso não é o que interessa agora.O que interessa, pelo menos a mim, é saber qual é a atitude do novo Presidente em relação à Educação, atendendo a essa sua experiência e aparente interesse por esta área de governação. Por isso, li com atenção (estava em aulas, não pude ouvir) o seu discurso de posse, mais de 2800 palavras e de 18.000 caracteres, quando tudo transcrito para papel e incluindo as alongadas cortesias protocolares. E fui em busca de referências à Educação e à Escola Pública (ou privada).Busquei e não encontrei. Contabilizei um punhado de referências à Saúde, o que se compreende. Gostei da evocação da Liberdade numas quantas passagens. Deparei com algumas menções à Justiça, algo que parece recorrente nestas alturas, mesmo que dê em nada ou ainda pior. Um par de referências à Habitação, assim como à Defesa e à Segurança. Falou no contexto internacional. Falou da “ciência, da inovação e da cultura, como motores da transformação social e da emancipação do ser humano”, e que “precisamos de mobilizar o talento das nossas universidades, dos cientistas, dos criadores culturais, dos empresários, dos trabalhadores, das instituições públicas”.Achei que devia voltar a pesquisar, não me tivesse escapado alguma referência à Educação, ao Ensino, até de forma egoísta aos professores. Nada. Zero. Ao que parece, tudo deve estar bem no sector e o ministro da pasta é que tem razão em nem falar em números, porque, não se sabendo de nada ao certo, não se pode demonstrar que algo está mal. Estando em implementação diversas medidas alegadamente reformistas e em preparação ou negociação muitas outras, do currículo à carreira docente, não era de esperar tamanho apagão.Enganados andam aqueles que pensam que a Educação deve ser a base da formação dos futuros cidadãos, a barreira para a proliferação dos discursos demagógicos ou a melhor maneira de, desde cedo, promover uma atitude de tolerância no debate sobre o que nos diferencia, mas não nos deve tornar necessariamente inimigos sem dó. Aliás, uma atitude que o novo Presidente da República sempre pareceu apoiar.Mas as coisas são o que são. Há prioridades e há o resto. A Educação, em particular a não-superior, nem ficou para os restos do discurso. Não apareceu. Não teve direito a uma palavra. Zero. Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico