Dar vida à vida de quem nos procura

Manuel José Guerreiro

Presidente da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo de Torres Vedras

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A passagem pelo Parlamento Europeu foi um pretexto para regressar ao pensamento que levou à construção da Europa, tal como a conhecemos. Voltar a pisar o chão comum e a ler os fundamentos é decisivo para entender o presente e a ausência de futuro.

Poucas pessoas se lembrarão de Robert Schuman: ministro e diplomata francês, preso pela Gestapo, e que se entregou depois a uma vida monástica e espiritual, fez em 1950 a declaração constitutiva de uma Comunidade no belo Salão do Relógio na Quai d’Orsay, em Paris, que tornaria possível o mais longo período de paz na História do continente. Foi um apelo à solidariedade entre países onde anunciou a boa nova: nunca mais o continente seria dilacerado por uma destruição como a da 2.ª Guerra.

Ora, o princípio da solidariedade é o primado do cooperativismo. Cerca de cem anos antes de Schuman, um alemão, Friedrich Raiffeisen, foi o percursor do cooperativismo enquanto modelo de crescimento inclusivo. Associou a pobreza à dependência, o que o levou à constatação de que esta só se resolvia combatendo a dependência com autoajuda, autogoverno e autorresponsabilidade.

Os titulados com o Nobel de 2024 reafirmaram-no com novas bases científicas. Em 1872 e com estas premissas criou um banco rural, o primeiro com estes princípios. Centenas de empreendedores sem dinheiro juntaram-se para ser mais fortes e resolver a sua dependência de financiamento. Meio século depois, em 1915, 11 cidadãos replicaram o exemplo fundando a Caixa Agrícola de Torres Vedras.

O Estado Novo reprimiu o modelo de banca cooperativa e/ou mútua, privilegiando o banco de poupança de capitais públicos, a Caixa Geral de Depósitos.

Após o 25 de Abril, no Verão Quente de 75, a banca de teor acionista de capital português foi nacionalizada, oferecendo aos pequenos bancos de teor cooperativo um palco para o qual não estavam vocacionados, tão pouco preparados e monitorizados. Multiplicaram-se e souberam criar instituições deliberativas para coordenar a atividade.

Como resposta foi criada, a Fenacam (1976), a Caixa Central (1984) e o Sicam (1991), mas no virar do século tornou-se visível a verticalização do poder na gestão, contrariando o cooperativismo de Raiffesein e o espírito de Schuman. Como resposta à perversão identitária, cinco caixas assumiram a sua autonomia local e criaram um movimento alternativo materializado com a criação da Agrimútuo, em 2008.

Chego ao ponto: a banca é o instrumento que alavanca o investimento. O moderno crescimento económico, suportado no capitalismo induzido pela criação e difusão da inovação, implica a existência de uma instituição financeira capaz de interagir com a base da pirâmide social. E ao fazê-lo com seriedade, promove a competitividade. Essa mais-valia não pode ser posta em causa, seria um colossal erro.

O banco a que presido tem agências em todas as freguesias do concelho e continua a contratar colaboradores. De 2010 a 2024 duplicámos os ativos de 356 para 697 milhões. E no final do ano passado exibimos rácios de solvabilidade Core Tier 1 de 55%, de NPL de 3,8% e uma taxa de transformação de 26%. Estamos capitalizados e preparados para alavancar projetos de quem empreende, tem ideias e cria riqueza.

Na era da IA, o desafio é o dar vida à vida de quem nos procura.

Há dois verbos que vos quero recordar: entrar e viver.

Nas nossas agências vemos e conversamos, todos os dias, com pessoas da nossa comunidade, sejam proprietários ou clientes. E assim criamos competências, capacidades, valor. E sabemos como fazê-lo. Celebrar é honrar a parte boa da caminhada. A palavra de cada um deve ser um motivo de esperança. Esta é, para nós, uma razão.

O convite para discursar no Parlamento Europeu foi uma honra. E como afirmei, foi uma enorme oportunidade de apelar à autoridade comunitária para, com responsabilidade, fazer valer a democracia. E defender o cooperativismo que pode ter um papel decisivo e funcionar como plano B ou C, um plano complementar a uma realidade cada vez mais a preto e branco.

Um modelo que persegue a ideia de liberdade das pessoas que, unindo-se em cooperativas, perseguem a felicidade e o futuro dos povos diante da riqueza de poucos tem hoje um futuro imenso.

Haja lideranças esclarecidas.

manuel.guerreiro@ccamtv.pt

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