Ciência e educação: o que diz a ciência sobre as crianças e as touradas

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"Para educar uma criança, é preciso uma aldeia inteira.” O antigo ditado africano resume bem o que se passa em localidades portuguesas em que a Festa de Toiros é património cultural imaterial que marca a identidade, as ruas, os monumentos, as maneiras de sentir, de pensar, de agir, as emoções e o modo como as pessoas convivem. Foi neste ambiente que as pessoas dessas localidades cresceram e aí escolheram educar os seus filhos.

No entanto, uma pequena minoria – coincidente, por vezes, com um grupo de docentes que milita contra a Tauromaquia – tem tentado impor, sem base científica, a ideia de que o contacto das crianças com a festa é psicologicamente nocivo. Defendem, inclusivamente, que o Estado impeça os mais novos de assistir ou participar em actividades taurinas. O objetivo declarado é, nas entrelinhas, operar um corte geracional na transmissão de uma cultura que nos define.

Antes de prosseguirmos, importa clarificar que o que aqui se discute é uma questão de facto, não de valor: a evidência científica disponível sobre o bem-estar psicológico das crianças expostas à Tauromaquia em contexto familiar e festivo. Também não defendemos que todos devam gostar de touradas. Defendemos apenas que as famílias possam decidir livremente, sem serem intimidadas por alegações de dano psicológico que a ciência e a experiência das comunidades desmentem. Porque, afinal, o que nos diz a ciência sobre esta matéria? Haverá evidências de que crescer em contacto com a Tauromaquia e as touradas em particular prejudica o equilíbrio psicológico das crianças? Ou estaremos perante um preconceito sem fundamento?

Comecemos por um trabalho publicado na revista Sociologia, Problemas e Práticas (n.º 92, 2020), da autoria de Luís Capucha, Luís Pereira e Tiago Tavares. Os investigadores criaram um índice de densidade Tauromáquica para todos os concelhos portugueses e cruzaram-no com dados oficiais de desenvolvimento e criminalidade. A conclusão é inequívoca: os concelhos onde a Tauromaquia está mais presente não são menos desenvolvidos nem mais violentos. Em casos como Vila Franca de Xira, onde a festa é um “fenómeno social total”, apresenta até indicadores superiores à média nacional.

Se olharmos para Espanha, encontramos a tese de doutoramento de David Guillén, psicólogo da Universidade Aberta de Madrid. O investigador comparou jovens de escolas de toureio com outros adolescentes e verificou que os primeiros pontuavam significativamente mais em traços como a tenacidade, a abertura, a autoeficácia e a capacidade de resolver problemas. Longe de os tornar mais violentos, a formação taurina revelou-se um factor de desenvolvimento de recursos psicológicos adaptativos.

Mais recentemente, Guillén publicou um estudo na revista científica Acta Psychologica (2024) alargado a crianças portuguesas e espanholas. Os resultados são claros: as crianças que assistem a touradas, acompanhadas por adultos e num contexto festivo, apresentam níveis mais elevados de afeto positivo e de estratégias de coping focadas na resolução de problemas. O comportamento agressivo não é afetado pela visualização do espetáculo.

A chave para entender estes dados está na mediação dos adultos. Como acontece com outras imagens que podem ser chocantes – pense-se, por exemplo, num crucifixo ou numa representação de martírio –, o enquadramento dado pela família transforma a mensagem. A presença dos pais, o ambiente de festa, a música, a alegria coletiva e o significado ritual da lide permitem que se enfatizem valores como a coragem, a superação do medo, a inteligência e a solidariedade. Sem essa mediação qualquer exposição a conteúdos violentos é desaconselhável; com ela, revela-se um poderoso instrumento educativo.

Antes de 2017, o mais robusto contributo científico sobre a questão chegou-nos do Defensor del Menor de Madrid, que encomendou a quatro universidades um estudo sobre as possíveis repercussões psicológicas das touradas em crianças. A conclusão, sumariada pelo catedrático Enrique Echeburúa, foi a mesma: não há qualquer evidência empírica de que um espetáculo lúdico, ritualizado, enraizado na cultura e vivido num ambiente festivo gere interferência emocional negativa na criança.

É importante salientar que todos estes estudos obedecem a métodos rigorosos consagrados pela ciência e foram publicados em revistas científicas de conhecido mérito. Nesse sentido, distinguem-se radicalmente das opiniões que alguns supostos peritos emitem sem nunca terem verdadeira e objetivamente estudado o assunto.

Dado o seu carácter fortemente inclusivo, gerando um forte envolvimento pessoal das crianças que participam em escolas de toureio, grupos de forcados e até Tauromaquias de rua, a Festa desempenha ainda um papel social de grande relevo junto de jovens com potencial de envolvimento em atividades problemáticas, oferecendo-lhes uma âncora e um amparo que os ajuda a escolher um rumo positivo para as suas vidas. Acresce que a Tauromaquia, pela sua riqueza cultural e simbólica e pelo seu papel ecológico e de defesa do ambiente, oferece um campo apto a ser explorado como recurso pedagógico muito atrativo e motivador, que os educadores profissionais podem usar no seu trabalho.

Face ao que a ciência nos permite concluir, rejeitamos qualquer tentativa de distorcer a realidade dos factos e cancelar o contacto das crianças com a Tauromaquia, impedindo a reprodução geracional desta cultura. Brincar aos toiros faz bem às nossas crianças e ver espetáculos de toiros, acompanhadas pelos pais, não prejudica em nada o seu bem-estar psicológico e o seu crescimento, enquanto as liga às suas raízes e à sua comunidade.

Não é preciso que nas escolas se eduquem as crianças para a festa de toiros. As famílias e a comunidade educarão, naturalmente, as gerações do futuro dentro daquilo que consideram melhor para elas. Mas é preciso aproveitar a Tauromaquia como recurso a utilizar na comunidade, incluindo as escolas, para educar as nossas crianças. Em nome do seu futuro como cidadãos adultos e seres humanos solidários, tolerantes e felizes.

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