O cancro continua a ser um dos maiores desafios de saúde pública na Europa, onde é uma das principais causas de morte. Entre os europeus com menos de 65 anos, é já a principal. Portugal acompanha esta realidade: o cancro é a segunda causa de morte no país, e a incidência estimada, próxima da média da União Europeia (UE), deverá aumentar nas próximas décadas. Por isso, e porque decorre entre 25 e 31 de maio a Semana Europeia Contra o Cancro, este é um momento oportuno para refletir sobre os desafios que continuam por ultrapassar.Na União Europeia, a carga do cancro permanece muito elevada. As estimativas mais recentes do European Cancer Information System, publicadas pelo Joint Research Centre da Comissão Europeia, apontam para cerca de 2,7 milhões de novos casos de cancro em 2024 e cerca de 1,3 milhões de mortes.Quanto aos tipos de cancro mais diagnosticados, muitos conhecem-nos pela dor infligida a familiares, amigos ou colegas. Em 2024, os cancros da mama e colorretal foram os mais diagnosticados na União Europeia, representando cada um deles 13% dos novos casos, seguidos do cancro da próstata e do cancro do pulmão, representando cada um deles 12%. Nas estimativas mais recentes, também relativas a 2024, o cancro do pulmão mantém-se como a principal causa de morte por cancro na UE, representando 20% das mortes, seguido do cancro colorretal (12%), do cancro do pâncreas (8%) e do cancro da mama (7%).Estes números mostram uma realidade exigente: a Europa tem conhecimento, capacidade clínica e científica, mas enfrenta desigualdades profundas. Morar num determinado país ou região pode influenciar a probabilidade de diagnóstico precoce, o tempo até ao início do tratamento e os resultados em saúde.Nos sistemas de saúde, um dos maiores desafios continua a ser a dificuldade de organizar os cuidados oncológicos de forma verdadeiramente integrada e em rede. Rastreio, diagnóstico, tratamento, reabilitação, apoio psicológico, seguimento e investigação nem sempre comunicam entre si com a agilidade necessária. É precisamente esta fragmentação que a EUnetCCC procura ajudar a ultrapassar: promover modelos de cooperação entre centros, profissionais e países, para que mais pessoas possam beneficiar de percursos assistenciais coordenados, atempados e de qualidade, com melhores resultados em saúde e maior qualidade de vida.Depois, temos as desigualdades na qualidade dos percursos assistenciais. Não basta existir acesso formal. O percurso tem de ser atempado, coordenado e baseado em padrões de qualidade. A resposta ao cancro não pode depender da porta de entrada no sistema, da iniciativa do doente ou do nível de articulação entre instituições.Finalmente, a medição dos resultados constitui ainda um desafio. Sem indicadores robustos, transparentes e partilhados, é difícil perceber onde estão as falhas e corrigi-las de forma sustentada. Melhorar exige medir, comparar, aprender e agir.A Europa está desperta para esta realidade. A European Network of Comprehensive Cancer Centres (EUnetCCC), é uma resposta importante aos desafios que enumerámos. Integrada no Plano Europeu de Luta Contra o Cancro, que mobiliza um orçamento global de 4 mil milhões de euros para ações na área do cancro, a EUnetCCC é uma iniciativa estruturante para reforçar a qualidade, a integração e a equidade dos cuidados oncológicos na Europa.A sua razão de ser é clara: construir uma rede europeia de Comprehensive Cancer Centres, os CCC, que engloba organismos já existentes, capaz de traduzir a excelência clínica e científica em benefícios concretos para doentes e populações, ancorada nos Sistemas Nacionais de Saúde e reforçada pela cooperação europeia. Nos sistemas nacionais de controlo do cancro, estes centros contribuirão para a integração sistemática da inovação nos cuidados e para o acesso das populações a serviços oncológicos de elevada qualidade.Cada CCC integra, num âmbito territorial definido, a prevenção e a deteção precoce, o diagnóstico e o tratamento, a investigação clínica e translacional, a educação, a formação, a inovação e abordagens baseadas em análise de dados. A ambição não é apenas ligar instituições. É criar referenciais comuns de qualidade, promover modelos organizativos integrados e facilitar a aprendizagem entre centros e países europeus.O impacto desta rede pode ser decisivo. Ao transferir conhecimento, boas práticas e metodologias, a EUnetCCC pode ajudar a reduzir desigualdades, melhorar percursos, acelerar a incorporação da inovação e preparar melhor os sistemas para responder à carga crescente do cancro.O desafio é europeu, e a consequência é profundamente humana. Atrás de cada número há uma pessoa, uma família, uma história interrompida ou transformada. Mais integrados, mais exigentes e mais cooperantes, os europeus serão capazes de vencer muitos dos desafios que permanecem na luta contra o cancro. Afinal, as nossas vidas dependem disso.