Na gala anual do Festival da Primavera, as estrelas este ano foram os robôs humanoides que deliciaram os espectadores do programa mais visto da televisão estatal com um espetáculo de kung-fu. Ao lado de praticantes humanos que deram as boas vindas ao Ano do Cavalo de Fogo, os robôs fizeram mortais, “andaram” numa parede e desferiram golpes daquela arte marcial. Para quem não se tenham deixado impressionar pelas imagens, basta comparar com as do ano anterior, quando os robôs também se juntaram às festividades, mas os espectadores tiveram de se contentar com movimentos limitados, incluindo caminhar e pontapear, mas sem a destreza deste ano..Estes robôs são apenas a face mais visível de uma estratégia eminentemente política. Há dias, o presidente chinês pediu mais investigação e mais apoio para cientistas que estejam a trabalhar em novas formas de inovação. Xi Jinping está determinado a bater o Ocidente nas novas tecnologias. E a verdade é que as empresas chinesas já dominam áreas que incluem veículos elétricos e baterias de lítio, e estão rapidamente a assumir a liderança em campos emergentes, como este dos robôs humanoides. Esta liderança está sustentada, como explicava a revista The Economist, na “correia transportadora de inovação do Partido Comunista, que pega em ideias desenvolvidas em laboratórios e universidades estatais e transforma-as em produtos comerciais”. Só para termos uma ideia, em 2025 a China exportou 14.500 robôs humanoides, um número pequeno, mas significativo se comparado com os 3000 do ano anterior. Ou se pensarmos que a Tesla, de Elon Musk, que produz o bot Optimus, vendeu apenas 150.Mas não é só com robôs humanoides que os chineses encantaram (e assustaram?) o mundo. Na passagem do ano foi o espetáculos de drones que substituiu o tradicional fogo de artifício na cidade de Chongqing que foi notícia. Afinal a China provava nos céus noturnos a sua capacidade de controlar milhares de drones simultaneamente usando um único sistema automatizado.Em entrevista ao DN, há uns dias, o jornalista e analista alemão Georg Diez lembrava que “é preciso olhar para a China e para a tecnologia”, mas também que “há um debate placebo sobre o medo da China que nos desvia do que realmente importa”. Será? É que mesmo para quem não percebe muito de tecnologia, não é muito difícil imaginar aqueles drones festivos ou os robôs de exibição transformados em algo muito mais perigoso. Seja pela tecnologia chinesa ou pela de outra potência mundial. E aí, sim, talvez seja caso para ter medo.