Churchill disse: “A democracia é a pior forma de governo, exceto todas as outras.” Mas o último relatório do Instituto V-Dem mostra que, em 2025, as autocracias superaram as democracias pela primeira vez em 20 anos. Por que é que a democracia está a falhar?Uma das explicações mais tentadoras hoje em dia é que a democracia está a falhar porque tem muitos inimigos externos e enfrenta muitas ameaças autocráticas. E é verdade, mas não é a história toda. Não creio que se possa lutar pela democracia lutando contra o autoritarismo. É necessário analisar a crise democrática a partir de dentro. E esta crise manifesta-se a vários níveis. Um dos problemas está na implementação. Acredito que a democracia não está a dar às pessoas o que elas esperam em termos de justiça, habitação ou responsabilidade em relação às alterações climáticas. Portanto, estruturalmente, não funciona para eles. Penso que as eleições não são a melhor forma de estruturar momentos tão complexos. Precisamos de mecanismos diferentes para o planeamento a longo prazo ou para a ação a curto prazo. Creio que as eleições são formas antigas de criar legitimidade democrática, mas talvez não sejam adequadas aos tempos atuais.Qual é então a alternativa às eleições?Penso que é necessário ter uma visão mais ampla da situação da Europa e da democracia. É preciso olhar para a China e para a tecnologia. A questão com a China é que se percebe a necessidade de planeamento a longo prazo nas democracias. E as eleições não foram feitas para isso. As eleições são ciclos de quatro anos, e depois um novo governo assume o controlo. Isso não funciona para a transição climática ou para a transição tecnológica. Portanto, há uma questão prática, de funcionamento. E o outro problema é que as eleições não estão em sintonia com as tecnologias que temos e com a experiência do mundo que temos. Hoje temos este dispositivo [pega no telemóvel] que nos liga ao mundo a todo o momento. Com o telemóvel, podemos expressar opiniões, comprar coisas, interagir com toda a gente. Depois, é preciso responder à pergunta de como poderia ser diferente. Mas não faz sentido que uma parte muito importante do nosso dever ou do nosso privilégio enquanto cidadãos, seja algo que só acontece de quatro em quatro anos. Porque temos aqui [no telemóvel] um milhão de opções. E numa eleição, temos entre sete ou dez pessoas para escolher. Portanto, não se trata de poder de decisão. Eu acho que as eleições são rituais, e são antigas na sua lógica. A democracia nem sempre é governada por eleições. Existem exemplos de democracias antigas governadas por autocracia ou através de escolhas aleatórias. A conclusão é que há uma razão para os partidos de direita subirem cada vez mais. Uma das verdades incómodas para o centro liberal ou para o centro democrático é que a extrema-direita faz as perguntas certas sobre os problemas do nosso sistema. É importante perceber que quando a democracia está sob pressão a solução não passa por pequenas mudanças incrementais nas políticas públicas, pelo aumento do salário mínimo ou pela solução do problema das reformas que as nossas sociedades enfrentam. É preciso uma solução sistémica. E temos de começar a trabalhar juntos. Então como podemos salvar a democracia?Temos de abandonar a ilusão de que vivemos no melhor dos sistemas. Concordo com Churchill: é preciso reinventar a democracia para a salvar. Isto significa que precisamos de repensar onde ficámos estagnados e para onde devemos ir. A Europa está presa nos anos 90 quando havia a possibilidade de criar um verdadeiro Estado-nação europeu. Mas tal não existe. Não existe um parlamento europeu com poder real. Não temos uma política de defesa europeia, nem um governo comunitário eleito, nem uma união social. Fingimos que a UE está a funcionar como uma democracia, mas não está. Porque é que a Europa está tão atrasada em termos tecnológicos em relação aos EUA e à China? É preciso reinventar e democratizar a Europa. Como vai funcionar? Não faço ideia. O que funciona é que as cidades são, de facto, um motor para a governação europeia. Paris, Milão, Munique, Lisboa podem ter mais em comum entre si do que os países. Podem ter problemas semelhantes, soluções semelhantes. Porque é que isto não é mais do que simbólico? Quais seriam as formas de elas governarem? Aumentar os impostos, coordenar as despesas ou influenciar as políticas tecnológicas e industriais. Porque é que Lisboa não se associa a Valência, por exemplo? Talvez na energia solar. Basta ser criativo e procurar novas formas de pensar para além do Estado-nação. Porque vemos na Europa situações como a guerra na Ucrânia, as ameaças à Gronelândia e tudo o mais. Cada nação está a pensar apenas em si mesma novamente. A Dinamarca está a comprar mísseis de médio e longo alcance para combater a Rússia. Temos de começar por ser honestos e aceitar que precisamos desaprender muita coisa que consideramos óbvia.De onde vem a maior resistência a essa mudança? Os líderes nacionais resistem?O maior problema são as elites. Desde 2008 que é evidente que o mercado não está a funcionar para as pessoas. As instituições não funcionam para o povo. A crise do euro foi resolvida enriquecendo algumas poucas pessoas. Transferindo capital do sul para o norte. A Alemanha foi uma grande beneficiária disso. Penso que existe um enorme desequilíbrio na Europa, dentro dos países, que é alimentado pelas elites. Aqui está novamente a palavra problemática. Temos de falar sobre as pessoas que estão no comando. Estas têm uma mentalidade que vem dos anos 90. Foi aí que se percebeu que os mercados são poderosos. Os partidos, os políticos e a política em si não são poderosos. Basicamente, temos uma geração que se está a transformar em tecnocratas. Que não têm a coragem, a ambição ou a sensibilidade para governar verdadeiramente. Os governos desistiram de governar..Temos de esperar pelas novas gerações?É preciso haver um golpe dos jovens. É preciso que as pessoas que são o nosso futuro tenham a ambição de ter o poder. As pessoas com menos de 40 anos cresceram com essa mentalidade. Têm uma perspetiva diferente sobre a riqueza e o crescimento, sobre o que merecem. Vão suportar o fardo das nossas reformas, portanto, estão tramados. Mas eles são muito inteligentes, estão muito mais bem informados do que eu alguma vez estive na idade deles. Têm mais contactos. Sabem que a hierarquia é horizontal, que não são as pessoas com grandes cargos que realmente importam, mas sim as pessoas com ethos. Estou a idealizar isto, claro. Mas essa é a minha esperança. Fiquei a pensar no que disse há pouco sobre a Europa. Podemos sequer falar da Europa como uma unidade?Acho que todos falam da Europa como se fosse a UE. E a Europa não é a UE. E mesmo a UE, é uma fantasia pensar que ainda existe como entidade funcional. É evidente que a situação está a desmoronar-se em termos de quem está a organizar a defesa contra a Rússia. É também estranho que cada país introduza o seu próprio serviço militar. Porque é que não existe serviço militar obrigatório na Europa? Não existe Europa. Mas as pessoas fingem que existe, como agora quando agimos de forma unida na Gronelândia. E em relação à tecnologia… É possível ter soberania tecnológica na Europa? É um ponto extremamente importante. Mas é claro que nenhuma estrutura está a trabalhar para isso. Nenhuma entidade está a definir políticas industriais para a IA ou para a computação quântica. Portanto, não, a Europa não existe. A única Europa que vejo é a Europa das cidades. A Europa das pessoas. De algumas pessoas. Acho que seria necessário recomeçar de onde os anos 90 pararam. Na altura, havia esta ideia de zonas que atravessavam fronteiras - entre a França e a Alemanha, ou entre o norte de Itália e a Áustria. Regiões e cidades. Essa seria a Europa que poderia existir.Os EUA celebram este ano os 250 anos da sua independência. Habituámo-nos a associar América e democracia. Como vê as críticas de que a democracia norte-americana está hoje ameaçada?Os EUA são liderados por um governo fascista. Há uma longa discussão sobre se é fascismo ou não. Eu acho que o primeiro governo Trump foi muito diferente. Foi uma grande experiência e uma surpresa por estar no poder. Mas depois prepararam a sua visão, que é formulada de forma bastante clara por Stephen Miller [o Conselheiro de Segurança Interna dos EUA], que diz ser o governo dos fortes. E não há como o governo dos fortes ser democrático. É fascista? Não necessariamente. É protofascista? Sim. Mas o que é o fascismo? É fascismo se houver exércitos a vaguear pelas ruas e a matar pessoas? Sim. É o reinado do medo. Há como voltar atrás? Não sei. A China é sempre o maior inimigo dos EUA? Não sei. Acho que não é assim tão claro. Esta é uma das questões que me interessam. Podemos criar este inimigo externo, a China, para dizer que somos melhores, que defendemos mais a liberdade, mas certamente não somos mais modernos, não somos mais inovadores, não somos mais poderosos. O que fará então a Europa? Será que nos sentimos confortáveis em sermos de segunda, terceira ou quarta categoria, ou em sermos extremamente lentos? Não creio que seja saudável para as sociedades. Então, como podemos aprender com a China? Como podemos trabalhar com os EUA? É melhor ter tecnologia dos EUA? Durante muito tempo dissemos que sim, porque essa vigilância é melhor, é vigilância de mercado. E a outra é vigilância comunista maléfica. Mas não sei. Dependência é dependência. E se os EUA já não forem um estado democrático, qual a diferença? E não estou a dizer que não acredito que ainda haverá resistência nos EUA. É a democracia mais antiga. E a democracia americana foi criada com todo o sistema de freios e contrapesos…Mas será que podem realmente ser recriados? Vivemos tempos de muita incerteza. Essa confiança, essa promessa, foram quebradas. É necessário que as pessoas acreditem realmente no Estado de Direito. Não podemos impô-lo. Eu ainda acredito que os EUA voltarão atrás. Mas também acredito que estamos a viver numa nova ordem. O historiador norte-americano Gary Gerstle usa este termo: “ordem” e defende que a era do neoliberalismo foi de 1970 a 2016, quando então, vivemos numa nova ordem a que Gramsci chamava a era dos monstros. A velha ordem está a morrer e a nova ordem ainda não existe de facto. A nova ordem é diferente. É menos individualista. Mas será fascista? Coletivista? Pós-individualista? Anti-egoísta? É nisso que precisamos de trabalhar. Porque não podemos voltar atrás. Dado o sucesso do modelo chinês - uma autocracia com um enorme sucesso económico - corremos o risco de ver cada vez mais países seguirem o seu exemplo para tentar alcançar os mesmos objetivos?Não creio que precisem da China para seguir o caminho da autocracia. É mais interessante analisar a China como um exemplo do que um Estado pode alcançar se tiver vontade. A China está na vanguarda da revolução verde, produzindo muito mais energia solar e muito mais energia eólica, de uma forma impressionante. A China é capaz de construir caminhos-de-ferro, comboios, cidades. Como Ezra Klein, entre outros, deixou claro no seu livro sobre a abundância e sobre os problemas das democracias liberais ocidentais, nós não construímos. Os chineses constroem. Podemos ter um argumento ideológico e dizer: “Isso só acontece porque são uma autocracia”. Mas não se trata apenas de autocracia, liberdade e democracia. A liberdade não está maioritariamente ameaçada pela China, nem mesmo pela Rússia. A liberdade está ameaçada pelas sociedades retrógradas que não evoluem, que não crescem, nem intelectualmente, nem fisicamente. Portanto, penso que é um debate placebo sobre o medo da China, que nos desvia do que realmente importa. Enquanto isso, a extrema-direita está a crescer. Na Alemanha, em Portugal, em toda a Europa. É a falta de resposta dos líderes e partidos tradicionais, que alimenta essa extrema-direita?Sim. Acho que a extrema-direita está a fazer, muitas vezes de forma desconfortável, as perguntas certas dando as respostas erradas. Mas há um sentimento generalizado de que as coisas não estão a correr bem, que os ricos são demasiado ricos, os poderosos demasiado poderosos, de que os apartamentos são demasiado caros, de que o ambiente está a ser destruído, que a pandemia foi mal gerida. No fundo, que o sistema não funciona para mim, não me sinto visto, não me sinto ouvido. Depois, a direita tem estas respostas que culpam sempre os imigrantes,, sem serem construtivas. Mas a forma como as nossas elites ou dirigentes insistem em fingir que é apenas uma questão de ajustamentos políticos é desanimadora. A forma como fingem que a Europa tem alguma capacidade de agir é desanimadora. O facto de proporem o Mercosul, um acordo de comércio livre, como resposta à falta de poder global da Europa é desanimador e confuso. Temos um problema real. Existe uma falta fundamental de consciência sobre onde estamos e de onde vimos. E é por isso que não sabemos para onde devemos ir.."Hoje o primeiro valor é o eu. Isso fragiliza as democracias, mas também as reforça"