Se a música é um conjunto de sons organizados e se os animais organizam sons, de acordo com objetivos (biológicos) concretos, então a música é uma coisa partilhada entre alguns animais (incluindo humanos)? Os etólogos dividem-se quanto a esta ideia, porque a música sob o ponto de vista humano obedece a preceitos culturais , mas assume uma complexidade mais vasta, levando a que por vezes nem sejam sons organizados. Podemos sempre argumentar que a música com sons desorganizados revela uma intenção e um critério, o que a tornaria, novamente, um conjunto de sons organizados. No entanto, vamos deixar isto para outra conversa e vamos focar-nos em aspetos culturais da música (e mesmo aqui haveria pano para mangas, porque alguns cetáceos assumem diversas formas de cultura, dependendo dos grupos e da espécie a que pertencem, e são muito complexos na produção de sons organizados). Admito que não sei por que motivo as pessoas fazem música, mas é uma pulsão. Para os animais também deve ser. Parece uma vontade de criar que se acumula e tem de sair, como um espirro que estávamos para dar há mais de três meses, ali concentrado. Nas três últimas semanas aprendi algo sobre esta pulsão. O primeiro momento de revelação aconteceu num concerto intitulado Sobre a beleza: da música renascentista à música dos nossos dias, do Huelgas Ensemble, no Centro Cultural de Belém (CCB). O segundo aconteceu durante uma conversa com o vocalista de Moonspell, Fernando Ribeiro. Aprendi que os humanos fazem música pelos mesmos motivos que os levam a bombardear o Irão ou a querer fazer reformas à lei laboral.No dia 22 de maio, no Pequeno Auditório do CCB, fiquei sentado no lugar J10, muito central, a ansiar pela prestação do Huelgas Ensemble, dedicado à polifonia vocal medieval e renascentista, dirigido pelo maestro belga Paul Van Nevel.Começaram por interpretar uma composição anónima com data de1563 intitulada Alma, che scarca dal corporeo velo. Quatro dos músicos (cantores) estavam numa zona mais elevada, fora do palco, à esquerda, sob o ponto de vista do público. Os restantes estavam no palco, em frente a Paul Van Nevel. Depois da interpretação daquela primeira música com quase 500 anos, os músicos deixaram os seus lugares, numa tentativa de se organizarem no palco. Isto levou a que, de forma inocente e reativa, o público começasse a aplaudir. Com um gesto muito exato e rápido, Paul Van Nevel levantou o braço direito, ainda de costas para o público, induzindo o silêncio. Exigiu, sem palavras, com apenas um gesto, que todos nos calássemos durante o concerto. Quase toda a gente cumpriu, mas ainda houve um incauto que aplaudiu no final da segunda música – uma composição também anónima escrita em 1380 sob o título Je sui trestout d’amour raimpli – , acabando por levar um olhar de reprovação por parte dos seus pares (eu incluído, por ter sentido a invasão daquelas palmas a colidirem).Depois, mais nada se ouviu a não ser as vozes de quem estava no palco. A que é que soa a música feita há 800 anos? Não sei, mas consegui viajar através da perspetiva de Paul Van Nevel, que me ensinou a importância de estar a ouvir, sem me preocupar com outras funções da existência. Primeira revelação: a música deve ser escutada, como se naquele momento nada mais importasse, sem que houvesse notificações do Instagram ou uma exigência de qualquer pessoa que nos induz a fazer algo num momento em que não o queremos fazer. Foi como se até àquele momento nunca tivesse ouvido música. Creio que aqui música se confunde com liberdade e resistência.Uns dias mais tarde, conheci, durante uma entrevista para o DN, Fernando Ribeiro. Oferece a sua voz à banda de metal gótico Moonspell há mais de três décadas. Lançam daqui a um mês o seu mais recente disco de estúdio, o 14.º de uma lista meritória, intitulado Far From God.Qualquer pessoa lhe perguntaria o que quer dizer aquele título (Longe de Deus, numa tradução livre do inglês). E eu, porque sou uma pessoa qualquer, perguntei.Uns meses antes, quando o álbum foi anunciado, Fernando Ribeiro disse que não traria política associada. Foi perspicaz, porque a música e a política são inevitáveis. Agora, o músico argumentou com as ideias de Friedrich Nietzsche para justificar este novo disco, para além de revelar uma “crise existencial” da banda. Mas o nome surgiu porque há uma invasão na Ucrânia, uma guerra no Irão e porque, coletivamente, nos esquecemos de que temos propósitos que nos ultrapassam. Estamos longe deles. É evidente, até para um herege como eu.Segunda revelação: a música é mais importante do que os governos..Moonspell lançam ‘Far From God’ porque queriam responder a uma “crise existencial”.António Manuel Ribeiro: “Temos muita musicazinha para adormecer. Aquilo que ouço às vezes é um vazio” .Lavoisier apresentam ‘era com h’ na Culturgest para celebrar a poesia