Os UHF dão um concerto de uma só noite com canções de vários discos, de 1979 a 2025, que foram “abafadas” por outras que foram sucessos, diz António Manuel Ribeiro ao DN. UHF Underground acontece já este sábado, 21 de março, no LAV - Lisboa ao Vivo. Um espetáculo para os fãs desta banda que este ano planeia lançar dois novos discos e atuará pela primeira vez no Rock in Rio.Neste espectáculo vai apresentar canções que nunca foram tocadas ao vivo?Nunca, ou muito pouco tocadas, lá longe, que já ninguém se lembrava.Mas foram gravadas?Está tudo gravado, tudo o que vamos tocar está gravado.Quando pensou em fazer este espetáculo, tinha já algumas canções em mente?Isso tinha, tinha três ou quatro, e algumas até são recentes. É a velha história, se não temos sucesso, andamos por aí, fazemos coisas bonitas e ninguém sabe de nada. Quando nós temos sucesso numa canção, que pertence a um disco onde estão mais de dez canções, há um problema, é que só aquela é que tem importância, as outras passam todas ao lado, nomeadamente em termos de divulgação. E depois, com tantos anos de carreira, com tantas canções de sucesso, é obrigatório nos concertos tocarmos o nosso melhor. De vez em quando lá conseguimos meter uma cançãozinha que agrada. Quando digo que agrada, são aquelas canções pelas quais temos um carinho especial.E quais foram as primeiras músicas em que pensou?Há uma canção de que eu gosto muito, que é Há Rock no Cais, que é o título de um disco que saiu há 20 anos, em 2005. E esta canção reflete um aquele meu tempo. Na altura eu tive um incêndio em casa, um cobertor elétrico que ficou ligado e criou um incêndio numa parte da casa. E eu estive a viver dois meses e tal num hotel, na Costa da Caparica. E o Há Rock no Cais é um bocado aqueles meus dias de isolamento num hotel. Esta é uma das minhas canções. Há outra canção que me diz bastante, mesmo muito, que é o Lisboa Hotel. Lisboa Hotel é uma canção que foi editada em 1993, num disco chamado Santa Loucura, que só tinha lá Menina estás à Janela... Essa e o Sarajevo abafaram todas a outras. Lisboa Hotel é uma canção gravada há 33 anos e fala dos sem-abrigo, que na altura já era degradante e que agora faz parte da história das nossas cidades, não só de Lisboa. São duas canções que não impus, mas obriguei (risos). Não, toda a gente estava de acordo. São canções com força e com uma dinâmica poética muito importante.Qual é o arco temporal das canções que vão ser apresentadas?Nós vamos desde o primeiro disco, Jorge Morreu, que foi o primeiro EP que nós gravámos, em 1979. E vai desde aí até 2025. Também há uma canção do disco do ano passado.De O Lugar do Rock...Exatamente. O Lugar do Rock já começa a ser a minha vontade de dizer que está aqui qualquer coisa a acontecer. No ano passado nós fizemos 45 anos sobre a edição de Cavalos de Corrida. E este ano 45 anos sobre a edição do primeiro LP, que tem o quê? A Rua do Carmo. Há aqui um lado simbólico também, no meio disto tudo.Como é surgiu a ideia de fazer este concerto? Nós somos uma banda organizada e está quase tudo metido em pastas de computador. Até hoje fizemos 1933 espetáculos. Às vezes, no princípio, nós tocávamos uma, duas, três vezes os Cavalos de Corrida por concerto, porque as pessoas não desistiam. Se não fosse assim acho que nos davam umas bofetadas no fim do espetáculo. E eu fui acumulando uma necessidade de fazer outra coisa, um desafio. Este não é um concerto comercial. É um concerto para gente que gosta de música, ou se quiser, o outro lado da música, que não é comercial. Nada contra as canções comerciais, comerciais no sentido de serem populares. Se não fossem canções populares, eu não estava aqui, de certeza, a falar. Tinha acabado como tantos colegas lá atrás, não é? .Fui acumulando uma necessidade de fazer outra coisa, um desafio. Este não é um concerto comercial. É um concerto para gente que gosta de música, ou se quiser, o outro lado da música, que não é comercial. Nada contra as canções comerciais, comerciais no sentido de serem populares.António Manuel Ribeiro.Este concerto surge agora porque estão à beira dos 50 anos de carreira? Acho que tem a ver com os 45 anos dos Cavalos de Corrida. Era perfeitamente impensável, naquele tempo, ou mesmo no meio da caminhada, chegar aqui. E depois a Rua do Carmo, que sai no ano a seguir. A Rua do Carmo, para mim, é a canção mais importante. Quando dizem, qual é a sua canção mais especial? Não tenho uma canção especial, mas a Rua do Carmo é a minha canção mais importante, porque confirmou que os Cavalos de Corrida não eram um mero acaso. Houve na altura muita gente a gravar e a desaparecer. Ao primeiro disco, gravava e desaparecia. Falamos de mais de uma centena de artistas e grupos. É crítico do cenário musical atual. Disse numa entrevista que a música devia voltar às garagens, às ruas. Considera que o que se faz hoje não reflete a sociedade, os problemas das pessoas? O rap, sim. Algum rap muito bom que temos. Mas o resto... há muita gente adormecida. Hoje vivemos uma vida em que tudo está fingidamente num ecrã e o ecrã está nas nossas mãos, e nós temos a ilusão de que o mundo está conosco, de que o mundo está ali. E não há procura, não há revolta, no sentido da mudança. Revolta não tem nada a ver com violência, tem a ver com ‘eu não quero isto e vou fazer alguma coisa que seja diferente e que me represente’. Vou abrir mais um bocadinho o jogo...Do primeiro disco, vamos tocar a Caçada. E a Caçada foi uma carga da polícia de choque que eu presenciei. Antes do 25 de Abril não se falava nas cargas da polícia, porque como não havia imprensa livre, não havia cargas da polícia de choque... Eu assisti a uma em Cascais. Foi um dos grandes sustos da minha vida. A Lisboa Hotel, sobre os sem-abrigo, é outra realidade. E neste momento nós temos muita musicazinha para adormecer. E depois há outro problema. De há uns tempos para cá há uma série de malta que acha que faz uma cançãozinha, mete-a no Spotify ou no YouTube, faz um vídeo mal-enjorcado e de repente é artista. Não é! Uma canção não faz um artista. Por outro lado, a música que se compra hoje, muita dela, é fabricada por IA. E antes da IA já havia outra coisa que eram as bases rítmicas para fazer música. É malta muito boa a mexer em tecnologia, mas depois criatividade não há nada. E aquilo que eu ouço às vezes é um vazio. É um vazio que no fundo reflete as pessoas, as milhares de pessoas que nós vemos todos os dias na rua a olharem para o ecrã. Já ninguém olha para ninguém.E sobre o que é que tem andado a escrever ultimamente?Eu quero fazer uma recolha de poemas meus, eu escrevo muito e vou amontoando. E agora finalmente quero fazer outra vez um livro de poesia. Há vinte anos que não edito poesia. Depois dediquei-me à prosa, mas a prosa é muito mais densa.Então quer lançar um livro de poesia?Vou lançar este ano, um ou dois livros de poesia. Porque eu tenho poesia de rima solta. Muito forte, muito interventiva. Muito sobre nós. Eu escrevo facilmente rimas, porque sou escritor de canções, para mim é fácil rimar. E acho que uma coisa não cabe na outra. E, portanto, se calhar vou fazer dois livros para separar. E há uma coisa boa nisto tudo. Eu sou tão mau, tão mau para mim – mau no bom sentido, eu sou um policiazinho para mim – que quando um poema não me interessa rasgo imediatamente. Nem quero ver mais aquilo. Podias guardar, dizem. Não, não quero. Porque não presta. E quando não presta, não presta. Temos que ter este filtro de exigência.E já tem um novo disco para sair?Não tenho um, tenho dois.Então o próximo sairá quando, em 2028, para marcar os 50 anos de carreira?Não, sai antes. Este ano temos duas coisas para sair. Uma delas não é só comigo, tem outra parceria editorial. Vamos ver como é que vai ser. Mas vamos fazer este ano duas edições discográficas também. Isso é garantido.E pode revelar como será o próximo disco, há um tema?Não há um tema. O próximo disco, que eu acho que vai ser o próximo, se não for esse, é o de outubro, é um disco que reúne uma série de canções que ficam muitas vezes perdidas no estúdio. E nós já fizemos a edição de três volumes de Raridades. E vamos fazer agora o quarto. Neste volume IV há duas canções muito importantes para mim. Uma delas é sobre a paz. É uma canção que eu comecei a escrever no quinto aniversário do massacre do Bataclan. E no ano passado fez dez anos e decidi retomar esta canção. Porque é uma canção que está muito atual. O que eu senti no Bataclan é o que está a acontecer neste momento no nosso planeta, que é o confronto entre duas civilizações religiosas. E o Bataclan, para mim, é isso. Os sujeitos entrarem com as metralhadoras para disparar contra gente que estava pura e simplesmente a ver o espetáculo, e acha que está a fazer o trabalho de Alá. É a loucura religiosa em que estamos a viver. São duas civilizações em confronto com as suas nuances. E acabei por fazer esta canção metade em francês e metade em português, não sei se a canção conseguirá sair do país, espero bem que sim, mas fundamentalmente é dizer isto: há homens que se julgam Deus e quando o homem se julga Deus alguém está a morrer.Esta canção estará então no IV volume de Raridades. Já tem data de lançamento? Vai sair este ano, com quase 95% de certeza, antes do verão.E o que pode adiantar sobre o álbum de outubro?Está todo feito. Estou apenas na reflexão final. Tem outras coisas muito bonitas que nós temos gravado e vamos deixando, porque às vezes não cabe. Antigamente fazíamos discos até esgotar o espaço dos CD, que foi uma burrice. Fizemos todos, nós e os estrangeiros todos, de dez, 15 canções passámos para 18, 22 canções. Os discos têm que ter menos canções para serem guardadas na memória das pessoas, porque era assim antigamente, em que tínhamos discos de oito ou dez canções. Portanto, às vezes ficam de fora canções que não cabem, vamos mostrá-las agora.Vão tocar no Rock in Rio pela primeira vez, o que representa isso para os UHF?Um palco, um palco significativo. É um concerto internacional, haverá cá muita gente e é bom que possamos mostrar aquilo que temos. Os UHF são uma máquina em cima do palco, nós somos capazes de incendiar um palco, isso já aconteceu muitas vezes. E o que nós queremos é fazer uma grande festa, queremos o público ao rubro conosco. .Os UHF são uma máquina em cima do palco, nós somos capazes de incendiar um palco, isso já aconteceu muitas vezes. E o que nós queremos é fazer no Rock in Rio é uma grande festa, queremos o público ao rubro conosco.António Manuel Ribeiro. E como é ser um roqueiro aos 70 anos?Não sei, nunca tinha cá estado, é a primeira vez (risos). É uma coisa que eu digo há muito tempo, eu digo à malta, no dia em que eu deixar de ter esta energia, no dia em que vocês me virem a cair para o lado, tirem-me daqui, porque acabou. Isso não chegou ainda, nem mais ou menos, quando digo nem mais ou menos é no sentido em que as coisas têm sido boas, positivas, e sobretudo o reflexo do público. O público é o juiz. Até agora tenho-me sentido muito bem.Qual tem sido até agora [quarta-feira, dia 18] a adesão ao UHF Underground? Vão ter casa cheia?Para ser verdadeiro, não está ainda cheia. Este espetáculo é um espetáculo que não é para todos, é um espetáculo onde as pessoas não pensem que vão ouvir os sucessos, não há, não há, é uma descoberta. Quem gosta de descobertas, quem gosta de experiências que nunca foram vividas está conosco. Mas também nós nunca pensámos que fosse um espetáculo com muita gente. Eu gostava de ter uma sala ainda mais pequena, tipo Rock Rendez Vous, o clube. A sala não é muito grande, é uma sala média, mas eu queria uma sala que representasse o espírito daquilo que foi o underground, nós andámos por lá no princípio, o António Sérgio [radialista] é que um dia disse que nós éramos underground, até fiquei assustado quando ele disse que éramos o underground português. Mas um dia veio-me essa imagem, ele disse uma coisa que me toca cá dentro..Yerai Cortés em Portugal mostra como a guitarra de flamenco lhe “sai do peito”.Pedro Abrunhosa: "Este disco é um contrapeso à voracidade, à velocidade e à ausência de ponderação"