Dois dias antes do lançamento do novo álbum, a 14 de janeiro, teve um encontro à porta fechada no Vaticano com o Cardeal Tolentino de Mendonça e a pianista Maria João Pires. Está ligado ao lançamento do Inverbo?Não, ligado não está. Mas não deixa de haver uma conexão espiritual entre o conteúdo do disco e o conteúdo do que aconteceu lá. Não está ligado porque era uma reunião que estava agendada já há bastante tempo e foi uma mera coincidência. Mas, de qualquer maneira, o momento interior, espiritual do encontro acontece no momento interior também do pragmatismo de um lançamento. Isto quer dizer que há uma preocupação nos dois eventos. O evento do Vaticano foi uma conversa à porta fechada entre o Cardeal, a Maria João Pires e eu próprio, sobre o peso da ausência da palavra, da ausência do silêncio, da ausência do tempo e da contemplação, do usufruto da profundidade na atual conjuntura sociológica a nível global, que atravessa a estética, que atravessa o jornalismo, que atravessa naturalmente o mundo político, e este disco também é um pouco sobre isso. É um disco que é um contrapeso à voracidade, à velocidade e à ausência de ponderação. As estatísticas das grandes universidades, sobretudo norte-americanas, que se têm debruçado sobre o uso excessivo da tecnologia, têm reduzido o tempo de atenção que os adolescentes dedicam ao scroll. Já passou dos 15 segundos para os oito e agora dos oito para os dois. Ora, uma obra de arte não se usufrui em dois segundos, nem se faz o luto da morte em dois segundos, nem se celebra a alegria em dois segundos. Como nós estamos permanentemente à procura do novo, em que o novo de há dois segundos já se tornou velho, eu lanço este disco que não se pode ouvir em dois segundos.Diz que Inverbo é um refúgio, é um lugar tranquilo.É, é um lugar tranquilo. Antes das redes sociais nós se calhar éramos felizes e não sabíamos. Não é que a tecnologia em si seja um retrocesso, não é isso, é a forma como nós nos estamos a regular por essa tecnologia. Eu acho que a tecnologia nos está e funcionar como uma espécie de exoesqueleto, portanto um esqueleto externo, ou se quiser um exocérebro, um cérebro externo que não é nosso, como os carros que são um exoesqueleto. Dentro dos carros temos uma tendência para ser um bocadinho mais agressivos. Eu acho que este exoesqueleto, que é a tecnologia, torna-nos ainda mais agressivos do que os carros, porque nos permite o anonimato, permite-nos atirar a pedra e esconder a mão, nunca ninguém sabe de onde é que vem a palavra, a tecnologia tem reduzido o diálogo - e nós falámos sobre isso no Vaticano -, ao mais básico do ser humano, desprovendo a palavra, que é talvez a maior invenção, também ela técnica, porque a palavra não deixa de ser uma invenção da humanidade, despindo a palavra da sua característica unificadora e pacificadora e também de profundidade, porque também discutimos isto.Confrontamo-nos com a perda de influência dos grandes escritores atualmente junto da sociedade. Muito, porque foi arrancado o lugar da palavra, da literatura, da poesia, mesmo da política, a política há quem a faça com três ou quatro palavras, não diria tão poucas, mas 30, 40, e consegue galvanizar multidões.De que forma este Inverbo vai ao arrepio disso? São as canções longas, é a poesia?Eu por acaso acho que não tem a ver com a duração da música, tem a ver com a densidade da música.É aquele "ambiente musical de nuvem" de que já falou noutras entrevistas?Sim, é um pouco isso. Mas essa nuvem funciona mais na parte instrumental. A parte instrumental cria ali uma atmosfera de nuvem. Eu quando falo em nuvem, falo de um conjunto de entidades musicais que ali estão e que não se conseguem muito bem definir, são uma nuvem, não é? Agora, a palavra não é nuvem, a palavra é muito precisa, é uma palavra poética. Como dizia, não tem a ver com a duração da canção, tem a ver com a densidade, tem a ver com a profundidade da canção. E claro que o Inverbo vem completamente em contraciclo. Se sintonizar a rádio no seu carro, vai perceber. Nós também falámos disso, deste fenómeno da 'mesmização', a música está toda 'mesmizada', a música perdeu a vontade – pelo menos aquela que se ouve nas rádios e aquela que muito se pratica, através da digitalização –, de ser genuína, para ganhar a vontade de querer agradar e de vender mais e de ter mais likes. Resumindo, a música vergou-se completamente à indústria e a indústria, por outro lado, vergou-se completamente ao lucro, porque existia uma indústria musical até há 20 anos, que se foi transformando, que já era centrada no lucro, e não tenho nada contra o lucro, mas o lucro era apenas um dos objetivos. A indústria tinha também uma outra função, que era a difusão do processo artístico. E o processo artístico está arredio da indústria musical neste momento.A indústria preocupa-se muito mais com um resultado rápido, o tal dos dois segundos, isto é uma alegoria, como é evidente, mas é lançar músicas para o mercado, umas atrás das outras, todas bastante parecidas, utilizando o mesmo tipo de som, o mesmo tipo de técnica, e agora estou numa análise estética um pouco rápida, mas é o que se passa, a música está toda 'mesmizada', está toda muito igual. E este disco é exatamente o contrário, é um processo genuíno.E, de resto, há a reação que as pessoas estão a ter ao disco, e há a reação que o público sempre teve aos meus espetáculos, e agora nestes últimos três, quatro anos, tem sido notório. Por exemplo, a canção que o Amor de Salve Nesta Noite Escura, uma canção cujo impacto não vou sublinhar, mas que me parece que é óbvio, essa canção também já ela era em contraciclo. É uma canção com uma voz e um piano, no sentido clássico da canção, quase a canção do século XIX, uma canção de piano e voz, e que teve um impacto brutal em muitas pessoas, porque esse espaço de emocionalidade não está a ser ocupado pela indústria musical. O público quer isso?Claro, o D. Tolentino tem uma frase que se presta a isso, e de que também falámos neste encontro. Ele diz, neste último livro, "o caminho vai ao encontro do caminhante", e é verdade, há uma necessidade do público de um certo consolo individual que depois se transforma num consolo coletivo. Quando nós chegamos a um MEO Arena e temos aquela multidão, ou numa praça, ou num estádio, e temos a multidão que vai ver o espetáculo, existe uma necessidade individual, que depois é uma necessidade coletiva, de refúgio, de pacificação, de consolo e também de elevação. Uma certa elevação, ou seja, há de facto um espaço artístico que está a ser completamente tomado pela voracidade da contemporaneidade. Lançou um livro com as letras das canções de todos os seus álbuns, incluindo o Inverbo, intitulado Vem Abrir a Porta à Noite. É uma experiência diferente ouvir essas palavras numa música e lê-las num livro?Eu lanço esse livro e o Cancioneiro, como uma espécie de ponto da situação, como quem diz, passaram 31 anos sobre o meu primeiro disco, está na altura de fazer um inventário, está tudo aí, as canções que eu escrevi para mim e para outros, é um repositório do que eu escrevi. E claro que a experiência é manifestamente diferente, eu tenho aqui livros do Chico Buarque, que é um autor de que eu gosto muito, ou do Leonard Cohen, ou do Dylan, e gosto muito de ler os seus poemas, mas a dada altura eu sinto a necessidade de pegar no disco e ir ouvir o poema cantado. E o poema cantado tem vida. O poema musical, a letra de música apenas na palavra perde bastante.As letras do Inverbo estão no livro tal e qual como estão no disco, ou sofreram alterações? É que o disco era para ter saído em outubro mas só saiu em janeiro. Qual foi razão?Entre outubro e janeiro, a situação global transformou-se de tal maneira, que se o disco não saísse agora, só saía daqui a três meses, e daqui a três meses... Eu tinha que lançar o disco, porque esses atrasos deveram-se, precisamente, às mudanças que se foram dando, e eu sentia sempre necessidade de tirar uma música e meter uma nova, tirar uma música e meter uma nova. Não tem a ver com processos editoriais ou estéticos, não, tem a ver com o mundo. Em outubro, o genocídio de Gaza estava no limite da sua expressão máxima, e, depois, este Trump 2 está numa cavalgada para a loucura, e eu precisava de largar o disco antes que o disco fosse outra coisa. E o que aconteceu foi o mundo. O mundo está numa encruzilhada perante a qual é precisa alguma seriedade. Eu lanço um disco que é para poder ter tempo de refletir para o próximo. E este disco teve que sair agora, porque senão já não saía. O mundo está numa franca transformação e o disco já não saía.Mas estabelece uma ligação tão estreita entre o álbum e o que se passa no mundo?Toda a estética é também uma ética e é impossível ficar indiferente ao que se está a passar. A arte, ela própria, é movida pelas circunstâncias e não existe uma arte desprovida do real, não existe. Agora, a arte não tem que ser panfletária, não tem que falar exatamente sobre o que aconteceu. Eu, neste disco, tenho apenas duas canções que falam de situações concretas. Leva-me P'ra casa sobre o desaparecimento da filha de um amigo meu, a morte, esta dor trágica dos pais que perdem filhos, os meus pais perderam um filho, o meu irmão, e eu assisti ao processo. E outra música, que é uma narrativa de uma cidadã do sul dos Estados Unidos a quem é recusada a venda de um vestido de noiva por ser negra [Oxalá o Meu Vestido Ainda se Lembre de Mim].O que é que o impressionou tanto nessa história?É uma história bonita, porque tem um final interessante, tem um final feliz, tem um final poético. Essa história dava um filme. Eu utilizo muito as notícias do jornal como gatilhos, como gatilhos da minha própria escrita. Porque a realidade é fascinante. A realidade unipessoal, esta coisa da pequena dor individual. Há bocado perguntava-me se a situação política me move tanto. Claro que sim, estamos a falar ao nível do macro. E como é que nós ultrapassamos a dor do macro? Nós ultrapassamos a dor do macro, esta grande pressão que existe no mundo, a alteração profunda que está a existir e que cria uma angústia, enfim, uma cadência de stress diária a cada um de nós no coletivo, este macro só pode ser aliviado através da expressão do micro, que é percebermos a pequena dor do outro, a pequena consequência. E é muito mais poética esta pequena consequência do que escrever grandes epopeias a falar mal dos dirigentes. Isso já me aconteceu, já fiz isso.Mas essa precisão não é tão interessante do ponto de vista artístico, é muito mais fascinante a expressão da dor, a pequena dor do indivíduo da nossa rua, daquele que vive ao nosso lado, daquele que nós conhecemos, ou então daquele com quem empatizamos numa notícia de jornal. O Tolstoi tinha uma frase que eu acho que resume isto. Ele dizia, se queres retratar o mundo, começa por retratar a tua rua, porque na realidade a rua é uma expressão do macrocosmos. Eu vejo à minha volta a degradação das condições das pessoas, toca-me em particular, e vejo nesta degradação o espelho do que é uma certa degradação político-social.Tem duas canções ligadas a acontecimentos, e as restantes?Um disco não se explica. Um disco é ou não é. É muito complicado explicar. Mas as canções, todas as canções, são canções de uma certa luz no meio do escuro. São sempre alegorias do amor enquanto uma entidade salvífica. Um amor humano, não falo do amor religioso, é um amor humano.Há muitas referências a Deus...Apesar disso eu sou agnóstico.E nem a passagem pelo Vaticano mudou isso?Não, não mudou não. E ainda bem, nós temos uma visão do absoluto que é uma visão diferente. Há um livro interessantíssimo que acabou de sair do Javier Cercas, que se chama O Louco de Deus no Fim do Mundo. É um ateu, que é o autor, a confraternizar com o Papa Francisco. Uma coisa que aconteceu, de facto. E este conciliar das perspetivas do absoluto que eu tenho, com as perspetivas do absoluto que tem o D. Tolentino, por exemplo, é um acontecimento que é lindíssimo, até do próprio processo, eu não diria democrático, da Igreja, mas do processo de abertura que o Papa Francisco confere à Igreja. Portanto, a possibilidade de nós, agnósticos, participarmos no diálogo com um conceito tão bonito, tão profundo, quanto é Deus. E, portanto, Deus existe em mim, na medida que ele existe nos homens.Não é o Deus da religião...É o Deus dos homens, é o Deus que faz acontecer o belo. Aliás, a ética cristã, e eu sou um cristão, porque professo uma ética cristã, é uma ética dos valores. Não existe nenhuma outra ética que ultrapasse a ética cristã no sentido do respeito pelo próximo, do respeito pelo desconhecido, aquilo que dizia o Papa Francisco, que é o todos, todos, todos. O respeito pelo mais pobre, pelo mais fraco. Essa é a palavra original cristã. E eu acho que este disco, nesse sentido, transborda um pouco dessa responsabilidade perante os outros. Uma vez mais, a canção Que o Amor te Salve não está neste disco de propósito, mas é, no fundo, o leitmotiv subjacente a este amor que está nestas 11 canções do Inverbo.Qual foi o grande desafio deste álbum? São sempre as letras? Da última vez que falámos dizia "a música é mais intuitiva, o piano toca sozinho, a caneta não toca sozinha".É verdade, mantenho isso. Eu debruço-me sobre o piano e aquilo vai brotando, vai saindo. Mas a linguagem poética que se coloca numa canção cada vez me é mais difícil. Aliás, isso explica a distância entre discos. Eu já comparei a escrita de um disco com a escrita de um romance, ou de um livro de poesia de fundo. E não se consegue fazer isso de mês a mês, como muita da indústria faz, como estávamos a falar no início. Eu consegui este disco ao fim de quatro, cinco anos. No meio tive uma série de canções que fui lançando. Mas a escrita de uma obra com algum peso, e eu creio que o Inverbo poderá cumprir isso na minha obra, naquilo que são os vários pilares que é cada disco. Cada disco é um pilar, e a palavra é cada vez mais omnipresente e é o grande desafio.A Lídia Jorge, no prefácio que escreveu para o livro questiona se estas letras podem ser consideradas poesia. Ela até propõe o uso da palavra líricas, indo buscar a palavra lyrics, do inglês. Mas são poemas para si?Creio que essa discussão da letra-poema é uma discussão académica. A poesia é-o, na medida em que nós a abraçamos, quer dizer, nós é que transformamos uma lírica num poema. E eu reconheço que tenho algumas letras às quais eu não conferiria esse adjetivo, porque 'plumar', se me permite o verbo, 'plumar' é uma atitude de elevação da palavra. Portanto, algumas letras não atingiriam o objetivo de serem 'plumadas', de serem transformadas em poesia. Mas, algumas delas, e eu creio que o Inverbo seja talvez o meu segundo disco, ou terceiro, em que eu consigo transformar as letras em poemas. Talvez este disco eu consideraria um disco de poemas, sim.Diz que é pela palavra que as canções perduram no inconsciente dos ouvintes. Qual destas onze canções considera ter mais potencial para perdurar?Eu acho que o Leva-me P’ra Casa está a cumprir um papel muito interessante. Eu não sei se já teve oportunidade de ver o vídeo, mas aconselho. Está no YouTube, é um vídeo feito pelo realizador Carlos Marta e é de uma profundidade, é, arriscar-me-ia a dizer, o meu melhor vídeo de sempre. Porque é aquele que consegue passar para imagem uma matéria imaterial, perdoe-me o paradoxo. A música e a palavra são coisas imateriais. É o primeiro videograma, como eu lhe chamo, das minhas músicas, ao fim de 31 anos, que faz justiça à ‘imatéria’. É quase um filme. São seis minutos de uma imersão profundíssima na imagem e é muito difícil permanecer poético quando se trata de imagem.Não o considera um videoclipe mas um videograma...Não é um videoclipe é um videograma. Aliás, eu não gosto muito dos anglicismos, não gosto, e videograma é uma palavra lindíssima para descrever o que lá está. Ou seja, é quase um filme. São seis minutos de uma imersão profundíssima na imagem e é muito difícil permanecer poético quando se trata de imagem. Porque a imagem é uma coisa plástica, não é? A imagem destrói o mistério da música, destrói. Nós, quando ouvimos uma música, imaginamos tudo.E é na linha da imagem da capa, que dá ares de pintura de Turner?Exatamente. Se eu tivesse dinheiro para ter uma grande obra em casa, era uma de Turner. Consigo ficar horas a olhar para aquilo. Porque aquilo é lugar nenhum, é um sítio qualquer de uma magia, de uma envolvência, apetece mergulhar lá dentro. E esta capa tentou ser isso. Uma certa imagem de estetismo e de um certo mistério. . Já disse que este álbum representa o fechar de um ciclo. O próximo será muito diferente?Eu vivo no próximo álbum, o que é um problema. É por isso que este disco tinha que sair. Porque foram muitas canções que ficaram para trás, porque o mundo ia mudando e eu ia mudando as canções. Literalmente, as que já não faziam sentido. E, portanto, eu tinha de me libertar do disco, dos videogramas que vamos fazer.Todas as músicas terão vídeo?Sim, todas. Vamos fazer 11 videogramas para editar em filme. E vai sair Inverbo, o filme. É um projeto de grande envergadura. Mas, por mim, o disco está feito e, claro, eu estou completamente já com os pés, com o corpo, com tudo, com a cabeça, dentro do próximo disco. É aquilo que me está neste momento a enfeitiçar.E será mais eletrónico?A eletrónica fascina-me. Mas eu sou um homem do analógico. Toco piano, toco contrabaixo, eu chego ali ao instrumento, abro a tampa do piano, ou pego no contrabaixo, ponho lá os dedos, aquilo emite imediatamente som. Em eletrónica não é assim. Em eletrónica é preciso carregar em botões, ligar à tomada, se não se pagou a conta da luz aquilo não funciona, tal, tal, tal. Portanto, a eletrónica já não é tão óbvia, já não é tão orgânica, não me é tão familiar. Existe um fascínio da minha parte pela eletrónica, sempre o tive, mas não a domino, não a conheço. E, portanto, estou-me a reunir de músicos que me podem ensinar coisas na área da eletrónica para poder, com a organicidade da minha tradição musical - que é trabalhar com músicos, os meus grupos têm sempre muita gente e gosto de dirigir músicos, a minha formação é essa -, juntar mais eletrónica, sim.Portanto, aos 65 anos continua com vontade de aprender...Eu inscrevi-me em Filosofia na Universidade Católica aos 60, e continuo a ler vorazmente coisas que me interessam do pensamento humano. A aprendizagem é uma das formas mais belas de nos mantermos vivos. E de manter uma certa relação de humildade com o mundo.Será um disco mais eletrónico, mas isso não significa necessariamente canções mais rápidas? A eletrónica permite isso, mais facilmente a eletrónica permite aquilo que nós chamamos de tempos acelerados, o chamado up-tempo em inglês, o tempo mais rápido. Permite isso com mais facilidade. Mas também permite outras coisas, permite a manipulação de sons. Dou-lhe um exemplo, a Billie Eilish usa a eletrónica de uma maneira bastante interessante e não é por isso que as músicas são todas rápidas, ou são todas muito alto. Outra pessoa que utiliza muito bem a eletrónica é a Lana Del Rey, também o faz de uma forma bastante interessante. O Fred Again, que até é um DJ, tem um disco eletrónico com o Brian Eno que é um disco até bastante planante, mas a batida da música não é o que me fascina no eletrónico, é a mistura da minha voz e do poema com sonoridades baseadas no eletrónico. Entre as quais também, porque não, os beats, esta coisa de que falávamos, de acelerar o tempo. Mas a música eletrónica é muito centrada num conceito quer anglo-saxónico, quer francês. A música eletrónica francesa é muito forte. Há uma grande tradição da música eletrónica em França também, que é muito interessante. Ao serviço da canção. Eu coloco sempre os instrumentos ao serviço da canção. Os instrumentos por si não são a canção. A música eletrónica é a moldura na qual a pintura vai ser colocada. A pintura é a canção.No ano passado fez quase 100 concertos. Este ano vai manter o ritmo ou vai abrandar?2024 e 2025 foram anos praticamente idênticos em número de concertos. Em 2025 aumentou cerca de 12%. 2026 está a ir pelo mesmo caminho, portanto, não deve reduzir muito. O palco é um sítio de catarse, e por outro lado a voracidade com que as pessoas acorrem aos concertos e às bilheteiras também acaba por se transportar para a quantidade de concertos que eu faço. Porque é difícil manter afastadas as músicas do público. É no palco que as músicas finalmente se concretizam. O palco é o sítio onde elas ganham forma. E, portanto, tenha eu energia e saúde, continuarei a tentar honrar os compromissos de tantos espetáculos. E com muito prazer.E o que é que as pessoas podem esperar nos grandes concertos que se avizinham no Porto e Lisboa?Não vou adiantar muito porque, de facto, estes concertos são diferentes. E se eu adiantasse fosse o que fosse já estava a revelar muito do que vai acontecer. São experiências interiores que vão estar ali muito expostas. É um concerto muito à flor da pele. Mas já no ano passado foi uma experiência de uma certa transcendência. Estes espetáculos são muito baseados no conceito de silêncio, de como não estragar o silêncio. Porque o silêncio é a mais perfeita forma de música. São espetáculos que começam de uma forma surpreendente, completamente inesperada, vão ser um lugar para estar. Durante duas horas as pessoas vão estar num lugar. Vai ter um pequeno momento daquilo que se chama lied. Lied é uma canção alemã romântica do século XIX, só que neste caso escrita por mim. Vai ter um pequeno momento, uma coisa rápida, depois o espetáculo vai mergulhar num outro sítio.Voltando ao encontro no Vaticano com D. Tolentino de Mendonça e Maria João Pires, o Elogio do Silêncio vai ser disponibilizado ao público?O encontro com D. Tolentino de Mendonça e Maria João Pires no Vaticano foi demasiado interessante para ficar só entre nós. Eu fui espetador, sobretudo, a conversa foi gravada em vídeo, e portanto, será apresentado muito brevemente nas plataformas de música, e nas plataformas de vídeo. .Pedro Abrunhosa: “O novo disco é mais para a dor do que para a celebração”.Ana Bacalhau: “A voz da mulher é um instrumento poderoso e perigoso, por isso é que ela é proibida em muitos países”