Em 2022, quando integrava a comitiva de músicos do rapper (que é muito mais do que isso) espanhol C. Tangana, no MEO Arena, para apresentar o seu álbum El Madrileño, Yerai Cortés era um entre muitos, mas a conferir ao espetáculo, ao lado de outros virtuosos, o cunho do flamenco, que o define. Agora, o jovem guitarrista que, tal como confessou ao DN, não consegue ser indiferente ao fado, prepara-se para levar a cinco cidades portuguesas o seu espetáculo Guitarra Coral, que parte do documentário de C. Tagana La Guitarra Flamenca de Yerai Cortés. Ao DN, explica como a única coisa que preserva do flamenco tradicional “é essa forma de tocar em que se veja, antes de tudo, a pessoa, mais do que o artista”.Para Yerai Cortés, o flamenco vive menos nas regras formais e mais na capacidade de transmitir uma verdade interior. É por isso que assume que “quando quebra moldes”, fá-lo a partir dum lugar em que sente que não deve “nada a ninguém”. “A pureza, para mim, é ser fiel ao que sinto. Se o que faço me sai do peito, aí está o flamenco”, explica.Apesar dessa abertura criativa, o guitarrista destaca que a experimentação – que é constante, até porque, como admite, 99,9% do que faz é improvisação, não no sentido formal mas através da forma como não se controla o imponderável – só é possível quando se conhece profundamente a tradição. “O flamenco não poderia chamar-se flamenco se não se conhecessem as suas raízes”, afirma. “É toda uma vida dedicada a compreender esse código, os cheiros, a textura, tudo aquilo que não se vê mas que se sente.”Para o jovem guitarrista, o processo de aprendizagem não passa apenas pelo domínio musical, mas também por uma imersão cultural que envolve histórias familiares e rituais comunitários, que não são alheios à cultura cigana.Porém, Yerai Cortés recusa leituras exclusivas sobre esta ideia de pertença cultural, porque, explica, conhece pessoas que “não cresceram em famílias ciganas e que vivem o flamenco com a mesma verdade”. Ainda assim, reconhece o papel central da cultura cigana na forma como esta música se enraizou na vida quotidiana. “Nas casas ciganas, o flamenco aparece em todos os momentos importantes: aniversários, casamentos, Natal. Está presente ao lado do riso e da lágrima.”A relação entre tradição popular e expressão individual é também o que músico identifica como ponto de encontro entre o flamenco e o fado. A proximidade entre as duas culturas é evidente para o músico, até porque já a experimentou a Lisboa. “Levaram-me a uma casa de fado onde os artistas se encontram depois de todas as outras casas fecharem”, recorda. “Cada um canta, passa-se a guitarra de mão em mão, e o mais importante é a música”, tal como acontece no flamenco. É por isso que o guitarrista diz que não há “outra cultura vizinha que se pareça tanto com o flamenco como o fado”.Essa ligação já o levou a tocar com o guitarrista português Gaspar Varela, de quem é amigo, e com quem construiu um diálogo musical. “Ele tocava coisas de fado e eu respondia com flamenco. Foi o mais perto que estive de tocar fado”, conclui.Yerai Cortés apresentará Guitarra Coral já no dia 19 de março, em Lisboa, na Aula Magna. Depois, a 20 de março, estará no Teatro Municipal da Lousã. No dia 21 de março, em Braga, passará pelo Theatro Circo, até culminar este périplo no 24 de março, nos Açores, no Festival Tremor..Carlos Rodríguez dança ‘Eterno’ e mostra Picasso entre a luz e a sombra.Moisés P. Sánchez: “Respeito o folclore de Espanha, mas não sou um tipo do flamenco”