Os Lavoisier, de Patrícia Relvas e Roberto Afonso, levam no dia 12 de março ao Auditório Emílio Rui Vilar, na Culturgest, em Lisboa, o seu mais recente disco - era com h -, que reúne textos de dez poetas e acrescenta ao elenco três músicos: Diogo Sousa, Pedro Branco e Ricardo Dias Gomes. Este trabalho nasceu de um sonho e partiu de um sítio que era um exercício de “musicalidade e gesto na poesia contemporânea”, mas é um nome que também transporta uma pletora de leituras, tal como explicaram ao DN Patrícia Relvas e Roberto Afonso. Tudo em nome da música e da poesia.“Quando eu tive o sonho [sobre o nome] era com h, lembro-me de ter fixado a ideia por causa da dualidade do que era dito e escrito”, revela Roberto Afonso, propondo uma leitura inicial, que não é a intenção final: “planta ou deusa grega?”“Essa dualidade também nos interessava na medida em que um poema dito, ou escrito, ou musicado, todas estas três vertentes, suscita imagens diferentes”, continua o músico, enquanto explora mais possibilidades, que não ficam por aqui.“Esta coisa do h como consoante muda manteve-se durante os vários acordos ortográficos e ainda persiste, como uma instituição. E, então, por aí também teria a sua piada, tal como acontece com o facto de ser com letra minúscula, ou seja, estamos a meio de uma frase. Nós gostaríamos de saber que essa era, essa nova era, não representa o início, mas já estamos dentro dela”, acrescenta Roberto Afonso, como se cada nova ideia em torno do conceito tivesse suscitado mais ideias, até porque são duas pessoas a imaginá-las.Explorando o significado de era enquanto período de tempo que acaba por corresponder a uma nova organização das coisas, Patrícia Relvas assume que gostaria de sentir que o nome do disco “é realmente uma era que é diferente, e que o h, na representação do homem e do papel da mulher, também está em transformação”.“O papel da mulher, que tem que continuar nessa luta, também representa um pouco isso. Acho que ele [o nome do disco] foi importante porque abrangeu muitos sítios”, explica.No que diz respeito aos dez poetas e à forma como aconteceram estas múltiplas parcerias, Patrícia Relvas revela a forma com “não havia um tópico, uma coisa para escrever”, mas houve um encontro que todos queriam muito que acontecesse, e que passou por se sentarem “à mesa do café com o poeta” a falarem “sobre a vida, sobre as inquietações, sobre o que era comum”, o que os levou aos vários sítios que encontraram ao longo do caminho. Além de tudo isto, por já terem explorado musicalmente a poesia de Miguel Torga, com Viagem a um Reino Maravilhoso (2023), este disco ofereceu aos músicos a possibilidade de trabalhar com poetas vivos. É assim que nasce um trabalho que junta Lavoisier a Alice Neto de Sousa, Filipe Homem Fonseca, José Anjos, José Luís Peixoto, Maria Giulia Pinheiro, Maria do Rosário Pedreira, Nástio Mosquito, Nuno Miguel Guedes, Raquel Nobre Guerra e Vinicius Terra.No final, completa Roberto Afonso, os músicos perceberam “que os poetas também são permeáveis às mesmas inquietações, de modo que o encontro foi bonito e foi muito honesto”.Mergulhando nas histórias por trás de cada um dos encontros entre músicos e poetas, Patrícia Relvas assume que “muitos deles acabam por ser muitos felizes” e são o fruto de “coincidências”. “Vinícius Terra é um rapper do Brasil com quem já trabalhámos noutras músicas. Fomos ao Brasil várias vezes também por ele”, descreve, enquanto explica que a poesia quando é escrita já “tem a sua musicalidade”.Sobre o encontro com Nástio Mosquito, os músicos contam a forma como o conheceram inicialmente quando fizeram um tributo a Zeca Afonso, intitulado Cantares do Andarilho. Nástio Mosquito fazia a parte visual do espetáculo. Para destacar a ideia de coincidência, Patrícia Relvas relata a forma como Raquel Nobre Guerra “é amiga de amigos”, enquanto “Filipe Homem Fonseca acaba por ser vizinho”.Já José Luís Peixoto e Maria do Rosário Pedreira chegaram aos Lavoisier através de Alex Cortez, do MAP Oeiras (Mostra de Arte das Palavras), e do espetáculo A Secreta Vida das Palavras. “Parte de uma fotografia, que depois é entregue a poetas, que geram poemas que são entregues a músicos”, conclui Patrícia Relvas.Com a intensidade - influenciada por tantas fontes, como Fernando Lopes Graça ou o movimento brasileiro do final dos anos 1960 Tropicália, passando pela música ao vivo que fizeram em Berlim no início da carreira, entre 2009 e 2013 - que lhes é própria, os Lavoisier levam era com h à Culturgest e querem que o público sinta o concerto sem barreiras. “Vai ser um sítio bonito”, promete Patrícia Relvas.Paulo.Unsafe Space Garden propõem ‘O Melhor e o Pior da Música Biológica’ para celebrar “os dois sítios” da vida.Paulo Flores espera que a sua música crie pessoas “de alma lavada”