Os Moonspell lançam agora, em junho de 2026, o 14.º álbum de estúdio, depois de cinco anos de interrupção de novos sons, mas, garante Fernando Ribeiro, a icónica e poderosa voz da banda em conversa com o DN, “é um disco que concilia”. É assim que chega aos escaparates Far From God, “um álbum que não tem as camadas que o Hermitage tinha” – o disco lançado em 2021 –, e “veio da resposta àquela crise existencial” que fez nascer na banda a necessidade de fazer “uma música mais simples” e que remete para um certo passado. “Queríamos respirar um bocadinho e ter um disco que se ouve”, diz o vocalista. Far From God, por todos os motivos atrás descritos, surge assim “sem tantas camadas intelectuais, sem tantas camadas, filosóficas, sem tantas camadas musicais”, e é evocado por Fernando Ribeiro como “um Moonspell mais próximo de uma certa simplicidade. Só que o diabo é que a simplicidade dá muito trabalho, principalmente num estilo e numa época em que o metal não é nada uma música minimalista, não é nada como aos discos neogótico, onde há muitas camadas, há muita eletrónica.”“Há apenas a velha bateria o velho baixo, os teclados a guitarra, a voz”, completa o vocalista dos Moonspell, concluindo que é precisamente isso que “tem atraído as pessoas. Parece que estávamos um bocado no mesmo fuso horário cerebral”, analisa..O videoclipe do single que dá nome ao álbum, Far From God, foi gravado na Letónia, confidencia o cantor, e, com uma temperatura de 18 graus centígrados negativos, implicou várias repetições, para que tudo saísse exatamente como todos os envolvidos queriam. Num determinado momento, tendo em conta a insistência da banda, depois de várias tentativas, alguém pediu desculpa ao Pavel, o realizador daquele pequeno filme. No entanto, conta Fernando Ribeiro, a resposta de Pavel foi precisamente no sentido de agradecer à banda por trazer aquilo que considerou ser “um bálsamo”. É essa a conciliação trazida pelos Moonspell com o álbum.Ainda assim, é uma resposta a uma “crise existencial” pela qual a banda estava a passar, relata Fernando Ribeiro. “E foi uma resposta bonita, porque veio através da música e não através da indústria, ou através do negócio, ou através da necessidade. Nós temos um bocadinho essa independência, esse desprendimento”, acrescenta o vocalista, assumindo sem ingenuidade que, apesar de dependerem do público, “se não fosse relevante para a banda, não o teriam feito”.Mas, sem qualquer hesitação, ainda que com alguns apontamentos, Fernando Ribeiro garante que Far From God é o álbum mais importante dos Moonspell. Com recurso a alguma ironia, Fernando Ribeiro conta que os “os músicos também estão treinados para dizer: é o nosso melhor disco, é o nosso disco mais importante”. Mas também há algum realismo nas palavras da voz de Moonspell quando garante que não sabe “se é o melhor ou se é o pior”, até porque “isso depende da emoção das pessoas e das memórias que este disco vai criar ou não”..“É uma coisa mais empírica, talvez, mas para mim era o disco mais importante da nossa carreira, sim, e agora que o estamos a lançar tenho essa sensação quase diária”, assume.Os Moonspell também trazem com Far From God um pouco da sua “pré-história”, explica Fernando Ribeiro, porque escolhem fazê-lo sem seguir a “cartilha do digital”, para além de ter sido gravado, há um ano, no Porto, “que está com uma dinâmica incrível”. “É uma cidade que mantém a sua autenticidade, inspiradora, um bocadinho mais gótica que Lisboa, mais realista, talvez, um bom sítio para se estar a fazer um trabalho criativo”, desabafa, sem negar o lado sombrio da invicta.E a criatividade dos Moonspell também passou para o plano internacional, até porque, lembra Fernando Ribeiro, a revista alemã Metal Hammer destaca que a banda conseguiu que um “álbum clássico” soasse a “atual e moderno”. Com isto, o músico acompanha a ideia de que Far From God é um convite para que os fãs de Moonspell evoluam com a banda, que nunca foi “certinha”, optando por estar mais presente no momento, mergulhando no “zeitgeist”, isto é, o espírito da época.Sobre o nome do álbum (Far From God, que numa tradução livre do inglês significa Longe de Deus), Fernando Ribeiro explica que não é o que parece, muito “pelo contrário”..“Eu tenho um problema intelectual com o black metal, acho que as bíblias não devem ser queimadas. Aliás, nenhum livro deve ser queimado”, confessa, remetendo o simbolismo do nome do disco para o filósofo alemão Friedrich Nietzsche. Não é irrelevante dizer que Fernando Ribeiro é licenciado em Filosofia pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.Para o vocalista de Moonspell, Nietzsche “queria dizer que nós estamos desviados do pensamento original”, é aí que surge o nome do álbum.É uma tentativa de entrar na religião sem entrar na política, que, ressalva, “hoje em dia infelizmente também se torna política”. Mas o que importa para Fernando Ribeiro é que “os judeus ocupam a Palestina, os árabes que fazem ataques terroristas e há africanos que matam católicos. Todas essas pessoas estão longe, mas muito longe daquilo que o Deus em que escolheram acreditar lhes transmitiu lhes fez ver”, conclui..Lavoisier apresentam ‘era com h’ na Culturgest para celebrar a poesia .#LisboaEscuta: O caos do heavy metal está à solta em Lisboa.Rodrigo Leão: “Se tivesse aprendido música, com certeza que não faria as músicas que fiz”