A peregrinação dos líderes a Pequim

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Foi diante do habitual fundo montanhoso de uma das salas da Casa de Hóspedes de Diaoyutai, em Pequim, que Xi Jinping recebeu esta semana Friedrich Merz. O chanceler alemão foi o último de uma série de líderes ocidentais a encontrarem-se com o presidente chinês na capital. Acompanhado de uma vasta comitiva que incluía os patrões da Volkswagen, da BMW e da Mercedes, Merz ouviu Xi lembrar que China e Alemanha deveriam ser “parceiros confiáveis que se apoiam” e “defensores do comércio livre”, segundo informou a CCTV. Mais, o homem que lidera a China desde 2012, garantiu apoiar a autossuficiência da Europa e esperar que esta trabalhe com Pequim na mesma direção e mantenha a sua parceria estratégica.

Merz com Xi em Pequim.
Merz com Xi em Pequim.EPA/MICHAEL KAPPELER / POOL

A mensagem não foi muito diferente daquela que Xi já transmitira ao canadiano Mark Carney, ao francês Emmanuel Macron ou ao britânico Keir Starmer. E o que todos eles foram à procura em Pequim também não. “Quando uma das superpotências mundiais se torna um Estado pária totalmente imprevisível, faz sentido reduzir a dependência dela. Uma forma de o fazer é envolver-se mais estreitamente com a outra superpotência: a China”, resumia há dias Vince Cable, antigo líder dos Liberais Democratas e antigo ministro dos Negócios, Energia e Estratégia Industrial do Reino Unido, num artigo publicado no site Comment Central e intitulado “Peregrinação a Pequim”.

Com a Europa - e o resto do mundo - ainda a tentar calcular o impacto das tarifas impostas pelos EUA de Donald Trump, mesmo depois de o Supremo Tribunal as ter declarado ilegais, não surpreende que os líderes das grandes economias mundiais se virem para a China. É verdade que os EUA continuam a ser, de longe a maior economia mundial, mas com um crescimento de 2,4% previsto para 2026, continuam a ver a China - que o Fundo Monetário Internacional prevê que vá crescer 4,5% (longe dos dois dígitos que manteve durante três décadas após as reformas de Deng Xiaoping) - aproximar-se.

Se quisermos continuar a olhar para os números, basta pensar que para Reino Unido, Alemanha e França o FMI prevê crescimentos de 1,3%, 1,1% e 1% respetivamente. Os críticos, claro, dirão que nem tudo são números. Mas a verdade é que este desfile de líderes ocidentais promete ter o seu auge em finais de março, início de abril, quando o próprio Trump viajar até Pequim para se juntar a Xi num aperto de mão diante das bandeiras chinesa e americana colocadas na Casa de Hóspedes de Diaoyutai. É que mesmo aquele que o mundo ainda se está a habituar a deixar de ver como o líder do mundo livre já percebeu que pode continuar a apresentar a China como grande rival, mas não se pode dar ao luxo de a ignorar.

Editora-executiva do Diário de Notícias

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