A Figura do Dia. A morte de Maria Emília é mais do que isso

Luís Osório

Escritor, jornalista e cronista

Publicado a

A morte de Maria Emília Brederode dos Santos não representa apenas a partida de uma mulher extraordinária, é o fim de um tempo.

A história da democracia portuguesa é feita de múltiplos combates, de inúmeras alianças, inimizades, vitórias e desesperanças. E também de famílias políticas, aristocracias, novos ricos educados, patos bravos ordinários, utópicos e burocratas.

Maria Emília [Brederode Santos] é uma das protagonistas dessa revolução, que não teve o resultado esperado. As gerações mais preparadas da História, por variados motivos, não abraçaram o progresso (...)."
Maria Emília [Brederode Santos] é uma das protagonistas dessa revolução, que não teve o resultado esperado. As gerações mais preparadas da História, por variados motivos, não abraçaram o progresso (...)."Paulo Spranger

Um grupo de pessoas, de direita e esquerda, acreditou que só poderia existir evolução social e económica se todos tivessem acesso ao conhecimento. Graças à sua influência o Ensino democratizou-se e milhões tiveram mais hipóteses do que os seus pais e avós.

Na política, esses homens e mulheres acreditaram igualmente que o poder deveria ser exercido por gente com cultura, com livros, com música, com mundo.

Maria Emília é uma das protagonistas dessa revolução, que não teve o resultado esperado. As gerações mais preparadas da História, por variados motivos, não abraçaram o progresso no que este tem de humano, de afetivo, de social e eticamente empenhado.

"A morte de Maria Emília Brederode dos Santos não representa apenas a partida de uma mulher extraordinária, é o fim de um tempo."

A sua morte deixou-me muito triste. Por não termos tido uma última conversa, por não lhe ter dito o quanto me comovia a sua esperança infinita no ser humano. Foi-se um tempo.

Maria Emília, namorada de juventude de Jorge Sampaio, irmã de Nuno Brederode, mulher de José Medeiros Ferreira, pedagoga das pedagogas, simboliza o que a democracia teve de melhor, uma generosa e empenhada elite que acreditava que o país cresceria se mais pessoas ousassem pensar.

Diário de Notícias
www.dn.pt